quarta-feira, 9 de junho de 2010

É tempo de comer!

Pessoal, fiquei muito feliz com o retorno que algumas pessoas me deram em relação ao nome do blog. Por isso, resolvi comentar um pouco sobre o assunto.
Vasculhando a cozinha do grande escritor, psicanalista, educador, mais acima de tudo, cozinheiro Rubem Alves, encontrei o seguinte prato: "O norueguês Thor Heyerdahl, que em 1947 empreendeu a famosa viagem Kon-Tiki, através do oceano Pacífico, morreu enquanto dormia, aos 87 nos. Parou de comer e beber ao ser informado de que sofria de um tumor cerebral. E se os médicos, em nome da ética, o entubassem e o obrigassem a ingerir alimentos? Uma paciente antiga relatou-me que o pai velho, doente e religioso, havia parado de comer. Mas era seu hábito orar diariamente o “Pai Nosso”. Aí ela notou que o seu “Pai Nosso” estava diferente. A cláusula “o pão nosso de cada dia dá-nos hoje” havia sido eliminada."
Algumas pessoas levam isso de comer palavras muito a sério, não é? Mas não é para ser levado? Há quanto tempo que o homem não vem comendo bem mais que o próprio alimento, mas também palavras, poesias, sonhos...?
Voltemos ao passado, até então, chamado primitivo. Tribos guerreavam, lutavam, matavam e comiam... comiam a carne de seus inimigos. Arrisco aqui afirmar que não era o sabor da carne humana que lhes abria o apetite. Quando comiam aquela carne, estavam a comer forças, coragens, habilidades. Comiam sonhos, crenças...
Ainda sim parece um tanto quanto estranho, não é? Vejamos então hábitos mais atuais. Quantas pessoas hoje vão à igreja e comungam? Prática bastante comum hoje em dia. Mas arrisco-me aqui também afirmar que os fiéis não estão ali a comer hóstia. Farinha e água não é assim tão sagrado. As pessoas estão ali a comer o corpo de Cristo. Sim, o corpo. E este corpo é feito de memória viva, de poesia, de fé: Eucaristia.
Mas há quem diga, "eu não sou cristão, não acredito nisso, e também não sou de nenhuma tribo primitiva." Pois bem, vejamos outro ponto, um ponto mais "racional", mais "científico". Existiu um velhinho que, até hoje, é considerado por muitos, um dos maiores pensadores da humanidade. Freud, o nutricionista, digo, o psicanalista. Mas por que não dizer mesmo nutricionista, o nutricionista da alma? Sim! Freud foi um grande estudioso desse hábito estranho que o homem tem de comer palavras. A partir daí, começou a descobrir quais palavras eram boas para serem comidas e quais eram indigestas para determinadas pessoas.
Falei muita besteira? Difícil digerir minhas palavras? Peço apenas que não se vingue desse simples cozinheiro. Lembre-se: a vingança é um prato que se come frio... ou seria o amor? Fernando Pessoa, em seu guloso heterônimo de Álvaro Campos, em "Dobrada à Moda do Porto", teve que comer o amor frio. Mas o amor é prato que se come quente, fervilhando, com muito tempero... E o pobre Drummond, que não pôde comer em paz sua sopa de letrinhas repleta de sonhos...
Por isso pessoal, jamais se espante em ver alguém se empanturrando de palavras, de poesias. Não há regras de etiqueta para esse banquete.
Manuel Bandeira se espanta que o bicho que estava a comer entre os detritos, "...não era um cão, não era um gato, não era um rato...", era um homem. Confesso que não me espanta homem algum de barriga vazia comendo, me espanta os que têm a alma aberta e faminta e não comem.
Sempre é tempo de comer!
Grande abraço!

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