Em homenagem ao dia das crianças, um poema do livro Pá Virada:
Quando eu for criança
Quando eu for criança,
vou reinventar brincadeiras,
vou dormir nos quintais,
e ter um quarto à minha maneira.
Quando eu for criança,
não vou querer dormir cedo,
vou ter medo da luz,
vou fazer mais cirandas,
e só rezar pro menino Jesus.
Vou acreditar nas histórias,
vou ler mais poesias,
passear e cantar na chuva,
deixar os problemas em banho-maria.
Quando eu for criança,
vou derrubar dominó,
dominar tigres e leões
com uma sonhada só.
Vou dar mais “boa noite”,
mais, muito mais abraços
e, sem ter medo de tombos,
vou desamarrar os cadarços.
Quando eu for criança,
vou querer mais aniversários,
mais natais, páscoas e festas.
Vou embaralhar o calendário.
Escovar dente com chocolate,
vou borrar maquiagens,
vou imaginar meu herói
e pintar sua imagem.
Vou usar mais chapéu,
vou mudar mais assuntos.
Quando eu for criança,
não vou querer ser adulto.
sábado, 12 de outubro de 2013
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Noite
Noite. Esse o tema e o nome de um fabuloso livro escrito por A. Alvarez. Há tempos que eu queria ler esse livro e finalmente estou tendo a oportunidade de saboreá-lo com a devida calma e apreço. Embora um tema como esse pareça demasiadamente amplo e inesgotável, A. Alvarez escreve de maneira incrível sobre esse período ignoto do dia que existe fora e dentro de nós, buscando compreender melhor seus significados e suas linguagens. Para analisar melhor a noite, o autor passeia pela história, poesia, pinturas, sonhos, psicanálise, dentre outras tantas ramificações por onde ela possa se emaranhar.
Para mim o tema sempre foi motivo de fascínio. Com todas suas estrelas, sua escuridão, sua densa infinitude, a noite é uma das vestes mais transparentes e naturais da poesia. Todos os medos e paixões suscitados pela noite não poderiam deixar de ser inspirações constantes para qualquer um que se aventure pelo mundo literário.
Os grandes romances comprovam através de seus personagens como a noite exerce uma influência avassaladora nos nossos pensamentos e comportamentos. Se tomarmos como exemplo o clássico romance de Charlotte Bronte, podemos ver como junto ao anoitecer todo drama, toda angústia de Jane Eyre (e a nossa) é exacerbada de uma maneira quase insuportável. Os bons autores sabem usar bem o período noturno para acentuarem ainda mais as paixões, medos e dramas em seus romances.
Victor Hugo, em Os trabalhadores do mar, faz uma das mais belas reflexões sobre a noite que cobria e abraçava o solitário Gilliatt:
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."
Poderíamos seguir aqui com uma lista quase infinita de exemplos de autores (Allan Poe, Robert Frost, Shakespeare...) que vez ou outra ousaram encarar alma à alma esse “inexprimível teto de tênebras”. Mas ao invés disso, deixo a sugestão, para quem se interessar mais pelo assunto, da leitura desse prazeroso e interessantíssimo livro de A. Álvarez: Noite.
Poderíamos seguir aqui com uma lista quase infinita de exemplos de autores (Allan Poe, Robert Frost, Shakespeare...) que vez ou outra ousaram encarar alma à alma esse “inexprimível teto de tênebras”. Mas ao invés disso, deixo a sugestão, para quem se interessar mais pelo assunto, da leitura desse prazeroso e interessantíssimo livro de A. Álvarez: Noite.
terça-feira, 3 de setembro de 2013
A poesia matuta de Jessier Quirino
Hoje sirvo em nossa mesa 3 poemas do grande poeta Jessier Quirino. Os 2 primeiros (Paisagem de Interior e Agruras da lata d`água) são declamados por ele mesmo. O último é uma belíssima interpretação do músico Xangai de "Bolero de Isabel", também do poeta Jessier. Bom apetite!
domingo, 25 de agosto de 2013
Outras cozinhas (Cozinha brasileira)
como abater uma nuvem a tiros (Leminski)
sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais
Coisas mansas (Manoel de Barros)
Coisas mansas, de sela, andavam por
ali bebendo água ...
Ventava
sobre azaleias
e municípios.
Ventinho de pêlo!
Monto nele e vou
experimentando a manhã nos galos ...
Ó este frescor! como um afluente
de tua boca ...
Improviso (Affonso Ávila)
A palavra justa
a mim não pertence,
busco-a nessa luta
em que não se vence,
trabalho diário,
pelo amor de sempre.
A palavra triste
a mim não pertence,
perco-a numa lide
cujo amor me vence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
A palavra louca
a mim não pertence,
bebo-a noutra boca
e ela me convence,
trabalho diário
pelo amor de sempre.
sábado, 3 de agosto de 2013
Caderno da vó Elce - IV
Sofrer por sofrer... (J. G. de Araujo Jorge)
Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...
Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!
Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...
E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!
O beijo do papai (Eustórgio Wanderley)
Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse.
Da boca dos canhões a morte, a rir traiçoeira,
partia a cada instante, e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente assim sacrificados.
Quando, uma tarde, em que cessara num momento
o canhoneio, como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo uma adorável criança,
sem mostras de temor e cheia de confiança
apareceu correndo. O olhar de quem procura,
ansiosa, descobrir naquela massa escura
de uniformes e fumo um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenita um japonês, um bravo,
que, como a língua pátria, entendia a do eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
– "Que desejas, pequena? Que procuras em meio
da tropa, que aqui vês exposta ao bombardeio?"
Quem és tu, de onde vens, que nome tens, menina?”
– "Meu nome" – ela responde – "eu lhe direi,
é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
Há muito que o não vejo e desejava agora
vê-lo outra vez!" – "P’ra que?" – pergunta
novamente
o filho do Japão, dizendo incontinenti:
– "Ele aqui já não está; seguiu mais para diante.
Porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falo
e eu prometo cumprir teu desejo inocente."
- “É fácil conhece-lo” – informa ela contente
– "É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem, como eu tenho, os olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu como bem pode vê-lo."
E do seio tirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: – "Façamos um contrato:
eu dou-lhe este papai para que não se esqueça
e, vendo o verdadeiro, em breve o reconheça.
Chama-se Ivan." – "Pois bem," – disse o nobre
soldado
que o retrato guardou. "Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai... e em breve..."
– "Mas não é um recado que eu peço que lhe leve"
(replica-lhe a pequena) – "Diz-me então o que queres
e eu prometo cumprir o que tu me disseres."
– "Pois bem" – Lina responde – "É este o meu
desejo:
chegue junto ao papai e entregue-lhe este beijo..."
E assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
E um bravo que não chora, ante a horrível matança
chorou ao receber um beijo da criança...
Mas como dos canhões ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se acorrer por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara
e as tropas do Mikado aos poucos avançara
num assalto feroz contra o inimigo em frente;
cada qual mais revel, cada qual mais valente!
Quando enfim à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do sol vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada
e pelo campo afora os mortos e os feridos
eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando ao ver de um soldado a fronte descorada,
pendida sobre o peito, a blusa ensangüentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê a perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama:
– "Ivan!" – "Que me quereis?" O
moribundo exclama,
surpreso por ver o seu nome proferido
por lábios do inimigo. – "Eu te trago escondido"
– o bravo continua – "um beijo que te envia
tua filhinha Lina... Ela mesma o daria
se pudesse vir cá. Não podendo, guardei-o
para agora o depor de tua fronte em meio.
E ao dizer isso, calmo, o filho do oriente
beijou a fronte do russo e o abraçou ternamente.
sábado, 27 de julho de 2013
Viagem de trem
(Texto retirado do livro: Argumentos para amar as nuvens).
Quando fiz minha primeira viagem de trem, realizei um antigo sonho. Como sonhava um dia viajar nesses vagões repletos de histórias! Lembro-me do “Dunguinha do Trem”, o simpático zelador do vagão em que eu estava. Ele falava tudo rimado. Orientava sobre a segurança, o meio-ambiente, o trajeto... Viajei anestesiado, em êxtase com a paisagem, o cenário. Às vezes fechava os olhos e punha-me a ouvir a cantiga acelerada daquela orquestra de metal. Outras vezes ouvia os casos dos passageiros ao meu redor. Mas logo voltava a olhar lá para fora. Cada túnel era um mergulho.
Pela janela fui observando também outro trilho, paralelo ao que meu trem percorria. Imagino que ali percorria um trem invisível. Provavelmente, para os passageiros desse outro trem, cada túnel era um vir à tona.
Quando fiz minha primeira viagem de trem, realizei um antigo sonho. Como sonhava um dia viajar nesses vagões repletos de histórias! Lembro-me do “Dunguinha do Trem”, o simpático zelador do vagão em que eu estava. Ele falava tudo rimado. Orientava sobre a segurança, o meio-ambiente, o trajeto... Viajei anestesiado, em êxtase com a paisagem, o cenário. Às vezes fechava os olhos e punha-me a ouvir a cantiga acelerada daquela orquestra de metal. Outras vezes ouvia os casos dos passageiros ao meu redor. Mas logo voltava a olhar lá para fora. Cada túnel era um mergulho.
Pela janela fui observando também outro trilho, paralelo ao que meu trem percorria. Imagino que ali percorria um trem invisível. Provavelmente, para os passageiros desse outro trem, cada túnel era um vir à tona.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Tempestades
É como diz o ditado:
"Está na poesia é para se molhar".
Daqui para frente meus "is" não terão mais pingos,
terão tempestades...
"Está na poesia é para se molhar".
Daqui para frente meus "is" não terão mais pingos,
terão tempestades...
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