sábado, 5 de janeiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha grega)

Olá, pessoal! É com muita alegria que afirmo que a nossa cozinha está de volta para mais um ano de muita poesia, sabores e novidades! E gostaria de iniciar convidando a todos para visitarmos, ao longo de 2013, cozinhas do mundo inteiro, provando novos pratos, de diferentes épocas e regiões, e que continuam extremamente saborosos mesmo com o passar dos anos. Para começar então, nada melhor do que uma visitinha à cozinha grega. Eis aqui três pratos que provei, gostei e compartilho agora em nossa mesa:



O amor transido
(Anacreonte)

A noite passada,
à hora em que a Ursa
mais perto discursa
da mão do Boieiro;
e o sono profundo
no grêmio fagueiro
por todo esse mundo
restaura os mortais,
em meio era a noite;
o exemplo dos mais
no leito eu seguia;
sereno dormia . . .
À porta imprevisto
Cupido me bate!
À pressa me visto;
redobra o rebate;
acudo a correr.
“Sou eu, – diz de fora, –
não tens que temer;
sou um pequenino
que vaga, a tal hora,
molhado e sem tino,
perdido no escuro,
pois lua não há.”
Ouvi-lo gemendo
de mágoa me corta;
a lâmpada acendo,
franqueio-lhe a porta. . .
em casa me está!
Descubro (em verdade
mentido não tinha)
gentil criancinha
com arco e carcás.
Remexo nas brasas
da minha lareira;
restauro a fogueira;
as mãos, que são gelo,
lhe aqueço nas minhas,
lhe espremo o cabelo,
lhe enxugo as asinhas;
já frio não faz.
“Vejamos se a chuva
(dizia e sorria)
a corda do arco
me não danaria!”
Levanta-o do chão;
recurva-o, dispara
no meu coração.
A frecha que o vara
parece um tavão.
Eu, dores danadas,
e o doido às risadas,
de gosto a pular!
“– Meu caro hospedeiro,
(me diz prazenteiro)
agora é folgar.
Permite me ausente;
meu arco está são...
Quem fica doente
é teu coração!”


À amada (Safo)

Ventura, que iguala aos deuses,
Em meu conceito, desfruta
Quem, junto de ti sentada,
As doces falas te escuta,
Goza teu mago sorrir.

Quando imagino em tal gosto
É minha alma um labirinto;
Expira-me a voz nos lábios;
Nas veias um fogo sinto;
Sinto os ouvidos zunir.

Gelado suor me inunda;
O corpo se me arrepia;
Foge-me as cores do rosto,
Como ao vir da quadra fria
Entra a folha a desmaiar.

Respiro a custo, e já cuido
Que se esvai a doce vida!
Arrisquemo-nos a tudo...
Contra uma angústia insofrida
tudo se deve tentar.


A espada e o poeta (Alceu)

Eu coroarei de mirto a minha espada,
Como a de Harmódio honrada,
E como a de Aristógiton, o forte,
Quando ao sevo tirano deram morte,
E Atenas libertada
Foi à igualdade antiga restaurada.

Tu não morreste, Harmódio, oh não!tu gozas
Nessas ilhas ditosas
Serena vida cos heróis que aí moram,
E onde, cremos, demoram
Diomedes, o valente,
E Aquiles, o veloz, eternamente.

De mirto a minha espada
Trarei como Aristógiton c'roada,
E como Harmódio, o forte,
Que à vingança reserva,
Quando, nos sacrifícios de Minerva,
Ao tirano Hiparco deram morte.

Em prezada memória
Viverá para sempre, eternamente,
Harmódio, a tua glória,
E a tua, Aristógiton valente,
Que o tirano matastes
E à liberta cidade
O usurpado direito restaurastes
Da primeira igualdade.


*Os dois primeiros poemas são traduções de Antônio Feliciano de Castilho e o último é uma tradução de Garret.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Férias

Pessoal, como já é habitual nessa época do ano, nossa mesa estará de férias durante o mês de dezembro. Espero voltar em janeiro com novos pratos, temperos e sabores para servir aqui. Quero aproveitar também para, desde já, agradecer a todos os que passaram por aqui durante esse ano de 2012 e desejar a vocês um feliz Natal. Que venha 2013 com muito amor, paz e poesia para todos nós. Um grande abraço!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Coração

Coração,

máquina de pulsar,
máquina de bater,
máquina de encher
e esvaziar.

Máquina de soprar,
máquina de cuspir,
máquina de fluir
e armazenar.

Máquina de fechar,
máquina de abrir,
máquina de servir...
Brinquedo de amar!

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

Nota sobre o amanhecer

Ao amanhecer, o canto dos pássaros é tão importante quanto à luz do sol. Há em nós sentidos que só são despertados com o canto de um passarinho. É com ele que vamos abrindo nossos olhos líricos, esses mesmos que usamos para sonhar. E vamos despertando para um outro mundo, invisível, sobre o qual a noite nos deu algumas pistas. São os primeiros cantos matinais que vão iluminando cada pedacinho do que não existe.

Os que despertam apenas com a luz do sol continuam dormindo, continuam de olhos fechados para esse outro mundo. Porém, os que despertam não só com a luz do sol mas também com o cantar de um bem-te-vi, de um sabiá, acordam por completo, para este e tantos outros mundos, acordam para o visível e o invisível, para o que existe e o que não existe. Acordam para o dia e conseguem levar consigo um pedacinho da noite.

Obs: Vale lembrar que passarinho preso não canta, lamenta.

domingo, 18 de novembro de 2012

Outras cozinhas (Emily, Ivo e Quintana)

(Emily Dickinson)

As manhãs estão mais suaves,
Mais sazonadas, as nozes;
Os mirtilos, mais carnudos,
E ausente se encontra a rosa.

O bordo ostenta um lenço mais alegre,
A campina, uma saia escarlate;
Para não estar fora de moda,
Vou tratar de me enfeitar.


Pão nosso
(Ivo Barroso)

Amanhã nosso pão terá pedra — e o comeremos.
Ao parti-lo, amanhã, nosso pão será de pedra
e o comeremos.
Ao se partir em dois, o pão que a nossa fome espera,
será pedra,
e o comeremos.

Pois aceitar é o que estamos
fazendo neste dia, pois aceitar
é o que viemos fazendo nos dias
que antecederam mais um, que é este dia;
pois aceitar é o que vamos fazendo sem sentir
como quem come a pedra em vez do pão
pensando o pão.
Partindo-o, partiremos um seixo apenas.
Um seixo, afinal, que em vez de atirá-lo
— comeremos.


Ah, sim, a velha poesia...
(Mario Quintana)

Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde, um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura. Os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos

Pois bem
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
Parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
Tem por isso mesmo um sabor total: ETERNAMENTE
ESSE GOSTO DE NUNCA E DE SEMPRE.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Deus e o mar

Uns versinhos antigos tirados do fundo do mar, quero dizer, do fundo da gaveta...

Deus sentiu tanto orgulho
quando enfim criou o mar
que quis dar seus mergulhos,
pensou logo em navegar.

Deus pôs-se a contar as ondas
e pôs-se a brincar na areia.
Quis colecionar conchas
e sonhou com belas sereias.

Queria reinventar tudo
sem pernas, sem asas, sem ar,
para que tudo, tudo, tudo
só pudesse nadar.

E Deus sentiu tanto orgulho
que começou a chorar
e decidiu que dos olhos
cairiam gotinhas do mar.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Carta aos arqueólogos e simpatizantes (repostagem)

Caros arqueólogos e simpatizantes,

parem com essa bobagem de procurar o “elo perdido”! Nunca perdemos o elo com os animais, com os primatas. Somos os mesmos homens de sempre (talvez mais eretos e menos emotivos). O que perdemos foi o elo com o outro mundo, com os sonhos, com as coisas que não existem. Estamos na “era do coração de pedra”.

Inventamos a roda, mas perdemos a direção. Inventamos a lâmpada, mas perdemos as estrelas. Inventamos o telefone, mas perdemos as palavras. Inventamos o avião, mas atropelamos os anjos... Aprendemos a contar, calcular, medir e criamos uma espécie de fita métrica para o céu, para nos certificarmos de que aquele pedaço de azul cabe em nosso poema em redondilha maior. Trocamos cinco palmos de poesia por dois dedos de prosa apressados. Sabemos exatamente quantos copos d’água nossa flor no vaso necessita, mas esquecemos qual a nossa dose diária de flores para sobreviver.

Experimentem um dia escavar livros! Não os seus próprios livros, mas esses livros rasos que algumas crianças guardam como tesouros. Nossa história não está numa ossada enterrada no barro, está manchada à tinta no papel. Nesses papéis de histórias inventadas. Nossos ancestrais são deuses, ninfas, Otelo, Pinóquio, Dorian Gray, Dom Quixote (esse último considero da família) etc. Talvez muitas pessoas duvidem, mas alguns de nossos ancestrais tinham asas. Porém, deu-se a evolução e as perdemos. Agora estamos a pouco de perder o siso.

Por isso, mais uma vez, peço encarecidamente que parem de procurar dinossauros, primatas, ossadas de qualquer espécie e vão todos procurar suas almas peludas!