Ouvi um rapaz dizendo: “mineiro come letra, às vezes come meia palavra”. Concordei em pensamento.
Sendo filho de Minas, sou também amante da culinária mineira. Não resisto a um bom pão de queijo, a um “franguim” com quiabo acompanhado de angu e couve (apesar de eu preferir taioba à couve), uma broa no café, um torresmo feito na hora, um feijão tropeiro... e sim, também como muitas letras. E acho que de tanto comer letras, sílabas, tomei gosto pelas palavras. Hoje como palavras inteiras. Gosto de sentir o gosto de cada pedacinho. Não resisto a boas palavras.
Tenho me arriscado também a preparar alguns pratos ortográficos. Ainda estou experimentando temperos, errando o ponto às vezes (ora deixo um pouco cru, ora cozinho demais), testando fôrmas... enfim, divertindo-me na arte de cozinhar palavras. Mas paladar cada um tem o seu. Muitos com certeza vão preferir um bom pão de queijo a qualquer um de meus pratos. Estou pensando em me dedicar mais ao preparo de pães de queijo, para dar mais opções ao leitor.
Um amigo meu sempre diz que vir para Minas é sinônimo de engordar. Ele diz que se come demais por aqui e que é difícil resistir a tanta comida boa. Eu retruco: basta ter moderação! E nem toda comida daqui engorda. As letras, as palavras que comemos são recomendadas em qualquer quantidade. Talvez elas engordem a alma, mas, em se tratando de alma, quanto mais gorda, mais leve. E quanto mais leve, mais saudável!
Mas caso se exagere um pouco no feijão tropeiro, no frango com quiabo ou até mesmo numas palavras que não caíram bem, deixo aqui a dica: sempre haverá uma boa cachacinha para arrematar tudo! Saúde! (Beba com moderação)
Aviso: Pessoal, este é o último prato servido em 2011. Espero voltar a servir em nossa mesa na segunda quinzena de janeiro/2012. Já são aproximadamente 1 ano e meio de blog, com mais de 90 pratos servidos, por isso, para os que sentirem fome durante esse pequeno recesso, fica o lembrete: os pratos já servidos continuam à mesa, para serem degustados sempre. Desejo de coração à todos um feliz natal! E que venha 2012 com muita paz e poesia para todos nós! Grande abraço!!!
quinta-feira, 15 de dezembro de 2011
quarta-feira, 7 de dezembro de 2011
Nova Inconfidência
Poucos livros me carregaram tanto para o cenário, para o tempo da história que contavam, quanto o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles. Quando o lia, eu estava ali, um espectador angustiado nas mesmas ruas em que o Alferes passava. Provavelmente o fato de eu já ter visitado alguns daqueles lugares em que se deu a história contribuiu para que eu entrasse mais no clima.
Esse foi com certeza um daqueles livros em que quase não utilizamos os olhos para lê-los, mas sim a alma. Os olhos muitas vezes aprisionam a alma. Muitas vezes, a alma quer seguir sozinha. E saibam, bravos leitores, é chegado o tempo de uma nova Inconfidência: Oh almas! Oh almas leitoras! Liberdade, ainda que tarde!
“(...) Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja). (...)"
Esse foi com certeza um daqueles livros em que quase não utilizamos os olhos para lê-los, mas sim a alma. Os olhos muitas vezes aprisionam a alma. Muitas vezes, a alma quer seguir sozinha. E saibam, bravos leitores, é chegado o tempo de uma nova Inconfidência: Oh almas! Oh almas leitoras! Liberdade, ainda que tarde!
“(...) Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem,
acontece a Inconfidência.
E diz o Vigário ao Poeta:
"Escreva-me aquela letra
do versinho de Vergílio..."
E dá-lhe o papel e a pena.
E diz o Poeta ao Vigário,
com dramática prudência:
"Tenha meus dedos cortados
antes que tal verso escrevam..."
LIBERDADE, AINDA QUE TARDE,
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já está viva,
e sobe, na noite imensa.
E os seus tristes inventores
já são réus — pois se atreveram
a falar em Liberdade
(que ninguém sabe o que seja). (...)"
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Outras cozinhas (prosas poéticas)
Camus
"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."
Miguel de Unamuno
"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"
Victor Hugo
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."
"...Como imaginar, por exemplo, uma cidade sem pombos, sem árvores e sem jardins, onde não se encontra o rumor de asas, nem o sussurro de folhas. Em resumo: um lugar neutro. Apenas no céu se lê a mudança das estações. A primavera só se anuncia pela qualidade do ar ou pelas cestas de flores que os pequenos vendedores trazem dos subúrbios: é uma primavera que se vende nos mercados."
Miguel de Unamuno
"A neve havia coberto todos os cumes rochosos da alma... Estava esta, a alma, envolta num manto de imaculada brancura, de pureza total, mas debaixo dele a alma tiritava de frio. Porque a pureza é fria, muito fria! Assim como o pôr do sol, ao entardecer, as coisas não fazem sombra umas às outras, e como se abraçam e se tornam irmãs na santa unidade do crepúsculo e mais tarde na negrura unificadora da noite, assim também na brancura da neve. A brancura desta e a negrura da noite são dois mantos de união, de fusão, quase de irmanação. A nevada silenciosa estende um manto de brancura, de nivelação, de aplainamento. É como a alma da criança e do ancião, planas e silenciosas. Os grande silêncios da alma da criança! Os grandes silêncios da alma do ancião!"
Victor Hugo
"Inexprimível teto de tênebras; alta obscuridade sem mergulhador possível; luz mesclada à obscuridade, mas uma luz vencida e sombria; claridade reduzida a pó; é semente? É cinza? Milhões de fachos, claridade nula; vasta ignição que não diz o seu segredo, uma difusão de fogo em poeira que parece um bando de faíscas paradas, a desordem do turbilhão e a imobilidade do sepulcro, o problema oferecendo uma abertura de precipício, o enigma desvendando e escondendo a sua face, o infinito mascarado com a escuridão, eis a noite. Pesa no homem esta superposição."
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