Ultimamente tenho andado um pouco perdido no tempo. Erro o dia, o mês e, às vezes, até o ano. Passei quase todo mês de agosto acreditando que estava no mês nove, quando fui informado que ainda era o mês oito. Mas meu problema não é com a memória nem com o tempo, meu problema é com os números. Acho que estou aos poucos excluindo os números da minha vida, deixando algarismos pelo caminho.
Desde que assumi de vez meu casamento com as letras, os números têm ficado abandonados. E hão de continuar assim. Pois enquanto esses números insistem em contar as horas, as datas e tantas outras coisas sem valor, há muito as letras me ensinaram a contar o infinito.
terça-feira, 23 de agosto de 2011
terça-feira, 16 de agosto de 2011
Badulaques
Meu fiel carderno, que me acompanhou durante anos, onde eu escrevia poemas, pensamentos, lembretes e etc, chegou ao fim. A maioria dos meus poemas, das coisas que sirvo aqui em nossa mesa, foi escrita nele. Agora vou guardá-lo cuidadosamente, zelando pelas suas páginas já fragilizadas.
Há nele também muitos esboços de poemas, tentativas não tão bem sucedidas de expressar-me. Muitas palavras vão ficar só com ele. Porém, antes de aposentá-lo oficialmente, selecionei aqui algumas dessas palavras, desses versos que, como um gesto de homenagem, gostaria de compartilhar com vocês. Grande abraço!
Poema de Esquina
Estou propenso à esquiva,
ao abrigo reto da esquina.
Quero o encontro no vértice,
sem sinapse entre as quinas.
Calcularei a distância segura.
Se dou pé nas suas palavras,
Se aturo me ater nas alturas.
Dessa vez quero ter chão
ao alcance da alma.
Soletre cada silêncio,
quero o infinito com calma.
E não, não apresse o contato.
Deixe os corpos para os ouvidos.
Deixe os olhos usarem o tato.
Minas de fios
Aquele que vai ali
é homem desconfiado,
do papo fiado,
do chapéu desfiado.
Aquele que vai ali
é da graça afiada,
da viola afinada,
da fé e mais nada.
Aquele que vai ali
é das Minas de fio,
é fiote das Gerais...
Sadomasoquismo no sertão
Não que eu goste da dor
nem que queira ser santo,
mas não há uma só alegria
que quebre o prazer e o encanto
de ver a tarde morrendo
com uma viola em pranto...
Há nele também muitos esboços de poemas, tentativas não tão bem sucedidas de expressar-me. Muitas palavras vão ficar só com ele. Porém, antes de aposentá-lo oficialmente, selecionei aqui algumas dessas palavras, desses versos que, como um gesto de homenagem, gostaria de compartilhar com vocês. Grande abraço!
Poema de Esquina
Estou propenso à esquiva,
ao abrigo reto da esquina.
Quero o encontro no vértice,
sem sinapse entre as quinas.
Calcularei a distância segura.
Se dou pé nas suas palavras,
Se aturo me ater nas alturas.
Dessa vez quero ter chão
ao alcance da alma.
Soletre cada silêncio,
quero o infinito com calma.
E não, não apresse o contato.
Deixe os corpos para os ouvidos.
Deixe os olhos usarem o tato.
Minas de fios
Aquele que vai ali
é homem desconfiado,
do papo fiado,
do chapéu desfiado.
Aquele que vai ali
é da graça afiada,
da viola afinada,
da fé e mais nada.
Aquele que vai ali
é das Minas de fio,
é fiote das Gerais...
Sadomasoquismo no sertão
Não que eu goste da dor
nem que queira ser santo,
mas não há uma só alegria
que quebre o prazer e o encanto
de ver a tarde morrendo
com uma viola em pranto...
domingo, 14 de agosto de 2011
As tres irmans do poeta
Para nosso prato dominical, gostaria de servir um dos meus poemas favoritos, "As tres irmans do poeta", de Castro Alves. Para pô-lo à mesa, mantenho-me fiel à edição de 1989 de onde o retirei. De acompanhamento, vai a narração feita pelo grande músico e poeta Elomar. Bom apetite!
AS TRES IRMANS DO POETA (Traduzido de E. BERTHOUD)
É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão tres pallidas virgens silenciosas
Atravez da procella irrequieta.
Vão tres pallidas virgens... vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias ...
Na fronte cismadora do — Poeta —
"Saude, irmão, eu sou a Indifferença.
Sou eu quem te sepulta a ideia immensa,
Quem no teu nome a escuridão projecta...
Fui eu que te vesti do meu sudario...
Que vais fazer tão triste e solitario?. . ."
— "Eu lutarei!" — responde-lhe o Poeta.
"Saude, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu misero pão, misero athleta!
Hoje, amanhan, depois... depois (qu'importa?)
Virei sempre sentar-me á tua porta. . ."
—“Eu soffrerei!” — responde-lhe o Poeta.
"Saude, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hymno augusto e forte.
Marquei-te a fronte, misero propheta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cantico gelar-se no meu seio?!"
— "Eu cantarei no céu" — responde-lhe o Poeta!
AS TRES IRMANS DO POETA (Traduzido de E. BERTHOUD)
É noite! as sombras correm nebulosas.
Vão tres pallidas virgens silenciosas
Atravez da procella irrequieta.
Vão tres pallidas virgens... vão sombrias
Rindo colar n’um beijo as bocas frias ...
Na fronte cismadora do — Poeta —
"Saude, irmão, eu sou a Indifferença.
Sou eu quem te sepulta a ideia immensa,
Quem no teu nome a escuridão projecta...
Fui eu que te vesti do meu sudario...
Que vais fazer tão triste e solitario?. . ."
— "Eu lutarei!" — responde-lhe o Poeta.
"Saude, meu irmão! Eu sou a Fome.
Sou eu quem o teu negro pão consome...
O teu misero pão, misero athleta!
Hoje, amanhan, depois... depois (qu'importa?)
Virei sempre sentar-me á tua porta. . ."
—“Eu soffrerei!” — responde-lhe o Poeta.
"Saude, meu irmão! Eu sou a Morte.
Suspende em meio o hymno augusto e forte.
Marquei-te a fronte, misero propheta!
Volve ao nada! Não sentes neste enleio
Teu cantico gelar-se no meu seio?!"
— "Eu cantarei no céu" — responde-lhe o Poeta!
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Outras cozinhas (eróticos)
Delírio (Olavo Bilac)
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Para o sexo a expirar (Drummond)
Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.
Depois da orgia (Augusto dos Anjos)
O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
Nua, mas para o amor não cabe o pejo
Na minha a sua boca eu comprimia.
E, em frêmitos carnais, ela dizia:
– Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!
Na inconsciência bruta do meu desejo
Fremente, a minha boca obedecia,
E os seus seios, tão rígidos mordia,
Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.
Em suspiros de gozos infinitos
Disse-me ela, ainda quase em grito:
– Mais abaixo, meu bem! – num frenesi.
No seu ventre pousei a minha boca,
– Mais abaixo, meu bem! – disse ela, louca,
Moralistas, perdoai! Obedeci...
Para o sexo a expirar (Drummond)
Para o sexo a expirar eu me volto, expirante,
raiz de minha vida, em ti me enredo e afundo.
Amor, amor, amor — o braseiro radiante
que me dá, pelo orgasmo, a explicação do mundo.
Pobre carne senil, vibrando insatisfeita,
a minha se rebela ante a morte anunciada.
Quero sempre invadir essa vereda estreita
onde o gozo maior me propicia a amada.
Amanhã, nunca mais. Hoje mesmo quem sabe?
enregela-se o nervo, esvai-se-me o prazer
antes que, deliciosa, a exploração acabe.
Pois que o espasmo coroe o instante do meu termo,
e assim possa eu partir, em plenitude o ser,
de sémen aljofrando o irreparável ermo.
Depois da orgia (Augusto dos Anjos)
O prazer que na orgia a hetaíra goza
Produz no meu sensorium de bacante
O efeito de uma túnica brilhante
Cobrindo ampla apostema escrofulosa!
Troveja! E anelo ter, sôfrega e ansiosa,
O sistema nervoso de um gigante
Para sofrer na minha carne estuante
A dor da força cósmica furiosa.
Apraz-me, enfim, despindo a última alfaia
Que ao comércio dos homens me traz presa,
Livre deste cadeado de peçonha,
Semelhante a um cachorro de atalaia
Às decomposições da Natureza,
Ficar latindo minha dor medonha!
quinta-feira, 4 de agosto de 2011
É preciso morrer!
Nossa cozinha está de volta após esse pequeno recesso! Durante esse curto período em que estive ausente, tive alguns “árduos afazeres”, mas reservei tempo para algumas saborosas leituras que não podem faltar no nosso dia-a-dia. Dentre elas, Dostoievski.
O príncipe Míchkin, de O Idiota, sem dúvida é um dos maiores personagens criados até hoje. Uma das intenções de Dostoievski ao escrever esse fabuloso livro era, como ele mesmo relatou, “retratar um homem perfeitamente belo”, um homem que fosse perfeitamente bom. Para tal façanha, o autor observou que precisaria de muita inspiração, constatando que, em toda história, o único homem que havia satisfeito esse ideal de “perfeitamente belo” foi Cristo (após um longo período na prisão, Dostoievski aderiu firmemente aos valores cristãos). No mundo literário, o personagem que mais se aproximava desse ideal era Dom Quixote, embora para o autor tal personagem parecia, em certas circunstâncias, demasiadamente cômico (Dostoievski estudou ainda personagens como o Sr. Pickwick de Dickens e Jean Valjean de Victor Hugo). E assim nasceu o príncipe Míchkin, uma mistura de Cristo com Dom Quixote.
Entretanto, mais do que características advindas dessa mistura, o humanista príncipe Míchkin era, em muitos momentos, uma representação do próprio autor. O príncipe era epilético assim como Dostoievski e carregava muitas das experiências que o escritor passou em vida. Talvez esse tenha sido um dos personagens mais autobiográficos do autor em questão.
Existe uma famosa frase latina que diz “primo vivere, deinde philosophare”, primeiro há de viver, depois há de filosofar. Assim também é usado na literatura: primeiro há de viver, depois há de escrever. Dostoievski fez isso brilhantemente. Sua vida está quase toda descrita em seus livros.
Por outro lado, ao escrever seus poemas, Sylvia Plath contrariou um pouco essa idéia. Ela propôs talvez uma idéia de que “primeiro há de morrer, depois há de escrever”. Pois é, caros amigos, Plath estava certo! Em muitas ocasiões, para escrever um bom romance, um bom poema, é preciso morrer algumas vezes...
“Morrer
é uma arte, como tudo mais.
Eu, por exemplo, morro excepcionalmente bem.
Morro para me sentir no inferno.
Morro para me sentir real.
Acho que se pode dizer que tenho um dom.”
(Sylvia Plath)
O príncipe Míchkin, de O Idiota, sem dúvida é um dos maiores personagens criados até hoje. Uma das intenções de Dostoievski ao escrever esse fabuloso livro era, como ele mesmo relatou, “retratar um homem perfeitamente belo”, um homem que fosse perfeitamente bom. Para tal façanha, o autor observou que precisaria de muita inspiração, constatando que, em toda história, o único homem que havia satisfeito esse ideal de “perfeitamente belo” foi Cristo (após um longo período na prisão, Dostoievski aderiu firmemente aos valores cristãos). No mundo literário, o personagem que mais se aproximava desse ideal era Dom Quixote, embora para o autor tal personagem parecia, em certas circunstâncias, demasiadamente cômico (Dostoievski estudou ainda personagens como o Sr. Pickwick de Dickens e Jean Valjean de Victor Hugo). E assim nasceu o príncipe Míchkin, uma mistura de Cristo com Dom Quixote.
Entretanto, mais do que características advindas dessa mistura, o humanista príncipe Míchkin era, em muitos momentos, uma representação do próprio autor. O príncipe era epilético assim como Dostoievski e carregava muitas das experiências que o escritor passou em vida. Talvez esse tenha sido um dos personagens mais autobiográficos do autor em questão.
Existe uma famosa frase latina que diz “primo vivere, deinde philosophare”, primeiro há de viver, depois há de filosofar. Assim também é usado na literatura: primeiro há de viver, depois há de escrever. Dostoievski fez isso brilhantemente. Sua vida está quase toda descrita em seus livros.
Por outro lado, ao escrever seus poemas, Sylvia Plath contrariou um pouco essa idéia. Ela propôs talvez uma idéia de que “primeiro há de morrer, depois há de escrever”. Pois é, caros amigos, Plath estava certo! Em muitas ocasiões, para escrever um bom romance, um bom poema, é preciso morrer algumas vezes...
“Morrer
é uma arte, como tudo mais.
Eu, por exemplo, morro excepcionalmente bem.
Morro para me sentir no inferno.
Morro para me sentir real.
Acho que se pode dizer que tenho um dom.”
(Sylvia Plath)
Assinar:
Comentários (Atom)