terça-feira, 28 de agosto de 2012

Outra cozinhas (Muralha, Schmidt, Florbela)

Roteiro (Sidónio Muralha)

Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se fôr claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


Vazio (Augusto Frederico Schmidt)

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente as casas,
Os bondes, os automóveis, as pessoas,
Os fios telegráficos estendidos,
No céu os anúncios luminosos.

A poesia fugiu do mundo.
O amor fugiu do mundo —
Restam somente os homens,
Pequeninos, apressados, egoístas e inúteis.
Resta a vida que é preciso viver.
Resta a volúpia que é preciso matar.
Resta a necessidade de poesia, que é preciso contentar.


Ambiciosa (Florbela Espanca)

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O voo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minh'alma é como uma pedra funerária
Erguida na montanha solitária,
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor dum Deus!...

domingo, 26 de agosto de 2012

Mais pra lá do que pra cá (repostagem)

Há pouco tempo, uma amiga minha pediu para que eu escrevesse algo sobre a educação brasileira. Não é preciso conhecer muito para saber que a nossa educação vai mal das pernas. Acatei o pedido dela, mas de antemão já deixei avisado que a minha posição, de certa forma, seria em defesa da atual educação. Creio que minha amiga ficou um pouco desapontada.

Mas o que eu queria dizer a ela é que a educação brasileira é bem sucedida, objetiva, pelo menos ao que se propõe. Explico:

Há uma personagem de Vitor Hugo, do livro “Os trabalhadores do mar”, chamada Deruchette. Ela foi criada por Mess Lethierry, seu tio. Esse, por sua vez, educou a sobrinha dando-lhe ocupações elegantes como música, livros e um pouco de costura. Lethierry queria preservar suas mãos delicadas, sua ternura, sua áurea de menina, sem nunca privá-la da cultura, é claro. Como escreveu o próprio Vitor Hugo, o tio “educou-a mais para ser flor do que para ser mulher”. Ao ler o livro, pode-se dizer que Lethierry foi bem sucedido.

Na educação do Brasil, acontece algo semelhante. Como já disse, ela é até bem feita, eficiente. A diferença é que nós, o povo brasileiro, somos educados mais para pedra do que para homem.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Cebolão

Uma pena! Uma verdadeira lástima os vampiros serem intolerantes ao alho! Já não podem tomar um bom banho de sol e sofrem também dessa lamentável intolerância. A essa altura o amigo leitor já deve ter concluído que estou falando dos vampiros mais antigos, conservadores, como o Conde Drácula, não desses vampiros modernos que vão até a pizzarias.

Pois bem, digo que deve ser mesmo muito triste não poder provar dessa inigualável especiaria culinária. Não sei se essas pobres criaturas da noite toleram cebola, creio que não, o que é outra pena!

Felizes devem ser o Saci, o Curupira, os lobisomens, pois até onde eu sei, não compartilham do mesmo infortúnio de seus amigos vampiros e não têm nenhuma restrição alimentar. Comem de tudo!

Mas o Saci merecia! Não desejo mal a ninguém, mas o Saci bem que merecia ter uma intolerância como esta! E querem saber o motivo? Esse moleque não se contenta em poder comer de tudo, ele tem que fazer suas maldades, tem que desafinar as violas que encontra pelo caminho. Pois é, dizem que o Saci gosta de sair pela noite desafinando violas. E bem suspeito de que ele passou por aqui esses dias e desafinou a minha.

Sempre deixo minha viola com a afinação “cebolão”. Dizem que ela tem esse nome porque é a afinação em que, quando a viola é tocada, faz as mulheres chorarem como se estivessem descascando cebola. Desconfio que os roteiristas de telenovelas conhecem e estudam há muito essa afinação... Enfim, acho muito bonita a “cebolão” e afinarei novamente minha viola assim. Mas para ser sincero, não foi pela beleza que escolhi essa afinação, é que eu tinha a esperança de o Saci também ter uma certa intolerância, como os vampiros.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Despertar

Eram cinco e meia da manhã e um pequeno aglomerado de senhoras já se formava em frente à entrada da igreja. Começavam a demonstrar sinais de impaciência. Por que seu Zé do Rosário ainda não havia aberto as portas da igrejinha? Será que se esquecera de que hoje era dia do “terço da aurora”? O frio estava de matar e nenhum sinal de seu Zé.

Cinco e quarenta. O aglomerado já contava agora com cerca de quinze senhoras e a irritação só aumentava. Mesmo do outro lado da praça era possível ouvir o pequeno coral de resmungos que, se não fosse pela falta de sincronia e algumas poucas exclamações de “porcaria!”, podia se supor que a reza estava sendo feita ali mesmo, do lado de fora da igreja.

Cinco e quarenta e cinco. Estava decidido, iriam reclamar com o padre Clemente. Era um absurdo a igreja fechada até àquela hora! E não era a primeira vez que seu Zé do Rosário se atrasava!

As geladas e enfurecidas senhoras esperaram dar cinco e cinquenta para se dirigirem à casa do padre. Já caminham naquela direção quando ouviram o conhecido rangido das portas da igreja se abrindo...

- Até que enfim, seu Zé! O senhor está muito atrasado! Isso é falta de compromisso!

- Ainda sim vou reclamar com o padre!

- Porcaria!

E ouvindo tantas reclamações, ainda sonolento, seu Zé do Rosário argumentou:

- Mas minhas senhoras, por que rezar tão cedo nesse frio? Nem Deus deve estar acordado uma hora dessas!

- Ô homem besta! Deus não dorme, seu Zé!

- Por isso mesmo! – retrucou o pobre homem – Por que rezar uma hora dessas? Deus vai estar acordado mais tarde também!

- Hoje é o “terço da aurora”! E além do mais, Deus ajuda quem cedo madruga!

A discussão se encerrou por ali mesmo. As (agora dezessete) senhoras iniciaram logo o terço, com um misto de alegria, frio, raiva e sono. As ave-marias eram como um mantra para o grupo, já no pai-nosso demoravam um pouco a sincronizar. Às seis e dezoito a oração se encerrou.

Seis e vinte. Um pequeno aglomerado de senhoras começou a se formar na porta da padaria. Por que o padeiro estava demorando tanto para abrir as portas? Será que se esquecera de preparar a massa do pão?...

- Porcaria!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Outras cozinhas (Gustavo Corção)



Pessoal, hoje faço uma visita à cozinha de Gustavo Corção, mais especificamente ao seu extraordinário livro "lições de abismo". Ponho à mesa três pequenos trechos que selecionei. A vontade que tenho é de compartilhar o livro todo, pois realmente é complicado selecionar três pedacinhos de uma prato tão saboroso. Que sirvam então de apetivos... Grande abraço!


"O homem-que-não-pensa vai ao cinema três vezes por semana. No celulóide ele encontra um pequenino empréstimo de grandeza: é heróico com o herói, amoroso com o apaixonado, magnânimo com o forte. Depois volta para casa, de braço dado com a sua morte. Por quê? Por quê? Por quê?"


"Espetáculos sem espectador. Imagina, ó minh’alma esse imenso teatro sem platéia, esse palco escuro, essa infinita beleza escondida. Imagina, em lugares ermos, as encostas dos montes pelas madrugadas, o concerto dos pássaros que as flores não ouvem, e o concerto dos pássaros que as flores não vêem; imagina a joalheria de orvalho que a noite enfia colares sem conta, e que o sol desfaz, sem que ninguém pelos vales diga à noite, ao pássaro, à flor: que beleza! obrigado! E o crescimento das plantas, da menor das folhas de grama, miniatura de gládio tenro, até as árvores poderosa que crescem em dois sentidos, movem-se em dois sentidos, dançando no ar o bailado leve das ninfas, e na terra úmida e obscura o tenebroso sabat das raízes coleantes – sem que ninguém diga à grama e ao cedro: que beleza! obrigado, grama! obrigado, cedro! E as estrelas, as rosas do céu, que também nascem, e crescem, e morrem, que também são várias e personalíssimas, desde a lívida até a rubra, e que lá nos confins se incendeiam, sem que ninguém assista, não digo à cintilação que nos cai como esquírola de luz, mas à totalidade excessiva desse incêndio excessivo, e sem ninguém que lhes diga, que lhes grite dentro mesmo da combustão: que beleza! obrigado, Betelgeuse! obrigado, Ríjel! obrigado, Belatriz!"


"Tu que gostas de levantar muros e traçar limites, ó coração do homem, vê se consegues achar ainda um diluído aconchego nesta galáxia que é tua, e que encerra cem bilhões de sóis. Vê se consegues pensar na bandeira deste rincão do universo."