quinta-feira, 31 de março de 2011

O encontro de Abraão com Zeus (Parte1 de 2)

Pessoal, gostaria de pôr à mesa um pequeno texto que escrevi em tom de brincadeira, imaginando como seria um possível encontro entre Abrãao, que pregou o monoteísmo do qual surgiu posteriormente o judaismo, o cristianismo e o islamismo, com o deus grego Zeus. Esse texto foi escrito nos últimos dois dias, na tentativa de aliviar um pouco a ansiedade para saber se meu computador voltaria à vida ou não. Felizmente ele está de volta e todos meus arquivos sobreviveram bravamente. Sirvo então a primeira parte do encontro, que será divido em dois. A segunda parte, sirvo na próxima semana. Grande abraço!

Certa noite, Abraão preparava-se para deitar e dormir tranqüilamente, após um longo dia de pregação do monoteísmo. Estava contente com seus próprios discursos, já pensava em outras áreas para abordar na pregação, tais como o monopólio das grandes empresas, monólogos russos e o hábito dos mono-carvoeiros. Já apagava a última vela de seu quarto quando um forte clarão iluminou toda sua casa, fazendo surgir em sua frente um alto senhor de barba branca.
- Meu senhor!...Deus?
- Sou deus, mas não o seu. Não esse aí que você anda pregando. Sou Zeus, o Senhor do Olimpo! (Cabuuum! Estourou um raio ao lado da casa)
- Acho que já ouvi falar do senhor. O senhor é lá das banda da Grécia, né? O que venho fazer aqui? Como posso ajudá-lo?
- Estou muito descontente com você Abraão. Aliás, estamos. Há outros vários deuses, uns mais poderosos, outros nem tanto, lá do Olimpo que estão furiosos com você, com o que você anda fazendo.
- Mas o que eu ando fazendo, meu Deus?
- Isso que acabou de fazer! Ficar falando por aí de um só Deus! Dizendo para o povo que só existe um Deus! Seu Deus!
- Mas não é verdade?
- Não! E nós deuses gregos? Por acaso somos só um? Não existimos?
- Que eu conheço até agora, só o senhor.
- Mas está enganado. Além de mim existe Posídon, Hera, Dionísio, Apolo, Atena e mais um tanto... sem mencionar os semideuses, esses eu já perdi a conta!
- Deve dar uma trabalheira cultuar tantos deuses... e haja bicho para tantos sacrifícios!
- E você não acha que vai dar uma trabalheira para Deus se todo mundo passar a fazer pedidos, orações, só para Ele?
- É, isso é verdade! Não tinha pensado por esse lado... mas o Deus que prego dá conta. É onisciente, onipresente e onipotente... só um minuto, senhor Zeus. Vou anotar aqui na pauta dos meus próximos discursos: “falar sobre o ornitorrinco”... pronto! Pode continuar!
- Pois bem... seu Deus pode ser isso, mas nós somos mais práticos, mais organizados... mais avançados. Já estamos no Taylorismo, divisão de tarefas. Cada um faz um pouco... Bem capaz do seu Deus utilizar só uma pessoa para construir uma arca se, por exemplo, houver um dilúvio.
- É... já ouvi falar de um caso parecido. Mas se Ele pede é porque o sujeito dá conta, até porque foi Ele quem criou tudo e todos. Ele conhece bem os funcionários que tem.

(continua...)

domingo, 27 de março de 2011

Interior

Mantendo o hábito do prato dominical, ponho à mesa mais um poema do "Pá Virada". Vale lembrar que, para os que ainda não conhecem, o livro está disponível para download aqui no blog. Bom apetite! E grande abraço!!!

(Em homenagem a Ervália - MG)

É tarde, após o almoço.
O sol ocupou todos os lugares da praça.
De quando em quando alguém passa,
num passo mais pra prosa que pra pressa.
E assim, o dia arremessa seu anzol
nas ruas da cidadezinha.
Uns beliscam, outros nem vêem a isca.
Eita calma! Ah preguiça...
O dia também vai se deitar à sombra....

quarta-feira, 23 de março de 2011

Pequena crônica de um prisioneiro

Certa vez, fui para o meu quarto e me enclausurei lá dentro a fim de passar toda a tarde lendo e escrevendo. Não queria barulhos, distrações, incômodos. O sol também não era bem-vindo, bastava-me a luz elétrica do meu pequeno abajur.
Tranquei a porta e fechei todas as janelas, nem mesmo uma pequena greta me passou despercebido. Certifiquei-me que não havia nenhuma mosca ao redor que pudesse, consequentemente, zumbir mais alto do que minha silenciosa leitura. Possivelmente eu era o único ser vivo naquele quarto. Estava como um animal enjaulado ou um desses prisioneiros confinados em uma inescapável masmorra. A diferença é que eu estava assim por vontade própria e, de certa forma, o mundo lá fora é que me parecia uma irremediável e caótica cela.
Pois bem, passado algumas horas, lia eu atentamente um antigo exemplar de “Entre quatro paredes” de Jean P. Sartre, que tive a felicidade de encontrar baratinho num sebo ao lado de minha casa, quando meu celular tocou. Ah, o maldito celular! Como pude esquecer de desligá-lo?! Naquele momento então, tive a nítida impressão de que eu havia cavado acidentalmente, na minha estreita e retangular liberdade, um buraco para minha prisão.

domingo, 20 de março de 2011

Conversa Fiada

Ponho à mesa, mais um poema do livro "Pá virada". Bom apetite!

O poema se sentia por cima,
Estava todo prosa:
Não preciso de rimas,
Bastam-me as rosas!

O texto não encontrava pretexto
Para por fim na conversa:
Chega de rimas e rosas,
Basta-me a reza!

A oração quis saber que horas eram
E fez logo um resumo:
Chega de rimas, rosas e rezas,
Cada um toma seu rumo!

E o conto no seu canto,
Ao ouvir aquele aviso,
Também tomou seu rumo
Em meio a rimas, rosas, rezas e risos...

quinta-feira, 17 de março de 2011

Rubem Alves

Olá pessoal. Estou passando aqui para informar que, no dia 23 de março, o escritor Rubem Alves estará em Belo Horiozonte-MG. Ele é o convidado do "Sempre um Papo" para debate e lançamento de seu livro "Variações Sobre o Prazer" (Ed. Planeta). O debate ocorrerá, como já foi dito, no dia 23 de março, às 19:30, no Grande Teatro do Palácio das Artes. Vale a pena conferir!
Grande abraço!

quarta-feira, 16 de março de 2011

Festa Brasileira (Parte IV)

Então veio dona Isabel,
Numa ginga bem brasileira,
E assinou um papel
Para o povo dançar capoeira.
Formou-se uma grande roda
Para todo mundo dançar,
Mas uns queriam a moda:
“A viola não pode parar!”
Foi quando um sujeito alterado
Gritou, já com as pernas bambas:
“Aqui está tudo errado,
O negócio é fazer samba!”
E já com a cuíca na mão,
Mandou improvisar o batuque.
Era para ser no latão,
Mas saiu tapa, murro e chute.
E o Brasil foi se construindo
De viola, berimbau e cuíca.
E a festa sempre seguindo...
Se pára, não tem um que fica!

(Fim)

(... mas a festa continua)

quinta-feira, 10 de março de 2011

Urbanização

Em Belo Horizonte, ao anoitecer, é possível ouvir o peculiar canto das cigarras nos mais diferentes pontos da cidade. E dependendo do local, com um ouvido mais atento, pode-se ouvir outros tantos seres noturnos como os morcegos, as corujas, os relógios de ponteiro... e os grilos? Para onde foram os grilos? Creio que esses estão naturalmente desaparecendo dos ambientes urbanos. É a ordem natural das coisas, a evolução: os grilos já não podem contra os alarmes de carro.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Aperitivos

Ponho à mesa trechos do meu segundo livro, "Monólogo de uma vida - a trágica rapsódia de uma platéia sem assento". Para os que já conhecem, fica aí uma recordação. Para os que não conhecem, fica aí um gostinho, um convite para conhecer o livro inteiro.

...
A platéia nomeia o ator:
- É menino!
- Não, é menina!
- É João!
- É José!
- É Marina!...
- Vai ser alguém?!

A vida é no ventre!
Que entre o ator,
Com seus atos e sua dor, sua mórula de sonhos!
O mundo está à espreita,
O coração ainda rejeita apanhar,
Então bate!!!
Bate acelerado, o olhar ainda é invertebrado, desconfia de todos e de tudo.
Mas um dia estará estagnado, para baixo...
Um dia o olhar estará mudo...

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João segue o roteiro normalmente. Ele está começando a gostar de sua própria atuação, mas algo chama sua atenção: um buraco. Sim, há um imenso buraco no palco.

Há um imenso buraco no palco.
Um buraco do tamanho do mundo.
O buraco parece tão fundo,
Faz o céu parecer tão alto.

Há um imenso buraco no mundo.
Um buraco do tamanho do palco.
O buraco parece tão alto,
Faz o céu parecer tão fundo.

Há um imenso buraco no céu.
Um buraco bem lá no alto.
O mundo parece um palco,
Cada qual no seu papel.

Sempre haverá o vazio.
No alto, no fundo, do lado.
Sempre haverá o buraco,
O vão a ser preenchido.

Até então, o buraco não era um problema. Mas aos poucos, pequenos e brancos ratinhos começam a entrar e sair dali. João, apreensivo, continua encenando. Ele não sabe qual será a reação da platéia ao ver os ratos...

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A peça continua normalmente, num ritmo sonolento e constante. Sem sal, sem açúcar. Platéia e ator conformados. Uma máquina perfeita. O ator fala, a platéia se cala. Café-com-pão, biscoito-não. Uma atmosfera mecânica. Estímulo e resposta. Uma peça de peças encaixadas. Até o silêncio se encaixa. Monotonia. Sem surpresas, sem improviso. Isso é igual a isso. Sem enguiço. Sempre adiante. Ontem, hoje e antes. Nada além. Dia-a-dia. Sem noites, sem sonhos. Sem poesia!

Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac…