sábado, 16 de fevereiro de 2013

As flores do Sr. Alceu


Senhor Alceu era um antigo vendedor de flores de uma cidade (no momento foge-me o nome, “algum santo do não-sei-o-que”) do interior mineiro. Sua loja era bem pequena, de paredes e mesas velhas, mas bastante colorida pelas flores. Flores de todos os tipos. Ali sim se podia dizer, como Camus, que a “primavera era vendida nos mercados”, ou melhor, na lojinha do senhor Alceu.

A loja estava sempre repleta de visitantes, e não digo “clientes” porque o termo parece-me inadequado, pois muitos entravam na loja apenas para admirar as cores, sentir os perfumes, ter um recanto de paz. Todos ali admiravam também o senhor Alceu e sua paixão pelas flores. Muitas vezes ao entrar na loja podia-se ouvir aquele velho florista falando com elas. O senhor Alceu acreditava que as flores podiam ouvir como qualquer criatura e que, se ouvissem coisas bonitas, cresceriam com mais vigor, com mais beleza. Por isso todos os dias o velho Alceu, quando abria a loja, ia de flor em flor, de espécie em espécie, fazendo exclamações, declamando versos para suas amadas e coloridas flores. Eis aqui alguns de seus versos:

Violetas: Nosso elo perdido com as borboletas!

Begônias: Peca quem vos olha e não sonha!

Margaridas: Bem-vos-quero, bem-vos-quero, toda vida!

Bromélias: Vós sois o mais fiel retrato de Ofélia!

Hortênsias: O equilíbrio entre o infinito e a decência!

Gardênias: Para vós que as abelhas pedem vênia!

Açucenas: Só vós curais a minha angústia e minhas penas!

Dálias: Na terra sois flores! No céu, medalhas!

Jacintos: Só vós sabeis o que sinto!

Jasmim: Vós sois as damas mais perfumadas do jardim!

Tulipas: Que mistério vosso perfume antecipa?

Magnólias: Do céu ao Paraíso vai a chuva que vos molha!

Lírios: Vós regais de cores os meus delírios!

Lavandas: Em vossos campos todos voam, ninguém anda!

Amores-perfeitos: Florescei, por favor, florescei no meu peito!

Rosas: Para vós, somente para vós, eu daria outras mil rosas!


*Imagem: Dália

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Carnaval

Pessoal, gostaria de desejar a todos um ótimo carnaval. Brinquem, descansem, aproveitem da melhor forma essa festa que exalta o poder da fantasia, do brincar!
E, como prato do dia, sirvo novamente em nossa mesa o Poeminha de Carnaval:

Poeminha de Carnaval (repostagem)

Minha alma tem fantasias
para mais de mil carnavais.
Mas neste eu vou de alegria
e, se eu gostar, uso mais.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha alemã)




LIED LV (Heine)

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que havias morrido,
E ao despertar, comovido,
Descendo, as lágrimas acho
Pelo rosto abaixo.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que não me querias,
E ao despertar, de agonias
Louco, chorei, de repente,
Soluçantemente.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que me amavas, quando,
De golpe, acordei chorando,
Chorando muito tristonho,
Porque fora um sonho...


A canção do rei de Tule (Goethe)

Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de ouro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Pôs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesouro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!


O segredo revelado
(Chamisso)

Nós de noite nos beijámos,
E ninguém nos espreitara;
Só no céu astros luziam,
Quem neles não se fiara.

Mas caiu formosa estrela
E ao mar nos acusou,
Foi dizê-lo o mar ao leme,
Ao piloto este o contou.

O piloto logo em terra
Foi contá-lo à sua amiga;
Já não há rapaz na rua
Que não cante essa cantiga.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Adivinhações

São sempre agradáveis esses momentos da tarde em que posso ficar na janela olhando sem preocupações a rua, as pessoas, a vida se desdobrando. Agora, por exemplo, estou no meu divertido jogo de adivinhações de nomes. Fico reparando as pessoas que passam e tentando adivinhar, de acordo com as características de cada um, seus possíveis nomes. Pode-se dizer que é muito mais uma brincadeira de nomear as pessoas do que propriamente adivinhar como se chamam, até porque nunca fico sabendo a resposta certa.

Pois bem, aquela senhora que vai passando com duas crianças do lado deve se chamar Maria. Essa foi fácil! Tem os traços fortes, um semblante um tanto quanto fatigado e caminha mantendo aquele ar de concentração nos futuros afazeres. Mas acho que é mais pelo seu aspecto de mãe protetora que lhe dou esse nome. Não sei se as duas crianças são seus filhos, mas ela com certeza os protege como mãe. E quanto aos nomes das crianças, para não passar em branco, arrisco Zezinho e Mariazinha. É que não posso perder tempo, pois logo ali já vem um senhor muito bem vestido que parece ignorar o calor que está fazendo. Prima pela elegância ante ao rigor do sol. Mas toda sua elegância no vestir contrasta com seu olhar cabisbaixo e seu passo lento. Na verdade sua figura inteira, elegante e cabisbaixa, parece contrastar com o mundo todo a sua volta. Eu diria que é um ser solitário. E talvez, por rima oportuna, eu o chamaria de Olegário.

A rua hoje está menos movimentada do que o costume. Porém, uma nova figura já surge chamando atenção. Vem calado, ligeiro, como se quisesse passar despercebido, mas seu tipo físico, sua altura não permite. O rapaz deve ter uns dois metros. E não tenho dúvida, esse é o Pedrão ou Pê-boi, para os amigos. Dar ares de ter saído diretamente do livro de Guimarães Rosa, dos recantos áridos do interior para a aridez sem encanto da cidade grande. Pê-boi!

Aquela dali eu conheço bem! Nem preciso adivinhar, é a dona Olga! Minha vizinha mais simpática e espirituosa! Deve estar voltando da Igreja como faz quase todas as tardes. Com toda vitalidade dos seus oitenta e poucos anos, não deixa de ir um dia sequer à igreja, faça chuva ou faça sol. Mas infelizmente sua memória anda fraca, cada vez pior. Entristece-me imensamente quando a vejo chegar acompanhada de algum desconhecido que a encontrou perdida, esquecida de onde mora. Ela já não lembra o nome das ruas, tem dificuldade para reconhecer as pessoas. Dona Olga sempre esquece meu nome, embora não deixe nunca de ser afetuosa e simpática. É uma pena, de cortar o coração! A seus olhos a vida vai se tornando, aos poucos, um constante e doloroso jogo de adivinhações.

sábado, 12 de janeiro de 2013

sábado, 5 de janeiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha grega)

Olá, pessoal! É com muita alegria que afirmo que a nossa cozinha está de volta para mais um ano de muita poesia, sabores e novidades! E gostaria de iniciar convidando a todos para visitarmos, ao longo de 2013, cozinhas do mundo inteiro, provando novos pratos, de diferentes épocas e regiões, e que continuam extremamente saborosos mesmo com o passar dos anos. Para começar então, nada melhor do que uma visitinha à cozinha grega. Eis aqui três pratos que provei, gostei e compartilho agora em nossa mesa:



O amor transido
(Anacreonte)

A noite passada,
à hora em que a Ursa
mais perto discursa
da mão do Boieiro;
e o sono profundo
no grêmio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia . . .
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu, – diz de fora, –
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há.”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta. . .
em casa me está!
Descubro (em verdade
mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcás.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as asinhas;
já frio não faz.
“Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doido às risadas,
de gosto a pular!
“– Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são...
Quem fica doente
é teu coração!”


À amada (Safo)

Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.

Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.

Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.

Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar.


A espada e o poeta (Alceu)

Eu coroarei de mirto a minha espada,
Como a de Harmódio honrada,
E como a de Aristógiton, o forte,
Quando ao sevo tirano deram morte,
E Atenas libertada
Foi à igualdade antiga restaurada.

Tu não morreste, Harmódio, oh não!tu gozas
Nessas ilhas ditosas
Serena vida cos heróis que aí moram,
E onde, cremos, demoram
Diomedes, o valente,
E Aquiles, o veloz, eternamente.

De mirto a minha espada
Trarei como Aristógiton c'roada,
E como Harmódio, o forte,
Que à vingança reserva,
Quando, nos sacrifícios de Minerva,
Ao tirano Hiparco deram morte.

Em prezada memória
Viverá para sempre, eternamente,
Harmódio, a tua glória,
E a tua, Aristógiton valente,
Que o tirano matastes
E à liberta cidade
O usurpado direito restaurastes
Da primeira igualdade.


*Os dois primeiros poemas são traduções de Antônio Feliciano de Castilho e o último é uma tradução de Garret.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Férias

Pessoal, como já é habitual nessa época do ano, nossa mesa estará de férias durante o mês de dezembro. Espero voltar em janeiro com novos pratos, temperos e sabores para servir aqui. Quero aproveitar também para, desde já, agradecer a todos os que passaram por aqui durante esse ano de 2012 e desejar a vocês um feliz Natal. Que venha 2013 com muito amor, paz e poesia para todos nós. Um grande abraço!