terça-feira, 17 de julho de 2012

Outras cozinhas (Florbela, Adélia e Cecília)

Vaidade (Florbela Espanca)

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Ensinamento (Adélia Prado)

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


Conveniência (Cecília Meireles)

Convém que o sonho tenha margem de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio.

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...)
E eu pensarei:"Que bom! nem é preciso respirar!..."

terça-feira, 10 de julho de 2012

Versos soltos

...............

(Para Luja)

Essa doçura que seus olhos defendem
como incansáveis sentinelas de mel...
Tenho a impressão de que quando se fecham,
fecham-se também os portões do céu.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Na mesa do bar



Este é o primeiro texto que escrevo sentado na mesa de um bar. Na verdade não estou escrevendo o texto, só anotando algumas observações para depois serem devidamente trabalhadas. Sinto-me como um membro do Clube Pickwick, com meu caderninho de anotações.

Henrique de Campos, ao escrever um prefácio para um livro de contos de Tchecov, diz que um dos motivos que fez desse contista um dos maiores escritores russos foi o fato de o mesmo ser médico. Segundo Henrique, um médico tem em seu trabalho contato com milhares de histórias, a história de vida de cada paciente, de cada pessoa que ele se propõe a atender e a escutar. A prática da medicina seria assim um campo fértil para literatura. Concordo, mas sou obrigado a acrescentar que a mesa de um bar é tão fértil quanto a mesa de um consultório, no que diz respeito a histórias de vidas.

Não faz uma hora que estou no bar e já pude ouvir algumas histórias bem interessantes das pessoas que estão a minha volta (confesso que pareço aqui um pouco intrometido). São histórias do cotidiano dessas pessoas, do dia-a-dia, histórias comuns, mas que bem contadas, dariam belos livros e profundas reflexões. Tchecov era mestre nisso. Seus contos são, em geral, situações corriqueiras de sua época, recortes da vida cotidiana. E poucos souberam fazer isso tão bem como Tchecov. Como o próprio Henrique ressalta, seus contos terminam quase sempre em reticências, não têm um final “impactante”, um desfecho certo. Seus personagens são pessoas comuns da sociedade russa da época. A maioria dos contos desse grande literato russo é um “flagrante da existência”, um mergulho no rio da vida que está sempre a correr.

Logicamente é preciso passar essas observações corriqueiras, esses casos do dia-a-dia, pelo filtro da arte. A mera descrição, sem qualquer enfeite, sem qualquer poesia, não seria muito atrativa para se ler. É preciso cozinhar devidamente as palavras. Tchecov era extremamente preocupado com esse preparo de seus contos. Preocupava-se com a musicalidade, o ritmo das frases. Um bom autor sabe que é necessário enfeitar suas narrativas, inclusive com coisas que não existem. Transformar o cru em algo comestível e agradável.

Sugiro para o leitor que queria prolongar essa nossa prosa, que leia os contos de Tchecov, em particular “O beijo”. É impressionante como o autor consegue transformar o que seria “um simples beijo” em algo tão intrigante, em um conto tão atrativo e repleto de sonhos e reflexões... E quanto às minhas observações de bar, já tenho o bastante. Vou agora para casa tentar torná-las comestíveis... Garçom, por favor, um conto! Digo, a conta!

domingo, 1 de julho de 2012

Com outros olhos...

Aproveitando a tarde de domingo para reler alguns rabiscos antigos, encontrei um texto que escrevi faz tempo. Na época não dei a ele muita importância, ficou esquecido, mas hoje o li com outros olhos (caramujos, peixes, cegos). Compartilho esse velho novo texto agora com vocês:

Quando fores contemplar a beleza de quem amas...

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla lentamente. Passeia sobre ela com teus olhos-caramujos, passando por cada detalhe daquela imensidão e deixando sempre um rastro para que teus sonhos e lembranças não percam o caminho.

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla fundo. Mergulha com teus olhos-peixes no raso e no fundo, sabendo que ali há mais tesouros e mistérios do que os olhos podem encontrar.

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla tudo. Mira a beleza com teus olhos-cegos e a toque não só com tuas mãos, mas com cada pedacinho de teu ser que puder aparar uma gotícula de alma.

E por fim, não passeia, não mergulha, não mira. Vive ali! Planta ali teus olhos como duas sementes, como duas mudas de esperança. E não tenhas dúvida, o olhos que germinam na beleza de um amor trazem consigo cores que a primavera ainda desconhece.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Outras cozinhas (Henriqueta, Machado e Adelaide)

Calendário (Henriqueta Lisboa)

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias


Círculo vicioso (Machado de Assis)

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"...
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...


Evolução (Adelaide Petters Lessa)

Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu poderia...

Eu poderia passar a eternidade olhando as flores, contanto que não soubesse seus nomes.



Fotografia - LUIZA DUARTE

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O que (não) dizem os astros

Quem visita Belo Horizonte não pode deixar de ir à Praça do Papa e apreciar a vista de lá. É sem dúvida uma das vistas mais bonitas que se pode ter da cidade (principalmente à noite, quando está toda iluminada). Pode-se dizer que a vista de lá é uma compensação aos moradores da capital por perderem as estrelas. Pois é fato que, não só na capital mineira como em outras grandes cidades, é bem difícil ver estrelas. As luzes da cidade atrapalham e o que se vê são apenas poucos pontinhos brilhantes no céu.
Quando eu morava em Ervália, numa casa na roça, era bem diferente. Lá era fácil ver estrelas. Constelações inteiras. Estrelas cadentes. Um céu verdadeiramente iluminado. Costumava pegar meu violão, uma cerveja e ir para varanda sentar-me acompanhado das estrelas. A lua também era companheira em certas ocasiões.
Tenho certeza de que o que acabei de relatar acima não é de forma alguma um gosto exclusivamente meu. Estou convicto de que muitos dos que leram ou estão a ler esse texto também compartilham desse gosto pelas estrelas, pela lua, pelos astros. Espero que estejam gostando também da leitura. Tem gente que gosta de misturar esses dois gostos, astros e leitura. Essa gente gosta de ler os astros. Gosta de ler seu destino neles. Mas, caros astrólogos, porque achar um destino nos astros? Os astros estão lá para nos falar do infinito e não do destino. Por que tentar achar um só caminho no infinito do universo? Desculpem-me os leitores (de astros), mas creio que as estrelas, a lua, os planetas não foram feitos para serem lidos. Talvez escutados, como Kepler há muito tentou fazer. Kepler, um dos maiores observadores de noites estreladas que já existiu, sonhava um dia escutar a canção tocada pelos astros. Mas não era uma canção que falasse de destino, era a canção sobre o infinito, o universo, os sonhos.
Quando me sentava na varanda para ver estrelas eu não ficava procurando um destino, um caminho escrito, pelo contrário, eu gostava de me ver perdido naquela imensidão. Confesso que talvez tivesse sido melhor, em todas as vezes que fui à varanda, ter deixado de lado o violão e ter feito como Kepler, tentado ouvir a canção dos astros ao invés de fazer serenata para eles. Apesar de meu imenso gosto pela leitura, não misturo as coisas. Não leio estrelas. E pretendo continuar assim. Não quero um alfabeto para os meus sonhos. O único destino escrito nos astros é o do infinito.
Pois bem, aos que visitarem Belo Horizonte, repito: vão à Praça do Papa ao anoitecer! Observem a cidade de lá! Mas não procurem por ruas, avenidas, rodovias... Apenas observem e se percam! Ah, sugiro o mesmo para os que forem observar estrelas.