Mantendo o hábito do prato dominical, ponho à mesa mais um poema do "Pá Virada". Vale lembrar que, para os que ainda não conhecem, o livro está disponível para download aqui no blog. Bom apetite! E grande abraço!!!
(Em homenagem a Ervália - MG)
É tarde, após o almoço.
O sol ocupou todos os lugares da praça.
De quando em quando alguém passa,
num passo mais pra prosa que pra pressa.
E assim, o dia arremessa seu anzol
nas ruas da cidadezinha.
Uns beliscam, outros nem vêem a isca.
Eita calma! Ah preguiça...
O dia também vai se deitar à sombra....
domingo, 27 de março de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Pequena crônica de um prisioneiro
Certa vez, fui para o meu quarto e me enclausurei lá dentro a fim de passar toda a tarde lendo e escrevendo. Não queria barulhos, distrações, incômodos. O sol também não era bem-vindo, bastava-me a luz elétrica do meu pequeno abajur.
Tranquei a porta e fechei todas as janelas, nem mesmo uma pequena greta me passou despercebido. Certifiquei-me que não havia nenhuma mosca ao redor que pudesse, consequentemente, zumbir mais alto do que minha silenciosa leitura. Possivelmente eu era o único ser vivo naquele quarto. Estava como um animal enjaulado ou um desses prisioneiros confinados em uma inescapável masmorra. A diferença é que eu estava assim por vontade própria e, de certa forma, o mundo lá fora é que me parecia uma irremediável e caótica cela.
Pois bem, passado algumas horas, lia eu atentamente um antigo exemplar de “Entre quatro paredes” de Jean P. Sartre, que tive a felicidade de encontrar baratinho num sebo ao lado de minha casa, quando meu celular tocou. Ah, o maldito celular! Como pude esquecer de desligá-lo?! Naquele momento então, tive a nítida impressão de que eu havia cavado acidentalmente, na minha estreita e retangular liberdade, um buraco para minha prisão.
Tranquei a porta e fechei todas as janelas, nem mesmo uma pequena greta me passou despercebido. Certifiquei-me que não havia nenhuma mosca ao redor que pudesse, consequentemente, zumbir mais alto do que minha silenciosa leitura. Possivelmente eu era o único ser vivo naquele quarto. Estava como um animal enjaulado ou um desses prisioneiros confinados em uma inescapável masmorra. A diferença é que eu estava assim por vontade própria e, de certa forma, o mundo lá fora é que me parecia uma irremediável e caótica cela.
Pois bem, passado algumas horas, lia eu atentamente um antigo exemplar de “Entre quatro paredes” de Jean P. Sartre, que tive a felicidade de encontrar baratinho num sebo ao lado de minha casa, quando meu celular tocou. Ah, o maldito celular! Como pude esquecer de desligá-lo?! Naquele momento então, tive a nítida impressão de que eu havia cavado acidentalmente, na minha estreita e retangular liberdade, um buraco para minha prisão.
domingo, 20 de março de 2011
Conversa Fiada
Ponho à mesa, mais um poema do livro "Pá virada". Bom apetite!
O poema se sentia por cima,
Estava todo prosa:
Não preciso de rimas,
Bastam-me as rosas!
O texto não encontrava pretexto
Para por fim na conversa:
Chega de rimas e rosas,
Basta-me a reza!
A oração quis saber que horas eram
E fez logo um resumo:
Chega de rimas, rosas e rezas,
Cada um toma seu rumo!
E o conto no seu canto,
Ao ouvir aquele aviso,
Também tomou seu rumo
Em meio a rimas, rosas, rezas e risos...
O poema se sentia por cima,
Estava todo prosa:
Não preciso de rimas,
Bastam-me as rosas!
O texto não encontrava pretexto
Para por fim na conversa:
Chega de rimas e rosas,
Basta-me a reza!
A oração quis saber que horas eram
E fez logo um resumo:
Chega de rimas, rosas e rezas,
Cada um toma seu rumo!
E o conto no seu canto,
Ao ouvir aquele aviso,
Também tomou seu rumo
Em meio a rimas, rosas, rezas e risos...
quinta-feira, 17 de março de 2011
Rubem Alves
Olá pessoal. Estou passando aqui para informar que, no dia 23 de março, o escritor Rubem Alves estará em Belo Horiozonte-MG. Ele é o convidado do "Sempre um Papo" para debate e lançamento de seu livro "Variações Sobre o Prazer" (Ed. Planeta). O debate ocorrerá, como já foi dito, no dia 23 de março, às 19:30, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Vale a pena conferir!
Grande abraço!
Grande abraço!
quarta-feira, 16 de março de 2011
Festa Brasileira (Parte IV)
Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!
(Fim)
(... mas a festa continua)
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!
(Fim)
(... mas a festa continua)
quinta-feira, 10 de março de 2011
Urbanização
Em Belo Horizonte, ao anoitecer, é possível ouvir o peculiar canto das cigarras nos mais diferentes pontos da cidade. E dependendo do local, com um ouvido mais atento, pode-se ouvir outros tantos seres noturnos como os morcegos, as corujas, os relógios de ponteiro... e os grilos? Para onde foram os grilos? Creio que esses estão naturalmente desaparecendo dos ambientes urbanos. É a ordem natural das coisas, a evolução: os grilos já não podem contra os alarmes de carro.
quinta-feira, 3 de março de 2011
Aperitivos
Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.
...
A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!
A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...
..................................................
...
João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.
Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.
Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.
Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.
Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.
Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...
...................................................
...
A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…
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A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!
A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...
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João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.
Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.
Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.
Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.
Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.
Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...
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A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!
Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…
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