sábado, 26 de janeiro de 2013

Adivinhações

São sempre agradáveis esses momentos da tarde em que posso ficar na janela olhando sem preocupações a rua, as pessoas, a vida se desdobrando. Agora, por exemplo, estou no meu divertido jogo de adivinhações de nomes. Fico reparando as pessoas que passam e tentando adivinhar, de acordo com as características de cada um, seus possíveis nomes. Pode-se dizer que é muito mais uma brincadeira de nomear as pessoas do que propriamente adivinhar como se chamam, até porque nunca fico sabendo a resposta certa.

Pois bem, aquela senhora que vai passando com duas crianças do lado deve se chamar Maria. Essa foi fácil! Tem os traços fortes, um semblante um tanto quanto fatigado e caminha mantendo aquele ar de concentração nos futuros afazeres. Mas acho que é mais pelo seu aspecto de mãe protetora que lhe dou esse nome. Não sei se as duas crianças são seus filhos, mas ela com certeza os protege como mãe. E quanto aos nomes das crianças, para não passar em branco, arrisco Zezinho e Mariazinha. É que não posso perder tempo, pois logo ali já vem um senhor muito bem vestido que parece ignorar o calor que está fazendo. Prima pela elegância ante ao rigor do sol. Mas toda sua elegância no vestir contrasta com seu olhar cabisbaixo e seu passo lento. Na verdade sua figura inteira, elegante e cabisbaixa, parece contrastar com o mundo todo a sua volta. Eu diria que é um ser solitário. E talvez, por rima oportuna, eu o chamaria de Olegário.

A rua hoje está menos movimentada do que o costume. Porém, uma nova figura já surge chamando atenção. Vem calado, ligeiro, como se quisesse passar despercebido, mas seu tipo físico, sua altura não permite. O rapaz deve ter uns dois metros. E não tenho dúvida, esse é o Pedrão ou Pê-boi, para os amigos. Dar ares de ter saído diretamente do livro de Guimarães Rosa, dos recantos áridos do interior para a aridez sem encanto da cidade grande. Pê-boi!

Aquela dali eu conheço bem! Nem preciso adivinhar, é a dona Olga! Minha vizinha mais simpática e espirituosa! Deve estar voltando da Igreja como faz quase todas as tardes. Com toda vitalidade dos seus oitenta e poucos anos, não deixa de ir um dia sequer à igreja, faça chuva ou faça sol. Mas infelizmente sua memória anda fraca, cada vez pior. Entristece-me imensamente quando a vejo chegar acompanhada de algum desconhecido que a encontrou perdida, esquecida de onde mora. Ela já não lembra o nome das ruas, tem dificuldade para reconhecer as pessoas. Dona Olga sempre esquece meu nome, embora não deixe nunca de ser afetuosa e simpática. É uma pena, de cortar o coração! A seus olhos a vida vai se tornando, aos poucos, um constante e doloroso jogo de adivinhações.

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