sábado, 7 de dezembro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha uruguaia)


Amor de tarde (Mario Benedetti)

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso dez minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.


O inefável (Delmira Agustini)

Morro de estranho mal. Não, não me mata a vida
a morte não me mata e nem me mata o amor.
Morro de um pensamento mudo como ferida.
Não sentiste jamais aquela estranha dor

de um pensamento imenso enraizado à vida
devorando alma e carne e não alcança a dar flor?
Nunca levastes dentro uma estrela dormida
por inteiro a abrasar-vos sem nenhum fulgor?

Cúmulo dos martírios! Levar eternamente
desgarradora e seca a trágica semente
como um dente feroz que as entranhas corroeu.

Mas arrancá-la em flor que amanhecera um dia
milagrosa e ideal — ah! maior não seria
do que ter entre as mãos a cabeça de Deus.

 
O avô (Washington Benavides)

O avô veio do fundo
da chácara.  Aonde, certamente,
refugiou-se para fumar tranquilo.
Ao passar o pátio, ajeitou
a boina, e afastou com a mão esquerda,
com uma palmada, as guias temerárias
da videira.  Ao entrar na sala,
e, diante da possibilidade de encontrar alguém,
transformou-se num armário.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Para Luja...

O que seria dos poetas sem à pessoa amada, sem a musa que inspira seus sonhos e sua vida?... Seus versos. Eis quatro poemas dedicados inteiramente àquela que amo:

Do livro "O poeta e o pano"

Poema de açucar

(Para a Luja)

Do céu,
tudo no chão parece formiga.

Do chão,
tudo no céu parece estrela.

Ao teu lado,
tudo – no chão, no céu,
tudo parece estrela.
Somente as estrelas parecem formigas
(formigas a roubar de ti pedacinhos de luz)...


De astros

(Para Luja)

Saí do teu quarto atônito, mudado.
Como se eu ou o velho mundo fosse outro.
Com a vida condensada num estado
entre sonhos e relâmpagos de ouro.

Senti-me envolto a uma áurea de gigante,
alheio a tudo que não fosse ente celeste.
Já não lembrava como a vida era antes,
se o silêncio foste tu que compuseste.

E se me perguntas para onde eu fui,
por quais caminhos rabisquei meu rastro
de felicidade e passos azuis,

eu mal me lembro dos nomes das ruas.
Só sei que saí de lá falando de astros
e com um leve sotaque da lua.


Legado

(Para Luja)

Deito ao teu lado, amor, e penso
nos deuses que agora estão
confusos a respeito do tempo,
indagando-se sobre a criação.

Tudo conforme o planejado
até que nos deitamos a dois.
O Infinito não era nosso legado,
era surpresa para depois.

Fundimos a Anímica dos deuses
com a pobre Física dos homens.
Talvez reformulem os meses,
talvez não mais os somem.

Os deuses já aceitam a Eternidade
existir em um tempo e espaço,
só não entendem, é bem verdade,
como ela coube em teu abraço.


Do livro Pá Virada:

Encontro

(Para Luja)

Guarda logo este sol!
Seca logo estes mares!
Esconde esta lua!
E o céu, de que me vale?

Desbota logo estas flores,
deixa tudo em preto e branco!
Recolhe todas as estrelas
e amontoa em qualquer canto!

As árvores, as pedras, os rios...
Enrola tudo e joga fora!
Agradeço tua intenção,
mas já estou indo embora.

Não meu Deus, não!
Pode jogar fora sem receio.
Que valor tem tudo isso
se o meu amor não veio?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Em cada linha...

Enfim a inspiração! Mas faltam a caneta e o papel... Caneta e papel! Mas cadê a inspiração?... Quantas vezes passei por isso! Quantas vezes saio como um louco em busca de um pedacinho de papel, uma caneta qualquer, para tentar colocar em ordem ou no mínimo dar um palco para versos que resolvem dançar sem aviso em minha cabeça. E quantas vezes fui torturado pelo palco vazio, pela alva e fria indiferença de um papel em branco!
                 
De um tempo para cá resolvi buscar uma solução para esse problema (ou pelo menos para falta de papel quando as palavras faíscam). Comecei a escrever poemas numa agenda que me acompanha quase o dia todo. Aproveito cada linha. A inspiração continua pouco assídua, ainda não passei do dia doze de janeiro. E observando minha agenda companheira, suas primeiras páginas, cheguei a conclusão de que assim deveriam ser os dias: Que não passassem até estarem repletos de poesia!

E relembrando um poema de Henriqueta Lisboa:

Calendário

Calada floração
Fictícia
Caindo da árvore
Dos dias.

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

Coração de Manué Seco

Sirvo hoje aqui em nossa mesa alguns versos do poeta Catullo da Paixão Cearense, recitados por Rolando Boldrin. Vi essa emocionante interpretação de Boldrin há alguns dias, no seu programa Sr. Brasil e não poderia deixar de compartilhá-la  aqui no blog. Vale a pena conferir!


sábado, 12 de outubro de 2013

Quando eu for criança

Em homenagem ao dia das crianças, um poema do livro Pá Virada:

Quando eu for criança

Quando eu for criança,
vou reinventar brincadeiras,
vou dormir nos quintais,
e ter um quarto à minha maneira.
Quando eu for criança,
não vou querer dormir cedo,
vou ter medo da luz,
vou fazer mais cirandas,
e só rezar pro menino Jesus.
Vou acreditar nas histórias,
vou ler mais poesias,
passear e cantar na chuva,
deixar os problemas em banho-maria.
Quando eu for criança,
vou derrubar dominó,
dominar tigres e leões
com uma sonhada só.
Vou dar mais “boa noite”,
mais, muito mais abraços
e, sem ter medo de tombos,
vou desamarrar os cadarços.
Quando eu for criança,
vou querer mais aniversários,
mais natais, páscoas e festas.
Vou embaralhar o calendário.
Escovar dente com chocolate,
vou borrar maquiagens,
vou imaginar meu herói
e pintar sua imagem.
Vou usar mais chapéu,
vou mudar mais assuntos.
Quando eu for criança,
não vou querer ser adulto.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Noite

Noite. Esse o tema e o nome de um fabuloso livro escrito por A. Alvarez. Há tempos que eu queria ler esse livro e finalmente estou tendo a oportunidade de saboreá-lo com a devida calma e apreço. Embora um tema como esse pareça demasiadamente amplo e inesgotável, A. Alvarez escreve de maneira incrível sobre esse período ignoto do dia que existe fora e dentro de nós, buscando compreender melhor seus significados e suas linguagens. Para analisar melhor a noite, o autor passeia pela história, poesia, pinturas, sonhos, psicanálise, dentre outras tantas ramificações por onde ela  possa se emaranhar.

Para mim o tema sempre foi motivo de fascínio. Com todas suas estrelas, sua escuridão, sua densa infinitude, a noite é uma das vestes mais transparentes e naturais da poesia. Todos os medos e paixões suscitados pela noite não poderiam deixar de ser inspirações constantes para qualquer um que se aventure pelo mundo literário. 

Os grandes romances comprovam através de seus personagens como a noite exerce uma influência avassaladora nos nossos pensamentos e comportamentos. Se tomarmos como exemplo o clássico romance de Charlotte Bronte, podemos ver como junto ao anoitecer todo drama, toda angústia de Jane Eyre (e a nossa) é exacerbada de uma maneira quase insuportável. Os bons autores sabem usar bem o período noturno para acentuarem ainda mais as paixões, medos e dramas em seus romances.
            
Victor Hugo, em Os trabalhadores do mar, faz uma das mais belas reflexões sobre a noite que cobria e abraçava o solitário Gilliatt:
 
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."

Poderíamos seguir aqui com uma lista quase infinita de exemplos de autores (Allan Poe, Robert Frost, Shakespeare...) que vez ou outra ousaram encarar alma à alma esse “inexprimível teto de tênebras”. Mas ao invés disso, deixo a sugestão, para quem se interessar mais pelo assunto, da leitura desse prazeroso e interessantíssimo livro de A. Álvarez: Noite.