terça-feira, 31 de julho de 2012

Só de vista

Nunca fui para a guerra.
Sempre andei pela rua como quem espera chuva.
Já me deparei com o diabo algumas vezes.
Um porre! Não temos assunto.
Não tenho muitos conhecidos.
Conheço Deus só de vista.
Tem gente que não acredita em Deus
ou acha Ele um pouco antissocial.
Pois é como falei para o diabo outro dia:
Essa gente não dá nem “bom dia”
e depois quer ter intimidade!

terça-feira, 24 de julho de 2012

O ritmo das flores

Duas semanas em Ervália, longe do ritmo acelerado de Belo Horizonte, fez-me lembrar de como a vida pede lentidão, vagareza. Na realidade, acho que as coisas até andam bem aceleradas em Ervália, meu coração é que tem essa sede de calmaria toda vez que chega por aqui. E resolvi saciá-lo.

Antes que me interpretem mal, não estou por aí andando feito uma tartaruga. Não é isso. São meus olhos que estão mais lentos, minha alma que abriu mão da pressa. Talvez só em outro ritmo seja possível apreciar os detalhes, os pequenos e grandes “espetáculos sem espectadores” dos quais nos fala Gustavo Corção. “O ritmo da flor está fora do nosso ritmo”, escreveu esse grande espectador. Aliás, foi preciso um ritmo mais lento, mais brando, para que eu pudesse apreciar devidamente e degustar cada palavrinha do seu belíssimo livro “lições de abismo” e, em especial, a parte em que o autor nos conta sobre a sutil e lenta dança das suas rosas.

Mas mesmo com toda calma, com toda lentidão, sinto que ainda estou fora do ritmo. Meu coração ainda sente sede. A dança das flores ainda é mais lenta do que meus olhos... Tudo bem! Não vou me desesperar por isso, meu coração sobreviverá. Por enquanto contento-me em observar e aprender os passos de dança que Ana Clara, com toda pressa dos seus 4 aninhos, ensinou-me para sua festa junina. Por enquanto, matarei essa sede com risadas e quentão.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Outras cozinhas (Florbela, Adélia e Cecília)

Vaidade (Florbela Espanca)

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...


Ensinamento (Adélia Prado)

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café , deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.


Conveniência (Cecília Meireles)

Convém que o sonho tenha margem de nuvens rápidas
e os pássaros não se expliquem, e os velhos andem pelo sol,
e os amantes chorem, beijando-se, por algum infanticídio.

Convém tudo isso, e muito mais, e muito mais...
E por esse motivo aqui vou, como os papéis abertos
que caem das janelas dos sobrados, tontamente...

Depois das ruas, e dos trens, e dos navios,
encontrarei casualmente a sala que afinal buscava,
e o meu retrato, na parede, olhará para os olhos que levo.

E encolherei meu corpo nalguma cama dura e fria.
(Os grilos da infância estarão cantando dentro da erva...)
E eu pensarei:"Que bom! nem é preciso respirar!..."

terça-feira, 10 de julho de 2012

Versos soltos

...............

(Para Luja)

Essa doçura que seus olhos defendem
como incansáveis sentinelas de mel...
Tenho a impressão de que quando se fecham,
fecham-se também os portões do céu.

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Na mesa do bar



Este é o primeiro texto que escrevo sentado na mesa de um bar. Na verdade não estou escrevendo o texto, só anotando algumas observações para depois serem devidamente trabalhadas. Sinto-me como um membro do Clube Pickwick, com meu caderninho de anotações.

Henrique de Campos, ao escrever um prefácio para um livro de contos de Tchecov, diz que um dos motivos que fez desse contista um dos maiores escritores russos foi o fato de o mesmo ser médico. Segundo Henrique, um médico tem em seu trabalho contato com milhares de histórias, a história de vida de cada paciente, de cada pessoa que ele se propõe a atender e a escutar. A prática da medicina seria assim um campo fértil para literatura. Concordo, mas sou obrigado a acrescentar que a mesa de um bar é tão fértil quanto a mesa de um consultório, no que diz respeito a histórias de vidas.

Não faz uma hora que estou no bar e já pude ouvir algumas histórias bem interessantes das pessoas que estão a minha volta (confesso que pareço aqui um pouco intrometido). São histórias do cotidiano dessas pessoas, do dia-a-dia, histórias comuns, mas que bem contadas, dariam belos livros e profundas reflexões. Tchecov era mestre nisso. Seus contos são, em geral, situações corriqueiras de sua época, recortes da vida cotidiana. E poucos souberam fazer isso tão bem como Tchecov. Como o próprio Henrique ressalta, seus contos terminam quase sempre em reticências, não têm um final “impactante”, um desfecho certo. Seus personagens são pessoas comuns da sociedade russa da época. A maioria dos contos desse grande literato russo é um “flagrante da existência”, um mergulho no rio da vida que está sempre a correr.

Logicamente é preciso passar essas observações corriqueiras, esses casos do dia-a-dia, pelo filtro da arte. A mera descrição, sem qualquer enfeite, sem qualquer poesia, não seria muito atrativa para se ler. É preciso cozinhar devidamente as palavras. Tchecov era extremamente preocupado com esse preparo de seus contos. Preocupava-se com a musicalidade, o ritmo das frases. Um bom autor sabe que é necessário enfeitar suas narrativas, inclusive com coisas que não existem. Transformar o cru em algo comestível e agradável.

Sugiro para o leitor que queria prolongar essa nossa prosa, que leia os contos de Tchecov, em particular “O beijo”. É impressionante como o autor consegue transformar o que seria “um simples beijo” em algo tão intrigante, em um conto tão atrativo e repleto de sonhos e reflexões... E quanto às minhas observações de bar, já tenho o bastante. Vou agora para casa tentar torná-las comestíveis... Garçom, por favor, um conto! Digo, a conta!

domingo, 1 de julho de 2012

Com outros olhos...

Aproveitando a tarde de domingo para reler alguns rabiscos antigos, encontrei um texto que escrevi faz tempo. Na época não dei a ele muita importância, ficou esquecido, mas hoje o li com outros olhos (caramujos, peixes, cegos). Compartilho esse velho novo texto agora com vocês:

Quando fores contemplar a beleza de quem amas...

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla lentamente. Passeia sobre ela com teus olhos-caramujos, passando por cada detalhe daquela imensidão e deixando sempre um rastro para que teus sonhos e lembranças não percam o caminho.

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla fundo. Mergulha com teus olhos-peixes no raso e no fundo, sabendo que ali há mais tesouros e mistérios do que os olhos podem encontrar.

Quando fores contemplar a beleza de quem amas, contempla tudo. Mira a beleza com teus olhos-cegos e a toque não só com tuas mãos, mas com cada pedacinho de teu ser que puder aparar uma gotícula de alma.

E por fim, não passeia, não mergulha, não mira. Vive ali! Planta ali teus olhos como duas sementes, como duas mudas de esperança. E não tenhas dúvida, o olhos que germinam na beleza de um amor trazem consigo cores que a primavera ainda desconhece.