quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Novo livro: O poeta e o pano



Pessoal, é com enorme alegria que compartilho com vocês meu novo livro: O poeta e pano. Sirvam-se à vontade! Um grande abraço a todos!!!

Clique aqui para baixar.

DUAS LUAS

No mesmo poema, o amor
e toda minha dor noturnal.
Disfarço de afago o punhal.
Disfarço de punhal a flor.
Pois há quem me queira mal!
E há quem me mate de amor!

Na noite do poeta existe
uma escuridão bifurcada,
duas luas minguadas,
e um pincel em riste.
Pois há venturas cantadas!
E há canções que são tristes!

Lanço aos céus minha sorte
e espero a sorte caída.
Ela cai como ave ferida
que perdeu o seu norte.
Pois há versos que faço pra vida!
E há versos que faço pra morte!

(Poema do livro O poeta e o pano)

domingo, 25 de setembro de 2011

Turismo

Como escreveu Fernando Pessoa, “há tão pouca gente que ame as paisagens que não existem”... Ah, os lugares que não existem!... eis aí aonde quero visitar. Antigamente sonhava em conhecer a Galícia, a Patagônia (e ainda quero), mas agora o que quero mesmo é conhecer todos esses lugares que não existem. E talvez eu encontre por lá todas aquelas coisas da “Enciclopédia das coisas que não existem”, sobre a qual menciona Rubem Alves em seu quarto de badulaques. Farei amigos que não existem, andarei por ruas que não existem, comerei em restaurantes que não existem (se possível, comida japonesa) e trarei comigo lembranças que não existem. E trarei também alguns livrinhos que não existem para substituir certos positivistas da minha estante. Porque me desculpem os mais céticos, mas “o que não existe” existe!

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Leilão

Em uma cidadezinha francesa, um pouco ao norte de Paris, um senhor muito rico colecionara pinturas de grandes artistas durante quase toda sua vida. Pressentindo que o dia de sua morte se aproximava, resolveu leiloá-las.
Na coleção daquele rico senhor, era possível encontrar os principais quadros de Rembrandt, Van Gogh, Picasso, Ensor, Kandinsky, Goya... Para a cerimônia, vieram pessoas do mundo inteiro, eufóricas pela possibilidade de arrematar uma daquelas obras. O lance inicial era de mil palavras (afinal uma imagem vale mais que mil palavras). Iniciou-se o leilão.
Logo na primeira peça, uma disputa acirrada. Políticos, padres, jornalistas, oradores, todos faziam ofertas astronômicas. Eram muitas as palavras. O dono dos quadros hesitava em dar a martelada. Até que no meio daquela gritaria de senhores distintos e bem vestidos, entrou um poeta maltrapilho que, sob o olhar inquisidor dos presentes, declarou: Compro todos!
Nesse mesmo instante, dispararam as gargalhadas e os comentários irônicos. O rico homem do martelo, ainda tentando conter o riso, bateu o objeto na mesa e pediu silêncio. Perguntou ele ao poeta:
- E o que o senhor tem a oferecer?
- Meu poema!
- E quantas palavras valem seu poema?
O poeta então caminhou até o rico senhor e murmurou-lhe algo ao ouvido. O senhor martelou a mesa e em seguida, bradou:
- Vendidos todos ao poeta!
Não era possível! As pessoas ali presentes não podiam acreditar. Perguntaram ao moribundo leiloeiro:
- Quantas palavras valem o poema dele?
- Muitas! Tantas, que comprou inclusive meu silêncio...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte II)

"Céu, 25 de agosto
de mil novecentos e
oitenta e sete. Senhores,
eu nesta oportunidade
quero desejar a todos
saúde e felicidade.

Tem a Constituição
dimensão nacional,
mas deve ser baseada
de modo primordial
no aperfeiçoamento
da justiça social.

Os senhores são tão lentos
que às vezes me desespero
porque perdem muito tempo
com conversa e lero lero
e custam muito a fazer
aquilo que tanto espero.

E deixem que Sarney leve
seu mandato até o fim,
pois ele é inofensivo
não é bom nem é ruim;
deixem-no puxar o saco
do seu colega Alfonsín.

Cidem com sabedoria
desta Constituição
mas não gastem tanto tempo
comento tanto feijão
por conta da miserável
da probe desta Nação.

Façam a Constituinte
com os espíritos serenos
sem atrapalhar os grandes
procurando, pelo menos
se não quiser ajudar,
não maltratar os pequenos.

Nós aqui no céu temos
compromisso com partidos,
queremos que os brasileiros
se mantenham sempre unidos
para que os objetivos
da Nação sejam atingidos.

Que os grandes rumos tomados
pela Constiuição
sejam dem direção dos pobres,
três quartos desta Nação;
não vejam eles somente
em tempo e eleição.

São os pobres que elegem
deputados, senadores
e é entre os camponeses
que estão os lavradores,
são portanto aqueles homens
que dão comida aos senhores.

São homens simples e bravos
humildes, mas que não somem
nas situações difíceis
dignificando o homem,
enquanto tanto produzem
os senhores só consomem

São os pobres que mantêm
a luz da esperança acesa,
sustentáculos, balaustres,
no ataque e na defesa,
são eles os verdadeiros
alunos da Natureza.

São eles que forma o grande
contigente eleitoral,
mais de oitenta porcento
numa votação geral,
importantes em qualquer
decisão nacional.

Tentem consertar um pouco
a máquina judiciária,
mas com latifundiários
de educação primária
antes do ano dois mil
não façam a reforma agrária.

Porque só serviria para
atiçar a ira acesa
dos donos do Brasil contra
camponeses sem defesa
contentes com uma pequena
fatia da Natureza.

Só pode a reforma agrária
ser idéia de algum santo
que tendo tudo nas mãos
achou, por encanto,
de dar para cada filho
um determinado tanto.

No país de São Maluf,
São Oreste, São Moreira,
São Brizola, São Delfim,
Saõ Bresser e São Gabeira
falar de reforma agrária
é deslavada besteira.

Eu falo para os senhores,
do céu, mas mineiramente,
fiz muito bem em morrer
antes de ser presidente,
e por favor, não me façam
voltar aí novamente.

Metam também outra coisa
na obtusa cachola:
dificilmente o Brasil
se livrará do Brizola;
com ele na presidência
o bandido deita e rola.

Livrem-se dos mares e
eu vos livrarei dos ares,
que pornografias entrem
em lanchonetes e bares
mas que as balas brizolinas
não penetrem em vossos lares.

Estas palavras, senhores
não trazem nem as mais leves
pretensões de acabar
com quebra-quebras e greves
são só alertas do velho
amigo Tancredo Neves".

(FIM)

É preciso levar em conta a época em que esse cordel foi escrito. Com certeza nem mesmo Tancredo em sua morada celeste podia prever um futuro tão lamentável na política brasileira, acho que alguns dos personagens não eram tão inofensivos como ele pensou...

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Outras Cozinhas (Cordel - Parte I)


Nesses tempos onde a cada dia somos “surpreendidos” por uma nova notícia de corrupção, um novo caso de total imoralidade e ausência de ética na política brasileira, recordei de um cordel que tenho aqui comigo, escrito em 1987 por Gonçalo Ferreira da Silva, e que gostaria de compartilhar em nossa mesa:

CARTA DE TANCREDO NEVES AOS CONSTITUINTES

(Gonçalo Ferreira da Silva)

Tancredo de Almeida Neves
no colégio eleitoral
venceu com facilidade
seu deslavado rival
mas morreu sem ostentar
a faixa presidencial.

Há línguas envenenadas
que dizem até hoje em dia
que a vice-presidência
Sarney quis porque sabia
que o velho das alterosas
brevemente morreria.

De fato foi tiro e queda,
o velhinho sucumbiu
depois de agonia suprema
que o povo também sentiu;
e Sarney como mandava
o figurino assumiu.

Muitas coisas, por Tancredo
já estavam programadas,
outras foram, pelo próprio
José Sarney inventadas
que se Tancredo vivesse
jamais seriam aprovadas.

Sem que Sarney percebesse
Tancredo ficou atento
no aconchego celeste
vendo todo movimento:
a criação do cruzado
que trouxe o congelamento.

E o descongelamento
matando o plano cruzado,
o longo tempo de inércia
que Sarney acomodado
queria, pelo bigode
ser do governo arrancado.

Tancredo dava muxoxos
de pura indignação,
mas estando entre os eleitos
na celestial mansão
veria o trabalho da
nova constituição.

O resto de paciência
que ainda tinha Tancredo
se colocasse num copo
talvez que não desse um dedo
com tanta burrice junta
ele esgotou logo cedo.

Fortuna gasta em papel
para inoperante estudo
que resulta num trabalho
de tão fraco conteúdo
que eles mesmos se mancam
depois vão repetir tudo.

Centenas de homens in-
pecavelmente vestidos
submetendo uns aos outros
rascunhos tão repetidos
que nos matam de vergonha
no momento em que são lidos.

Mas não entrando no cerne
do problema da Nação
não adianta mudança
de forma ou de redação
para consolidação
desta constituição.

Diante da lentidão
da nova constituinte
Tancredo aos constituintes
se fez de contribuinte
mandando-lhes uma carta
com a redação seguinte:

(Continua...)