quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Em cada linha...

Enfim a inspiração! Mas faltam a caneta e o papel... Caneta e papel! Mas cadê a inspiração?... Quantas vezes passei por isso! Quantas vezes saio como um louco em busca de um pedacinho de papel, uma caneta qualquer, para tentar colocar em ordem ou no mínimo dar um palco para versos que resolvem dançar sem aviso em minha cabeça. E quantas vezes fui torturado pelo palco vazio, pela alva e fria indiferença de um papel em branco!
                 
De um tempo para cá resolvi buscar uma solução para esse problema (ou pelo menos para falta de papel quando as palavras faíscam). Comecei a escrever poemas numa agenda que me acompanha quase o dia todo. Aproveito cada linha. A inspiração continua pouco assídua, ainda não passei do dia doze de janeiro. E observando minha agenda companheira, suas primeiras páginas, cheguei a conclusão de que assim deveriam ser os dias: Que não passassem até estarem repletos de poesia!

E relembrando um poema de Henriqueta Lisboa:

Calendário

Calada floração
Fictícia
Caindo da árvore
Dos dias.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Coração de Manué Seco

Sirvo hoje aqui em nossa mesa alguns versos do poeta Catullo da Paixão Cearense, recitados por Rolando Boldrin. Vi essa emocionante interpretação de Boldrin há alguns dias, no seu programa Sr. Brasil e não poderia deixar de compartilhá-la  aqui no blog. Vale a pena conferir!


sábado, 12 de outubro de 2013

Quando eu for criança

Em homenagem ao dia das crianças, um poema do livro Pá Virada:

Quando eu for criança

Quando eu for criança,
vou reinventar brincadeiras,
vou dormir nos quintais,
e ter um quarto à minha maneira.
Quando eu for criança,
não vou querer dormir cedo,
vou ter medo da luz,
vou fazer mais cirandas,
e só rezar pro menino Jesus.
Vou acreditar nas histórias,
vou ler mais poesias,
passear e cantar na chuva,
deixar os problemas em banho-maria.
Quando eu for criança,
vou derrubar dominó,
dominar tigres e leões
com uma sonhada só.
Vou dar mais “boa noite”,
mais, muito mais abraços
e, sem ter medo de tombos,
vou desamarrar os cadarços.
Quando eu for criança,
vou querer mais aniversários,
mais natais, páscoas e festas.
Vou embaralhar o calendário.
Escovar dente com chocolate,
vou borrar maquiagens,
vou imaginar meu herói
e pintar sua imagem.
Vou usar mais chapéu,
vou mudar mais assuntos.
Quando eu for criança,
não vou querer ser adulto.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Noite

Noite. Esse o tema e o nome de um fabuloso livro escrito por A. Alvarez. Há tempos que eu queria ler esse livro e finalmente estou tendo a oportunidade de saboreá-lo com a devida calma e apreço. Embora um tema como esse pareça demasiadamente amplo e inesgotável, A. Alvarez escreve de maneira incrível sobre esse período ignoto do dia que existe fora e dentro de nós, buscando compreender melhor seus significados e suas linguagens. Para analisar melhor a noite, o autor passeia pela história, poesia, pinturas, sonhos, psicanálise, dentre outras tantas ramificações por onde ela  possa se emaranhar.

Para mim o tema sempre foi motivo de fascínio. Com todas suas estrelas, sua escuridão, sua densa infinitude, a noite é uma das vestes mais transparentes e naturais da poesia. Todos os medos e paixões suscitados pela noite não poderiam deixar de ser inspirações constantes para qualquer um que se aventure pelo mundo literário. 

Os grandes romances comprovam através de seus personagens como a noite exerce uma influência avassaladora nos nossos pensamentos e comportamentos. Se tomarmos como exemplo o clássico romance de Charlotte Bronte, podemos ver como junto ao anoitecer todo drama, toda angústia de Jane Eyre (e a nossa) é exacerbada de uma maneira quase insuportável. Os bons autores sabem usar bem o período noturno para acentuarem ainda mais as paixões, medos e dramas em seus romances.
            
Victor Hugo, em Os trabalhadores do mar, faz uma das mais belas reflexões sobre a noite que cobria e abraçava o solitário Gilliatt:
 
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

Poderíamos seguir aqui com uma lista quase infinita de exemplos de autores (Allan Poe, Robert Frost, Shakespeare...) que vez ou outra ousaram encarar alma à alma esse “inexprimível teto de tênebras”. Mas ao invés disso, deixo a sugestão, para quem se interessar mais pelo assunto, da leitura desse prazeroso e interessantíssimo livro de A. Álvarez: Noite.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A poesia matuta de Jessier Quirino

Hoje sirvo em nossa mesa 3 poemas do grande poeta Jessier Quirino. Os 2 primeiros (Paisagem de Interior e Agruras da lata d`água) são declamados por ele mesmo. O último é uma belíssima interpretação do músico Xangai de "Bolero de Isabel", também do poeta Jessier. Bom apetite!



domingo, 25 de agosto de 2013

Outras cozinhas (Cozinha brasileira)


como abater uma nuvem a tiros (Leminski)

             sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,

            a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
            nas paredes das danceterias
e dos hospitais, 
            os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais


Coisas mansas (Manoel de Barros)

Coisas mansas, de sela, andavam por
      ali bebendo água ...
Ventava
sobre azaleias
e municípios.

Ventinho de pêlo!
Monto nele e vou
experimentando a manhã nos galos ...

Ó este frescor! como um afluente
       de tua boca ...


 

Improviso (Affonso Ávila)

A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário,
pelo amor de sempre.

A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo amor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.

sábado, 3 de agosto de 2013

Caderno da vó Elce - IV

Sofrer por sofrer... (J. G. de Araujo Jorge)

Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...

Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!

Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...

E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!


O beijo do papai (Eustórgio Wanderley)

Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse.
Da boca dos canhões a morte, a rir traiçoeira,
partia a cada instante, e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente assim sacrificados.
Quando, uma tarde, em que cessara num momento
o canhoneio, como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo uma adorável criança,
sem mostras de temor e cheia de confiança
apareceu correndo. O olhar de quem procura,
ansiosa, descobrir naquela massa escura
de uniformes e fumo um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenita um japonês, um bravo,
que, como a língua pátria, entendia a do eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
– "Que desejas, pequena? Que procuras em meio
da tropa, que aqui vês exposta ao bombardeio?"
Quem és tu, de onde vens, que nome tens, menina?”
– "Meu nome" – ela responde – "eu lhe direi, é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
Há muito que o não vejo e desejava agora
vê-lo outra vez!" – "P’ra que?" – pergunta novamente
o filho do Japão, dizendo incontinenti:
– "Ele aqui já não está; seguiu mais para diante.
Porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falo
e eu prometo cumprir teu desejo inocente."
- “É fácil conhece-lo” – informa ela contente
– "É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem, como eu tenho, os olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu como bem pode vê-lo."
E do seio tirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: – "Façamos um contrato:
eu dou-lhe este papai para que não se esqueça
e, vendo o verdadeiro, em breve o reconheça.
Chama-se Ivan." – "Pois bem," – disse o nobre soldado
que o retrato guardou. "Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai... e em breve..."
– "Mas não é um recado que eu peço que lhe leve"
(replica-lhe a pequena) – "Diz-me então o que queres
e eu prometo cumprir o que tu me disseres."
– "Pois bem" – Lina responde – "É este o meu desejo:
chegue junto ao papai e entregue-lhe este beijo..."
E assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
E um bravo que não chora, ante a horrível matança
chorou ao receber um beijo da criança...
Mas como dos canhões ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se acorrer por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara
e as tropas do Mikado aos poucos avançara
num assalto feroz contra o inimigo em frente;
cada qual mais revel, cada qual mais valente!
Quando enfim à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do sol vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada
e pelo campo afora os mortos e os feridos
eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando ao ver de um soldado a fronte descorada,
pendida sobre o peito, a blusa ensangüentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê a perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama:
– "Ivan!" – "Que me quereis?" O moribundo exclama,
surpreso por ver o seu nome proferido
por lábios do inimigo. – "Eu te trago escondido"
– o bravo continua – "um beijo que te envia
tua filhinha Lina... Ela mesma o daria
se pudesse vir cá. Não podendo, guardei-o
para agora o depor de tua fronte em meio.
E ao dizer isso, calmo, o filho do oriente
beijou a fronte do russo e o abraçou ternamente.