sábado, 21 de maio de 2016

Rubaiyat

Rubaiyat – plural de rubai. Quadras poéticas consagradas pelo poeta persa Omar Khayyam (1048-1131). E Rubaiyat foi o nome dado por Edward Fitzgerald a uma seleção de poemas de Omar, quando o inglês os traduziu pela primeira vez. Em sua tradução, Fitzgerald conseguiu manter a estrutura original dos versos (1º, 2º e 4º versos com a mesma rima e o 3º branco, ou seja, sem rima). Desde então outras traduções foram feitas, em diversas línguas (como a portuguesa) – algumas conseguindo manter a estrutura e aproximar do sentido original, outras nem tanto. Fato é que, traduções a parte, os rubaiyat de Omar ratificam a força de condensação que as línguas e poesias Orientais possuem e que as Ocidentais ainda têm muito o que aprender.

Nesta semana, graças aos bons e velhos sebos, um belo exemplar em português do Rubaiyat de Omar Khayyam chegou às minhas mãos. Já o devorei como uma pessoa que estivesse há dias sem comer e de repente fosse colocado um banquete imenso à sua frente.  Mas pretendo ler novamente, outras tantas vezes. Não é possível saborear devidamente os rubaiyat de Omar com tanta pressa. A poesia ali condensada precisa ser degustada aos pouquinhos, com calma. Um rubai, um haikai, um gazal , podem conter um mundo de sentidos, de “especiarias”, os quais um leitor apressado jamais será capaz de apreciar.

Tratando-se especificamente da obra de Omar, há várias discussões e interpretações sobre os sentidos de seus versos, sobre o significado de algumas expressões, sobre a essência de sua obra. Longe de entrar nessas discussões, gostaria de compartilhar aqui alguns rubaiayt que me foram mais saborosos. Ressalto que a tradução que tenho em mãos é de Jamil Almansur Haddad e, de maneira geral, não foi mantida a estrutura original dos versos mencionada anteriormente.

A Tulipa não vês que, na hora matinal,
Absorve da atmosfera o Vinho celestial?
Faze com crença o mesmo até que o Céu um dia
Te inverta para o Chão, feito ânfora vazia.


Eu minha Alma enviei para o espaço sem fim
para um Traço apreender do Mistério do Além.
Minha Alma devagar foi retornando a mim
E disse: “Eu sou o Céu e o Inferno também.”


Dispõe o Eterno Escriba. E havendo escrito,
A folha vira: e não há ciência ou devoção
Que cancele uma Linha; e não há pranto aflito
Que risque uma Palavra! Ah, todo choro é vão!


As esperanças vãs do Coração de um Homem
Ora são cinza, ora Esplendor, porém, em breve,
Como por sobre o pó dos Desertos a Neve,
Brilham somente uma hora ou duas e após somem.


Tanto ao homem que o seu HOJE prepara,
Como ao que no AMANHÃ incerto pensa,
Da Torre negra um Muezim gritara:
“Tolos! Nem cá nem lá há recompensa!”


Tuas cogitações, murmura a Multidão,
O Ano reduzirão a melhor curso? Não.
Um aviso somente o calendário deu:
“– O ontem já se extinguiu e o Amanhã não nasceu."


O mistério indaguei do Ser e do Não ser
E fui investigar não sei quanta grandeza.
De quanta cousa enfim eu procurei saber
Só no vinho encontrei alguma profundeza.

sábado, 7 de maio de 2016

Outras Cozinhas - João Guimarães Rosa

Hoje o “Outras Cozinhas” faz uma visita a Guimarães Rosa. Mas desta vez não ficamos limitados à cozinha, visitamos a casa inteira. Tive a oportunidade de conhecer há algumas semanas a simpática e encantadora de Cordisburgo-MG, terra natal do escritor e berço de muitas de suas histórias e personagens. Entre as várias atrações que a cidade oferece (Gruta de Maquiné, Portal Grande Sertão, Zoológico de Pedra, Empório do Brasinha – Projeto Recordanças...) está o Museu Casa Guimarães Rosa.
Visitar o museu é um mergulho na vida e obra do escritor. Lá é possível conhecer um pouco da infância de João, ver fotografias de sua família, de seus amigos que o inspiraram, sua elegante coleção de gravatas borboletas, o sacro quarto de sua avó, manuscritos, etc... É encantador. Não posso deixar de ressaltar os guias do museu – jovens do projeto Miguelim que tornam a visita mais agradável e enriquecedora, além de nos presentar com declamações de trechos dos contos de Guimarães Rosa.

Por isso deixo aqui a sugestão de visita ao Museu Casa Guimarães Rosa. Não só ao museu, mas à cidade de Cordisburgo. As pessoas de lá sabem ser acolhedoras e mantém viva a memória do Cordisburguense João. Ali Guimarães Rosa ainda passeia. Ali pulsa o Sertão.




Trecho do Grande Sertão: Veredas

“O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isto que me alegra, montão. E, outra coisa: o diabo, é às brutas: mas Deus é traiçoeiro! Ah, uma beleza de traiçoeiro – dá gosto! A força dele, quando quer – moço! – me dá medo pavor! Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz é na lei do mansinho – assim é o milagre. E Deus ataca bonito, se divertindo, se economiza. A pois: um dia, num curtume, a faquinha minha que eu tinha caiu dentro dum tanque, só caldo de casca de curtir, barbatimão, angico, lá sei – “Amanhã eu tiro ...” – falei, comigo. Porque era de noite, luz nenhuma eu não disputava. Ah, então saiba: no outro dia, cedo, a faca, o ferro dela, estava sido corroído, quase por metade, por aquela aguinha escura, toda quieta. Deixei, para mais ver. Estala, espoleta! Sabe o que foi? Pois, nessa mesma da tarde, aí: da faquinha só se achava o cabo... O cabo – por não ser de frio metal, mas de chifre de galheiro. Aí esta:  Deus... Bem, o senhor ouviu, o que ouviu sabe, o que sabe me entende...”