domingo, 29 de novembro de 2015

10 poemas

Após alguns meses sem servir um poema sequer por aqui, resolvi fazer uma pequena seleção de 10 poemas já servidos em nossa mesa. Não segui critérios para tal seleção, apenas deixei-me ser levado pelos variados sabores. Peço licença para incluir entre eles um poema de minha autoria (A menina e a flor) já publicado no "O poeta e o pano". Aproveitei também para dar "uma nova cara" ao blog. Bom apetite!

Ismália (Alphonsus de Guimaraens)

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…


Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair
do bairro


Poeminha sentimental (Mario Quintana)

O meu amor, o meu amor, Maria
É como um fio telegráfico da estrada
Aonde vêm pousar as andorinhas...
De vez em quando chega uma
E canta
(Não sei se as andorinhas cantam, mas vá lá!)
Canta e vai-se embora
Outra, nem isso,
Mal chega, vai-se embora.
A última que passou
Limitou-se a fazer cocô
No meu pobre fio de vida!
No entanto, Maria, o meu amor é sempre o mesmo:
As andorinhas é que mudam.


Roteiro (Sidónio Muralha)

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


A Balada do Desesperado (Henry Murger)

Tradução de Castro Alves.

— Quem bate à porta a tais horas?
— Abre, sou eu. Quem tu és?
Não se entra na minha casa
Tão tarde assim, bem o vês.

— Abre. — Teu nome? — Há geada,
Abre. Teu nome? — És tardio!
Qual é teu nome? — Ai, na cova
Um morto não tem mais frio.

Eu caminhei todo o dia
Do sul ao setentrião,
Ao pé da tua lareira
Quero sentar-me — Inda não!

Diz teu nome... — Eu sou a glória
E aspiro à posteridade...
— Passa fantasma irrisório...
— Ó dá-me hospitalidade!

Eu sou o amor e a esperança
As duas porções de Deus...
— Segue a estrada... A minha amante
Há muito me disse adeus!

— Eu sou a arte e a poesia,
Proscreveram-me... Abre! — Não!
Já não canto minha amante.
Nem sei que nome lhe dão!...

— Abre, que eu sou a riqueza,
E trago do ouro o fulgor,
— Posso dar-te a tua amante...
— Podes dar-me o seu amor?

— Sou o poder, tenho a púrpura.
Abre a porta! — Anelo vão!
Podes trazer-me a existência
Daqueles que já não sâo?!

— Se tu não abres teus lares
Senão a quem diz seu nome
Sou a morte! trago alívio
P'ra cada dor que consome!

Podes ver, trago na cinta
Ruidosas chaves fatais...
Abrigarei teu sepulcro
Do insulto dos animais.

— Entra, estrangeira funérea...
Perdoa à mendicidade,
Porque é no lar da miséria
Que tens hospitalidade.

Entra; cansei-me da vida
Que nada tem que me dar...
Há muito eu tinha desejos
(Não força) de me matar!

Entra no lar, bebe e come,
Dorme, e quando despertares,
Para pagar tua conta
Hás de levar-me aos teus lares.

Eu te esperava, eu te sigo...
Vamos... arrasta-me... assim...
Mas deixa o meu cão na terra
P'ra eu ter quem chore por mim!


Máquina breve (Cecilia Meireles)

O pequeno vaga-lume
com sua verde lanterna,
que passava pela sombra
inquietando a flor e a treva
— meteoro da noite, humilde,
dos horizontes da relva;
o pequeno vaga-lume,
queimada a sua lanterna,
jaz carbonizado e triste
e qualquer brisa o carrega:
mortalha de exíguas franjas
que foi seu corpo de festa.

Parecia uma esmeralda
e é um ponto negro na pedra.
Foi luz alada, pequena
estrela em rápida seta.
Quebrou-se a máquina breve
na precipitada queda.
E o maior sábio do mundo
sabe que não a conserta.



O cavalo e a nuvem (Mikhaíl Rêndjov)

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
relinchando à noite arrancando as flores
anunciou tempestades e ataques
lançou enxames sobre as estrelas

E retornou à sua nuvem

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
trazendo desconhecidos exércitos encouraçados
pisoteou as almas com os cascos de bronze
anunciou mortes e secas

E retornou à sua nuvem

Por fim rebelou-me os olhos dentro das órbitas
fez-me ranger os ossos
atiçou gralhas sobre os corvos
ensanguentou trombetas e tambores

E retornou à sua nuvem


Soneto (Théophile de Viau)

Eu sonhei que Philis do inferno retornava,
Tão bela quanto foi à clara luz do dia;
Que eu lhe fizesse amor seu fantasma queria,
Sentindo como Ixion, que uma nuvem abraçava.

Toda nua em meu leito a sombra se espojava;
“Caro Dâmon, estou de volta” – me dizia;
“Vê como embelezei na triste moradia
Onde, depois que foste, a Sorte me trancava.

Quero outra vez beijar meu amante perfeito;
E de novo morrer no espasmo de teu leito!”
E então, tendo esgotado o meu ardor, em calma,

Me disse: “Volto à Morte. Adeus! Tens-te exibido
Por haveres, em vida o meu corpo fodido:
Vais agora dizer que fodeste a minha alma.”


Evolução (Adelaide Petters Lessa)

Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.


A menina e a flor (Denis Mattos)

(Para Ana Clara e Júlia)

De onde vem aquela flor
que a menininha leva nas mãos?
Vem dos campos de Arcádia,
do colo da triste Marília?
Dos canteiros de alguma praça?
Do pesar de alguma família?
Vem da última aragem?
Das palmas de um santo orador?
Dos jardins em que o tempo cultiva
idades feitas em flor?
Quem sabe dos próprios cabelos
decorados da Primavera?
“Toda flor”, diz o homem,
“toda flor vem da terra,
até ser por alguém arrancada”.
Mas aquela brotou ali mesmo, eu digo,
nas mãos da menina levada.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Outras Cozinhas (Rumi)

Esta semana a visita é na belíssima cozinha do poeta persa Jalal ad-Din Muhammad Rumi. Três poemas de rara beleza! E aproveito também para dedicar esses pratos a meu caro amigo Ricardo Gorchacov, que me concedeu algumas aprazíveis horas de discussão e contemplação de uma pequena parte da obra do poeta mencionado.


O destino do coração

Os olhos foram feitos para ver coisas insólitas,
fez-se a alma para gozar da alegria e do prazer.
O coração foi destinado a embriagar-se
na beleza do amigo ou na aflição da ausência.

A meta do amor é voar até o firmamento,
a do intelecto, desvendar as leis e o mundo.

Para além das causas estão os mistérios, as maravilhas.

Os olhos ficarão cegos
quando virem que todas as coisas
são apenas meios para o saber.

O amante, difamado neste mundo
por uma centena de acusações,
receberá, no momento da união,
cem títulos e nomes.

Peregrinar nas areias do deserto
nos exige suportar
beber leite de camelo,
ser pilhados por beduínos.

Apaixonado, o peregrino beija a Pedra Negra
ansioso por sentir mais uma vez
o toque dos lábios do amigo
e degustar como antes o seu beijo.

Ó alma, não cunhes moedas com o ouro das palavras:
o buscador é aquele que vai
à própria mina de ouro.


Mundos Infinitos

A cada instante a voz do amor nos circunda
e partimos em direção ao céu profundo
Por que deter-se a olhar ao redor?
Já estivemos antes por esses espaços e até os anjos os reconhecem
Retornemos ao mestre, que é lá nosso lugar
Estamos acima das esferas celestes, somos superiores aos próprios anjos
Além da dualidade nossa meta é a glória suprema
Quão distante está o mundo terreno do reino da pura substância?
Por que descemos tanto?
Apanhemos nossas coisas e subamos mais uma vez
Sorte não nos faltará ao entregarmos de novo nossas almas
Nossa caravana tem por guia Mustafá, a glória do mundo
Ao contemplar sua face a lua partiu-se em dois pedaços
Não pôde suportar tanta beleza e fez-se feliz mendicante frente àquela riqueza
A doçura que o vento nos traz é o perfume de seus cabelos
A face que traz consigo a luz do dia reflete o brilho de seus pensamentos
Olha bem dentro de teu coração e vê a lua que se despedaça
Por que teus olhos ainda fogem dessa visão maravilhosa?
O homem emerge do oceano da alma como os pássaros do mar
Como há de ser terra seca o lugar do descanso final
de uma ave nascida nesse mar?
Somos pérolas desse oceano. A ele pertencemos. Cada um de nós.
Seguimos o movimento das ondas que se arrastam até a terra
e então retornam ao mar
E eis que surge a última onda e arremessa o navio do corpo à terra
E quando essa onda regressa naufraga a alma em seu oceano
E este é o momento da união.


(Trecho)

Por mais que se descreva ou se explique o amor,
quando nos apaixonamos envergonhamo-nos de nossas palavras.
A explicação pela língua esclarece a maioria das coisas,
Mas o amor não explicado é mais claro.
Quando a pena se apressou em escrever,
Ao chegar no tema do amor, partiu-se em duas.
Quando o discurso tocou na questão do amor,
A pena partiu-se e o papel rasgou-se.
Ao explicá-lo, a razão logo empaca, como um asno no atoleiro;
Nada senão o próprio Amor pode explicar o amor e os amantes...

domingo, 14 de junho de 2015

Outras Cozinhas (Carlos Nejar)

Sirvo hoje em nossa mesa três pratos da cozinha de Carlos Nejar. Os três poemas abaixo foram retirados de seu belíssimo livro "Os Viventes", que aproveito para deixar como sugestão.



O HIPOPÓTOMO

É um pótamo de música
sobre as patas, um pote
de abelhas croatas
se locomovendo
enorme na colmeia.
Os olhos com os favos
se grudando às orelhas.

Lote de gaivotas
sobre o hortalício
lombo.

E se a morte tivesse
um outro ofício,
seria portentosa
e hipopótama.


NA ESTRELA DE KEATS
                                  
Minha virtude é estar
onde não pude
e a água me escreveu.


BALADA AO PRIMEIRO BEIJO

Guardei o teu beijo
comigo. O aroma
de manhã deitada.
Guardei muito                 
o teu beijo. Primeiro
e depurado: no colégio,
no estádio. Teu beijo
me fitava de dentro
dos olhos arrelvados.
Na boca. E então me sopra
o verdor de moça,
ainda menina. Éramos
tão ditosos e ouvia
cair a chuva
de nossa juventude.
E o beijo cantava
de alma para alma.
E quando te abraçava
entrava o amor pela sacada.
E guardá-lo, sinto
o hálito preciso.
Úmido, úmido
do primeiro sol.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Caderno da vó Elce - V

Semana Santa em Ervália e, inevitavelmente a bagagem de volta vem carregada daquelas lembranças boas, de um saudosismo infantil, de casa de avós e procissões. Com esse espírito (de boas lembranças), resolvi retomar aqui no blog, o Caderno da vó Elce, que são na verdade poemas retirados de um antigo caderno da minha avó. Grande parte dos poemas não possuem o nome de seus respectivos autores, portanto de alguns, como do poema que sirvo hoje, não consegui descobrir quem foi seu verdadeiro autor. Caso alguém saiba, agradeço imensamente desde já pela informação.


No tribunal cor de rosa

Está aberta a Sessão. Entraste em julgamento,
A Saudade é a defesa, a testemunha o Céu.
O Ciúme o promotor, o crime o Esquecimento,
O juiz é o Coração, e o ofendido, “Eu”!

Levanta-se o Ciúme; acusa: “És Criminosa”!...
E termina pedindo tua punição.
Chega a vez da Saudade, pálida e chorosa
Diz ao juiz que te amo e pede teu perdão.

O juiz que é um apaixonado, tímido, nervoso,
Medita uma sentença ao doce som mavioso
Duma cítara antiga de celestiais arpejos...

E pegando da pena, uma sentença lança
Condenando-te a me dares, divinal criança,
Setecentos abraços e um milhão de beijos.