sábado, 26 de junho de 2010

Prosa Caipira

Coroné, sabe acaso onde anda esse tal de Josia?

Não sei, mas espero que lá praquelas banda...
Lá onde urubu faz ciranda!

Que isso Coroné?!
O sinhô é homi de fé,
temente a Deus, não diga uma bestêra dessa!
Além do mais, Josia é cabra valente,
um herói pra essa gente...
Peão que amansa touro bravo!
É um bom rapaz!


Não conheço, mas quero ver amansar o satanás!!

Vixe nossa senhora! Mas que foi que o mardito te fez?

Antes me roubasse mil rês,
do que roubar minha fia.
E pra um pai, não tem maior agonia,
do que ver sua própria cria
ir embora cum abestado!

Ô patrão, deixa isso de lado,
é amor que os dois sentia!

Amor pra jovem não tem serventia,
Deus só dá amor na velhice!
Isso foi é semvergonhice!
Imagina o que essa gente faladeira vai dizê!!

Eu nem quero sabê,
mas duvido que alguém nesse lugá
tem coragem pra falar mal do cê!


Falar de mim ou da minha fia é tudo iguá...
Quem abri a boca eu vô matá!

Meu santo Cristinho! O patrão ta cum raiva mesmo!

To cum raiva! To cum pena de minha fia! Uma hora dessa
deve de tá deitada no mato, passando frio, fome!
Ela que sempre foi muié de nome,
muié luxosa!

Coroné, desculpa eu estendê a prosa...
mas se me permite perguntá, o que é felicidade?


Ora homi, por que a curiosidade? Mas se quer mesmo sabê,
vô explicá pro cê! Felicidade tá em vê milhões de boi na fazenda,
tá no dinheiro das venda, no diploma de dotô.
Tá no meus gado, nos meus campo de café,
tá nos beijos das muié, no meu casarão...

Hum...entendi...então tá bão...

Num se avexe homi, se trabalhar bastante, um dia ocê chega lá!

Ih, nem dá pra imaginá...Mas se me permite...
Se felicidade é o que o patrão diz,
posso dizê que já sou bem feliz...
Eu que cuido desse gadaiada pro coroné,
sou eu também que sempre colhe o café,
sinto o cheiro da flor,
e de vez em quando até o sabor de uma semente!


Nisso ce tá certo, mas sou eu que tenho o casarão.

Com certeza bom patrão! E que assim Deus queira!
Mas continuando essa prosera, disso não faço questão!
Qualquer lugar pra mim tá bão, seja a rede ou seja o chão,
só exigo ver as estrelas...o luar..
e além do mais, quando o sinhô viaja,
quem é que vai pra sua casa vigiá?


É... ocê é um cabra esperto...mas me diga, quem tem quase 50 muié?

Ô, por certo que é meu coroné!!
Homi entendido do assunto!
Onde vai o coroné, vai rabo de saia junto.
Mas pra terminá meu sinhô,também sei o que é amor.
Não é de 50, é só uma...a mais jeitosa das morena!
Aquela que faz qualquer vida valer a pena!
Uma muié mais formosa que as rosa,
mais doce que o mel!
Daquela que o coração lambe os beiço
e nem pensa em ir pro céu...
Quer ficar pra sempre junto dela,
abraçado, espiando da janela o dia amanhacê!


Eita cabra safado!! Mas isso tudo num há de ser!
Prenda assim nessas banda, só existe minha fia!

O patrão deve de tá certo! Afinal é doutor sabido, homi esperto!
Entretanto, em mais de 10 anos que trabaio pro sinhô,
vancê nunca soube meu nome..
Só me chama de cabra, peão, homi!


Ah, isso num me interessa agora cabra, eu quero é achar minha fia!

Como quiser coroné, eu já vou indo embora,
vou encontrar minha sinhora!


Inté outra hora!... Mas cabra, diga então qual é o nome de vossa senhoria?
(o coronel riu com ironia)

Muito prazer Coroné, meu nome é Josia!

terça-feira, 22 de junho de 2010

Triste de Amor


Conforme enquete feita na semana passada, ponho à mesa o poema escolhido. Esse é mais um poema do meu Livro Pá Virada. Só pra lembrar, o livro pode ser comprado na Livraria Leitura do Shopping Savassi, na Mapel Papelaria na rua Tomé de Souza (pertinho também do Shopping Savassi)ou diretamente comigo. Em Juiz de Fora, com a Andressa Biachi ou em Itabira com a Josiane Boucherville.
Grande abraço!

A tristeza me consumiu.
Levou meus amigos, meus passeios, minhas risadas.
Deixou-me poucas letras
que juntas, não coçam a vista.
E eu, nesse tom depressivo,
nesses versos niilistas,
exalto a burrice milenar do homem,
que não sabe fazer negócio.
Pois no princípio, quando Deus
era quase um sócio,
houve a tal barganha da costela.
E dele, se fez ela: Eva!
Mas o homem sempre foi burro,
nunca lê o contrato.
Estava lá, no rodapé, em letras miúdas
para que lesse o tal Adão:
“Para Eva, tu darás de entrada uma costela
e, no futuro, tu darás também teu coração”.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Cientificamente Poético: Ação e Reação

E seguindo a dieta do Cientificamente Poético...

A ciência sabe que toda ação
Gera uma reação.
Um pequena exceção:
Nós estávamos a estudar física
Quando ela me disse: Eu te amo...

Campanha contra a fome: Perca Um Livro!

Pessoal, é com imenso prazer que convido a todos para participar da Campanha Perca Um Livro. Essa é uma campanha feita em alguns lugares do mundo e, como constatei, já acontece também há algum tempo em Belo Horizonte. Ela consiste, basicamente, em perder um livro para que outra pessoa encontre. Porém, é necessário cadastrar o livro no site da Campanha Perca Um Livro, assim vocês podem acompanhar onde está o livro, indicar onde foi "perdido" e, através da etiqueta que o site fornece, fazer com que a pessoa que achar o livro saiba da campanha e possa fazer o mesmo.
Vamos fazer desse mundo uma imensa biblioteca, ou melhor, uma imensa cozinha contra a fome!
Grande abraço!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Favo

Durante toda a minha vida,
Não cultivei amores, cultivei abelhas.
Sim, muitas abelhas
Que se aglomeram em meu coração.
Talvez buscassem flores que não havia ali.
Todas elas, abelhas rainhas,
Abelhas princesas, donzelas.
Fizeram morada, esburacou-se tudo.
Depois... simplesmente voaram.
Meu coração então já não sangrava,
Escorria mel...

domingo, 13 de junho de 2010

quarta-feira, 9 de junho de 2010

É tempo de comer!

Pessoal, fiquei muito feliz com o retorno que algumas pessoas me deram em relação ao nome do blog. Por isso, resolvi comentar um pouco sobre o assunto.
Vasculhando a cozinha do grande escritor, psicanalista, educador, mais acima de tudo, cozinheiro Rubem Alves, encontrei o seguinte prato: "O norueguês Thor Heyerdahl, que em 1947 empreendeu a famosa viagem Kon-Tiki, através do oceano Pacífico, morreu enquanto dormia, aos 87 nos. Parou de comer e beber ao ser informado de que sofria de um tumor cerebral. E se os médicos, em nome da ética, o entubassem e o obrigassem a ingerir alimentos? Uma paciente antiga relatou-me que o pai velho, doente e religioso, havia parado de comer. Mas era seu hábito orar diariamente o “Pai Nosso”. Aí ela notou que o seu “Pai Nosso” estava diferente. A cláusula “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” havia sido eliminada."
Algumas pessoas levam isso de comer palavras muito a sério, não é? Mas não é para ser levado? Há quanto tempo que o homem não vem comendo bem mais que o próprio alimento, mas também palavras, poesias, sonhos...?
Voltemos ao passado, até então, chamado primitivo. Tribos guerreavam, lutavam, matavam e comiam... comiam a carne de seus inimigos. Arrisco aqui afirmar que não era o sabor da carne humana que lhes abria o apetite. Quando comiam aquela carne, estavam a comer forças, coragens, habilidades. Comiam sonhos, crenças...
Ainda sim parece um tanto quanto estranho, não é? Vejamos então hábitos mais atuais. Quantas pessoas hoje vão à igreja e comungam? Prática bastante comum hoje em dia. Mas arrisco-me aqui também afirmar que os fiéis não estão ali a comer hóstia. Farinha e água não é assim tão sagrado. As pessoas estão ali a comer o corpo de Cristo. Sim, o corpo. E este corpo é feito de memória viva, de poesia, de fé: Eucaristia.
Mas há quem diga, "eu não sou cristão, não acredito nisso, e também não sou de nenhuma tribo primitiva." Pois bem, vejamos outro ponto, um ponto mais "racional", mais "científico". Existiu um velhinho que, até hoje, é considerado por muitos, um dos maiores pensadores da humanidade. Freud, o nutricionista, digo, o psicanalista. Mas por que não dizer mesmo nutricionista, o nutricionista da alma? Sim! Freud foi um grande estudioso desse hábito estranho que o homem tem de comer palavras. A partir daí, começou a descobrir quais palavras eram boas para serem comidas e quais eram indigestas para determinadas pessoas.
Falei muita besteira? Difícil digerir minhas palavras? Peço apenas que não se vingue desse simples cozinheiro. Lembre-se: a vingança é um prato que se come frio... ou seria o amor? Fernando Pessoa, em seu guloso heterônimo de Álvaro Campos, em "Dobrada à Moda do Porto", teve que comer o amor frio. Mas o amor é prato que se come quente, fervilhando, com muito tempero... E o pobre Drummond, que não pôde comer em paz sua sopa de letrinhas repleta de sonhos...
Por isso pessoal, jamais se espante em ver alguém se empanturrando de palavras, de poesias. Não há regras de etiqueta para esse banquete.
Manuel Bandeira se espanta que o bicho que estava a comer entre os detritos, "...não era um cão, não era um gato, não era um rato...", era um homem. Confesso que não me espanta homem algum de barriga vazia comendo, me espanta os que têm a alma aberta e faminta e não comem.
Sempre é tempo de comer!
Grande abraço!