sábado, 3 de agosto de 2013

Caderno da vó Elce - IV

Sofrer por sofrer... (J. G. de Araujo Jorge)

Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...

Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!

Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...

E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!


O beijo do papai (Eustórgio Wanderley)

Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse.
Da boca dos canhões a morte, a rir traiçoeira,
partia a cada instante, e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente assim sacrificados.
Quando, uma tarde, em que cessara num momento
o canhoneio, como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo uma adorável criança,
sem mostras de temor e cheia de confiança
apareceu correndo. O olhar de quem procura,
ansiosa, descobrir naquela massa escura
de uniformes e fumo um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenita um japonês, um bravo,
que, como a língua pátria, entendia a do eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
– "Que desejas, pequena? Que procuras em meio
da tropa, que aqui vês exposta ao bombardeio?"
Quem és tu, de onde vens, que nome tens, menina?”
– "Meu nome" – ela responde – "eu lhe direi, é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
Há muito que o não vejo e desejava agora
vê-lo outra vez!" – "P’ra que?" – pergunta novamente
o filho do Japão, dizendo incontinenti:
– "Ele aqui já não está; seguiu mais para diante.
Porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falo
e eu prometo cumprir teu desejo inocente."
- “É fácil conhece-lo” – informa ela contente
– "É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem, como eu tenho, os olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu como bem pode vê-lo."
E do seio tirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: – "Façamos um contrato:
eu dou-lhe este papai para que não se esqueça
e, vendo o verdadeiro, em breve o reconheça.
Chama-se Ivan." – "Pois bem," – disse o nobre soldado
que o retrato guardou. "Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai... e em breve..."
– "Mas não é um recado que eu peço que lhe leve"
(replica-lhe a pequena) – "Diz-me então o que queres
e eu prometo cumprir o que tu me disseres."
– "Pois bem" – Lina responde – "É este o meu desejo:
chegue junto ao papai e entregue-lhe este beijo..."
E assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
E um bravo que não chora, ante a horrível matança
chorou ao receber um beijo da criança...
Mas como dos canhões ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se acorrer por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara
e as tropas do Mikado aos poucos avançara
num assalto feroz contra o inimigo em frente;
cada qual mais revel, cada qual mais valente!
Quando enfim à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do sol vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada
e pelo campo afora os mortos e os feridos
eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando ao ver de um soldado a fronte descorada,
pendida sobre o peito, a blusa ensangüentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê a perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama:
– "Ivan!" – "Que me quereis?" O moribundo exclama,
surpreso por ver o seu nome proferido
por lábios do inimigo. – "Eu te trago escondido"
– o bravo continua – "um beijo que te envia
tua filhinha Lina... Ela mesma o daria
se pudesse vir cá. Não podendo, guardei-o
para agora o depor de tua fronte em meio.
E ao dizer isso, calmo, o filho do oriente
beijou a fronte do russo e o abraçou ternamente.

sábado, 27 de julho de 2013

Viagem de trem

(Texto retirado do livro: Argumentos para amar as nuvens).
 
Quando fiz minha primeira viagem de trem, realizei um antigo sonho. Como sonhava um dia viajar nesses vagões repletos de histórias! Lembro-me do “Dunguinha do Trem”, o simpático zelador do vagão em que eu estava. Ele falava tudo rimado. Orientava sobre a segurança, o meio-ambiente, o trajeto... Viajei anestesiado, em êxtase com a paisagem, o cenário. Às vezes fechava os olhos e punha-me a ouvir a cantiga acelerada daquela orquestra de metal. Outras vezes ouvia os casos dos passageiros ao meu redor. Mas logo voltava a olhar lá para fora. Cada túnel era um mergulho. 

Pela janela fui observando também outro trilho, paralelo ao que meu trem percorria. Imagino que ali percorria um trem invisível. Provavelmente, para os passageiros desse outro trem, cada túnel era um vir à tona.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Tempestades

É como diz o ditado:
"Está na poesia é para se molhar".
Daqui para frente meus "is" não terão mais pingos,
terão tempestades...

sábado, 22 de junho de 2013

Outras cozinhas (Cozinha portuguesa - II)



Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias 
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair

do bairro

  
Escrever depois de um dia de trabalho árduo (Luís Filipe Parrado)

Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira

e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.

Ainda assim
escrevo,

ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.

Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso

e parecem-se estranhamente
com listas de compras,

pão, laranjas,
maçãs,

coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,

coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.


Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (Nuno Costa Santos)

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandesce venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.

domingo, 16 de junho de 2013

..........

Ganhar uma cor de Abril
Dando voltas na praça.
Aconselhando o inverno
Para quem passa.

Buscando atentamente
Qualquer estrela escassa
Para saber se a noite caiu
Fora ou dentro de casa.

sábado, 8 de junho de 2013

Caderno da vó Elce - III

Mais poesia do jardim de letras da vó...

Mágoa (Virgínia Victorino)

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração,
eu que julgara eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou,- apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
-  um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser tão desgraçada,
é pena de ter sido tão feliz.



Gostaria de pedir ajuda aos leitores para descobrir de quem é este poema abaixo também retirado do caderno da vó Elce. Dei uma pesquisada na internet e uma das possibilidades é de que seja de Antônio Tomáz, mas não posso afirmar. Pois bem, eis o poema:

A filha do bandido

Vai em busca do pai esta criança
Pálida e triste, anêmica e franzina
Que lembra, tão despida de esperança,
A rosa emurchecida da campina
 
Vai só, a estrada é solitária e escura
Há um atalho onde o terror habita,
De repente ela pára, treme e grita,
Que mãos estranhas o pulso lhe segura.
 
A bolsa ou a vida, alguém lhe brada
Erguendo o punhal assassino,
Ela, tremendo de susto, quase morta, espavorida
 
responde, reconhecendo a fala
A bolsa, sou pobre, não a tenho
Mas a vida, tu me deste, meu pai, podes tirá-la.