Amor de tarde (Mario Benedetti)
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.
É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.
O inefável (Delmira Agustini)
Morro de estranho mal. Não, não me mata a vida
a morte não me mata e nem me mata o amor.
Morro de um pensamento mudo como ferida.
Não sentiste jamais aquela estranha dor
de um pensamento imenso enraizado à vida
devorando alma e carne e não alcança a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
por inteiro a abrasar-vos sem nenhum fulgor?
Cúmulo dos martírios! Levar eternamente
desgarradora e seca a trágica semente
como um dente feroz que as entranhas corroeu.
Mas arrancá-la em flor que amanhecera um dia
milagrosa e ideal — ah! maior não seria
do que ter entre as mãos a cabeça de Deus.
O avô (Washington Benavides)
O avô veio do fundo
da chácara. Aonde,
certamente,
refugiou-se para fumar tranquilo.
Ao passar o pátio, ajeitou
a boina, e afastou com a mão esquerda,
com uma palmada, as guias temerárias
da videira. Ao entrar
na sala,
e, diante da possibilidade de encontrar alguém,
transformou-se num armário.

