quinta-feira, 15 de março de 2012

Quem ama sopra

Meu estômago está queimando. Não costumo sentir azias ou coisas do tipo, mas acho que essa queimação é consequência de uma pequena aventura pela culinária baiana.
O estômago é o órgão incendiário. Deixando de lado alguns pratos “arretados”, quem nunca sentiu o estômago queimar, arder por uma paixão? O fogo da paixão também arde no estômago. Por uma questão talvez poética, preferiu-se considerar o coração o órgão da paixão, símbolo dos apaixonados. Porém, quem realmente se inflama com uma boa paixão é o estômago. Mas vá lá, que considerem mesmo como símbolo o coração! Afinal, seria bastante estranho um casal apaixonado cravar numa árvore um estômago com seus nomes no meio.
Fato é que, tanto para acarajés ou para paixões, o estômago pede sopro. Cabe a nós distinguirmos a sutil diferença entre os sopros pedidos: o estômago que queima por azia pede um sopro que apague de vez o fogo. O estômago apaixonado pede um sopro mais brando, que deixe a brasa sempre acesa. Pede o sopro de quem ama. E eu afirmo aos estômagos apaixonados: o amor sabe soprar como um bom churrasqueiro...

sexta-feira, 2 de março de 2012

Outras cozinhas (sobre o mar)

O Homem e o Mar (Baudelaire - Tradução: Ivo Barroso)

Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.

Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.

Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.

Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!


Mar português (Fernando Pessoa)

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)

Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?

Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...

Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

O cinema dos anjos

No céu, os anjos são fascinados pela sétima arte. Adoram cinema e tudo que o envolve. Além dos já conhecidos anjos da guarda, há também os anjos roteiristas, os editores, os diretores, os câmeras e até alguns que se arriscam a dar uma de ator. É essa turma de anjos adoradores de cinema a responsável por criar e passar aquele filmezinho de nossa vida, que é rodado rapidinho diante de nossos olhos, quando estamos à beira da morte. Eles sabem muito bem quais cenas pôr no filme. Mas mesmo confiando muito no gosto dos anjos, gostaria de dar algumas sugestões para quando forem passar o meu filme:
Queria que meu filme fosse rodado ao estilo cinema antigo, nesses rolos que arrebentam toda hora. Nada de efeitos especiais. Podem passar a minha vida em preto e branco, com muitos chuviscos na tela. Sem falas, cinema mudo. Até porque acho que minha vida sempre será mais silêncios do que falas e, pelo menos para mim, as cenas não precisam de traduções ou legendas, acho que darei conta de entender as imagens por si só. Ah, uma coisa importante é a trilha sonora. Apesar do filme ser mudo, podem pôr uma música mais para o fim do filme, algo do tipo moda de viola. E já que estamos falando do fim do filme, façam como escrevi em versos há um tempo, deixem as últimas cenas mostrando apenas o céu. Após as clássicas cenas em família, terminem com cenas do céu cheio de nuvens e com os versos em letras garrafais:

“Sua vida não valeu a pena,
sua vida valeu a pena e o papel.”

Imagino mais ou menos assim o meu filme. Mas é só uma sugestão e, que fique bem claro, não estou ansioso para a estréia.


Queria aproveitar a oportunidade para compartilhar com vocês uma nova cozinha. Nesse carnaval tive o prazer de conhecer e conversar um pouco com o escritor Wellington Coelho. Wellington escreve contos e poemas extremamente interessantes e que valem muito a pena conferir. Para tal, compartilho com vocês o site desse grande escritor: www.wellingtoncoelho.com
Bom apetite!

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Poeminha de Carnaval

Pessoal, gostaria de desejar a todos um ótimo Carnaval! Aproveito a oportunidade para compartilhar com vocês o meu "Poeminha de Carnaval". Grande abraço!

Poeminha de Carnaval

Minha alma tem fantasias
para mais de mil carnavais.
Mas neste eu vou de alegria
e, se eu gostar, uso mais.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Metade da laranja

Coincidência o sol ter nascido
juntamente com o dia! É de se espantar...
Muitos dirão que é assim todos os dias,
são leis naturais, a física do universo.
Dirão que não é coincidência.
Pois eu digo que é!
Assim como coincide
das estrelas aparecerem com a noite,
das flores surgirem com a primavera,
da dor caminhar com o tempo,
dos sonhos virem com o vôo.
Não são pares, não são casais...
Pode ser até que um dia se separem,
cada um para o seu lado.
(Tudo bem! Vou admitir:
é meu coração que quer acreditar assim).
É ciúme,
tolices de um apaixonado.
Não dêem muita bola,
mas é que desde que ele nasceu,
desde que deu sua primeira batida,
ele crê que é
a outra metade da laranja da Vida.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Espelho, espelho meu...

Alguns livros, alguns poemas, se pararmos para analisar, revelam os segredos mais íntimos do autor. Seus medos, suas paixões, seus anseios... o papel reflete a alma de quem escreve. E diferentemente do espelho, o papel não reflete somente feixes de luz, ele gosta de refletir também feixes de escuridão, de mistérios, de segredos. Assim, qualquer um que se proponha a encarar um pedaço de papel acaba descobrindo partes de si que nem conhecia ou que não gosta de ver. Reflexos de si estranhos a si mesmo.
Para muitos, é difícil encarar esse espelho que embaraça criador e criatura, que confunde o autor com sua obra, ou até mesmo o leitor e a obra. Às vezes tudo se mistura: autor, obra, leitor. E não é raro esses espelhos se tornarem temidos. Em um de seus ensaios literários, Thomas Mann conta como Goethe temia seu próprio livro, “O sofrimento do jovem Werther”. Em sua velhice, Goethe confessa que só releu tal livro, escrito em sua juventude, uma única vez e evitava ler outras vezes. O autor justificava: “tenho uma sensação estranha, e tenho medo de recair no estado patológico que o fez nascer”.
Não quero entrar aqui na discussão de quais estados seriam sadios e quais seriam patológicos, gostaria apenas de concluir dizendo que somos, em parte, um mistério a ser desvendado. Somos um mistério a ser lido.
Peço licença para citar uns versinhos que escrevi há tempos atrás:

Não conhecerás tua verdadeira
imagem olhando-te no espelho.
A luz que te amolda
não conhece tuas sombras.
És, em parte, mistério...

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Outras Cozinhas (Quintana, Adélia e Vinícius)

O colegial (Mario Quintana)

O vento passa lá fora
e eu, no quadro negro, imóvel
- ó muro de fuzilamento!
Morro sem dizer palavra.
O professor parece triste,
talvez por outros motivos.
Manda sentar-me
e eu carrego
ó almazinha assustada,
um zero, como uma auréola...
Rezai, rezai pelas alminhas
dos meninos fuzilados!
Por que é que nos ensinam
tanta coisa?
Eu queria saber contar
só com os dedos da mão!
O resto é complicação,
um nunca mais acabar.
Eu queria mesmo era poder estudar
teu corpo todo com a mão
até sabê-lo de cor
como um ceguinho.
E o vento passa lá fora
com a sua memória em branco.
O que ele viu, nem recorda...
e eu nada vi: só adivinho!


Grande desejo
(Adélia Prado)

Não sou matrona, mãe dos Gracos, Cornélia,
sou é mulher do povo, mãe de filhos, Adélia.
Faço comida e como.
Aos domingos bato o osso no prato pra chamar o cachorro
e atiro os restos.
Quando dói, grito ai,
quando é bom, fico bruta,
as sensibilidades sem governo.
Mas tenho meus prantos,
claridades atrás do meu estômago humilde
e fortíssima voz pra cânticos de festa.
Quando escrever o livro com o meu nome
e o nome que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,
a uma lápide, a um descampado,
para chorar, chorar e chorar,
requintada e esquisita como uma dama.


Dialética (Vinícius de Moraes)

É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...