terça-feira, 22 de novembro de 2011

Como acreditava Descartes


Dizem que algumas pessoas estão à frente do seu tempo. São visionárias. Só o futuro as entenderá. Elas conseguem enxergar além do agora. Eu, com certeza, não sou uma delas.
Acho que estou atrás do meu tempo. Muito atrás. Talvez uns cinquenta anos ou mais. Sinto saudade das coisas que passaram e eu não vivi. Meus olhos não enxergam muito além de ontem.
Meu coração ainda está se deliciando, de maneira inédita, com as confusões de Mazzaropi (foto). Meus ouvidos ainda têm o timbre das eletrolas e parecem cantar por si só as canções de Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Mário Reis, Vicente Celestino, Gordurinha... Meus olhos ainda necessitam serem regados por luz de lampião, para navegarem a Rússia de Dostoievski, a Bahia de Gregório e quem sabe até apoitar na Lisboa de Fernando?! Minha boca, antes de cada beijo, quer fazer serenata. E no meu carnaval, ela ainda quer cantar marchinhas.
Não desprezo o novo. Mas acho, caros amigos, que tenho mesmo a alma velha, amarrotada e empoeirada, esquecida na glândula pineal...

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Retalhos do Pano - II

Mais uns poeminhas do livro "O poeta e o pano"...

PREFÁCIO

(Para a Luja)

Vai passando o longo inverno enfim, pequena!
O frio cede ante ao frêmito do novo,
começa a vida a renovar as suas penas,
despe o mundo do seu vestido de corvo.

Eis que tudo reaprende a ordem inata!
Até meu corpo, acostumado a teu calor,
afasta-se, estica-se e então a ti reata!
Quer agora reaprender o teu frescor.

Mas não careço para alegrar, pequena,
dos espectros das margaridas, dos lírios,
das begônias, das rosas, das açucenas.

Já bem sei o grande jardim que nos espera.
Quando vi, amor, esses seus olhinhos lindos,
vi também um prefácio da primavera.


A MENINA E A FLOR

(Para Ana Clara e Júlia)

De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.


HINO DOS POETAS DO DESERTO

Maldigo esse fado sedutor e traiçoeiro!
Iludido eu canto a minha perdição.
Regastes de versos as minhas mãos,
mas peço, ó deuses, dai-me ouvido:
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Ao cantar o céu, não mais sou sincero.
Os hinos que canto colhi no deserto.
Não vi uma ninfa sem hienas por perto.
De que vale o mel sem o pão prometido?
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Cada vil miragem esculpi com esmero,
sem ver que os oásis eram de areia.
Eu vi seguir-me uma sombra alheia
com mãos amputadas e peito ferido.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Dai-me o castigo que tanto quero!
Tomai-me as palavras, a tinta, o canto!
Tornarei potável meu próprio pranto
e farei poemas juntando gemidos.
Levai as penas de Homero
e dai-me a flecha do Cupido!

Só o amor, só amor faz sentido
a um poeta cansado de rimas,
de metrificar em vão sua sina.
Dai-me! Dai-me o que tanto quero!
Ou arrancarei as penas do Cupido
e matarei à flechada Homero!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dois coração

Perguntaram-me: o que rima melhor com coração? Respondi na lata: coração. Acho que não fui levado muito a sério.
Se analisarmos ortograficamente é uma rima perfeita. Mas acho que a pessoa queria algo do tipo “algodão”, “lamentação”, “corrupião” ou talvez eu tenha me expressado mal. Esqueci de dizer que era “outro coração” e não o mesmo. Pois nada rima melhor com um coração do que “outro coração”. E nada de pôr no plural! Lembro-me que certa vez, aventurando-me a compor uma canção, escrevi: “Coração não tem plural. Um é pouco, dois é um, três é de mãe”...

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Poesia de papel

Queria que todas as vezes
que eu escrevesse,
minhas palavras tocassem o mínimo
possível no papel.
É preciso conservar nele sua leveza,
sua fragrância de céu.
Queria escrever poemas
que só andassem nas pontas dos pés,
com palavras bailarinas.
É preciso conservar na folha
o seu jeito de menina.
Delicada. Sem uma só dobrinha.
Mas sou rude,
não sei cortejar a folha com palavras
e acabo sempre recorrendo
às flores...