domingo, 14 de junho de 2015

Outras Cozinhas (Carlos Nejar)

Sirvo hoje em nossa mesa três pratos da cozinha de Carlos Nejar. Os três poemas abaixo foram retirados de seu belíssimo livro "Os Viventes", que aproveito para deixar como sugestão.



O HIPOPÓTOMO

É um pótamo de música
sobre as patas, um pote
de abelhas croatas
se locomovendo
enorme na colmeia.
Os olhos com os favos
se grudando às orelhas.

Lote de gaivotas
sobre o hortalício
lombo.

E se a morte tivesse
um outro ofício,
seria portentosa
e hipopótama.


NA ESTRELA DE KEATS
                                  
Minha virtude é estar
onde não pude
e a água me escreveu.


BALADA AO PRIMEIRO BEIJO

Guardei o teu beijo
comigo. O aroma
de manhã deitada.
Guardei muito                 
o teu beijo. Primeiro
e depurado: no colégio,
no estádio. Teu beijo
me fitava de dentro
dos olhos arrelvados.
Na boca. E então me sopra
o verdor de moça,
ainda menina. Éramos
tão ditosos e ouvia
cair a chuva
de nossa juventude.
E o beijo cantava
de alma para alma.
E quando te abraçava
entrava o amor pela sacada.
E guardá-lo, sinto
o hálito preciso.
Úmido, úmido
do primeiro sol.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caderno da vó Elce - V

Semana Santa em Ervália e, inevitavelmente a bagagem de volta vem carregada daquelas lembranças boas, de um saudosismo infantil, de casa de avós e procissões. Com esse espírito (de boas lembranças), resolvi retomar aqui no blog, o Caderno da vó Elce, que são na verdade poemas retirados de um antigo caderno da minha avó. Grande parte dos poemas não possuem o nome de seus respectivos autores, portanto de alguns, como do poema que sirvo hoje, não consegui descobrir quem foi seu verdadeiro autor. Caso alguém saiba, agradeço imensamente desde já pela informação.


No tribunal cor de rosa

Está aberta a Sessão. Entraste em julgamento,
A Saudade é a defesa, a testemunha o Céu.
O Ciúme o promotor, o crime o Esquecimento,
O juiz é o Coração, e o ofendido, “Eu”!

Levanta-se o Ciúme; acusa: “És Criminosa”!...
E termina pedindo tua punição.
Chega a vez da Saudade, pálida e chorosa
Diz ao juiz que te amo e pede teu perdão.

O juiz que é um apaixonado, tímido, nervoso,
Medita uma sentença ao doce som mavioso
Duma cítara antiga de celestiais arpejos...

E pegando da pena, uma sentença lança
Condenando-te a me dares, divinal criança,
Setecentos abraços e um milhão de beijos.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Outras Cozinhas (Adília Lopes)


Hoje visito a cozinha da poetisa portuguesa Adília Lopes. Para quem gostar dos três poemas servidos agora em nossa mesa e quiser saborear um pouco mais, deixo aqui de sugestão o livro "Adília Lopes - Antologia", de onde os três pratos a seguir foram tirados. Grande abraço! 

As rosas com bolores 

Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou pacientedeixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
e preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me


Natura et Ars 

Uma floresta é um labirinto?
um deserto pode ser rocaille?
a vida é um romance?
o mundo é um palco?
um florete é uma flor?
uma serpentina é uma serpente?

Imagino o fim da Terra assim
todas as casas e todas as ruas
desaparecem
assim como todas as pessoas
graças a um cataclismo
sobrevivem apenas os telefones
as baratas e as listas dos telefones
marcianos nos dias a seguir
tentam interpretar a lista dos telefones
os marcianos não estabelecem uma relação
entre os telefones e a lista dos telefones
mas entre a lista dos telefones e as baratas
e essa relação é plenamente satisfatória


VII (Poema de O POETA DE PONDICHÉRY)

Tenho as gavetas cheias de papéis escritos
poemas e cartas que não cheguei a mandar a Diderot
os poemas escrevi-os num papel barato
não sou capaz de escrever um poema num leque
depois do que Diderot me disse
se quer ouvir dizer que os seus poemas são bons
procure outra pessoa
há sempre quem diga de um poema
que ele é bom
para a seguir lhe mostrar um poema
e ouvir dizer que ele é bom
conhece a expressão do ut des?
em espanhol também há uma expressão para isso
mas agora não me lembro
não mostrei os poemas a outra pessoa
nem eu próprio os leio
porque tenho medo
as cartas estão fechadas e têm selo
escrevi-as num papel nem muito caro nem muito barato
para não constranger Diderot
nunca escrevi cartas de amor
mas costumo pensar que escrevi cartas ridículas
e por ter a mania de pôr o carro à frente dos bois
acho que todas as cartas ridículas são cartas de amor
espero que estes poemas e estas cartas
que não sei porquê guardo
não vão parar a uma vitrine
espero que vão parar às mãos dos trapeiros
porque os trapeiros não são curiosos
já vi um trapeiro acabar de roer um caroço de pêro
sem pensar nos dentes e nos beiços que tinham
roído o que faltava