segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Colocando a prosa em dia...

Faz tempo que não sirvo algo aqui em nossa mesa! O blog já não é atualizado há mais de um mês! Desde já peço desculpa por tamanha ausência, mas para dar sinal de vida (e poesia) aos que por aqui têm passado em busca de algum prato novo, relato aqui um pouco de como andam minhas relações com o mundo das palavras.

Nos último dias tenho me aventurado um pouco pelo mundo dos contos. Estou tentando dar meus primeiros passos na criação de obras do gênero. Esses passos têm sido mais lentos e mais árduos do que a princípio eu imaginava, mas não têm deixado de ser prazerosos. Espero que num futuro próximo eu possa compartilhar algo aqui em nossa mesa.

No momento estou também desfrutando da leitura do maravilhoso livro de Octávio Paz, O arco e a lira. Gostaria de deixar aqui como dica de leitura esse que é, sem dúvida, um dos melhores ensaios sobre poética já escritos. Não arrisco-me no momento a fazer muitos comentários sobre a obra, visto que ainda não finalizei a leitura e estou em momento de completo deslumbramento pelo livro. Mas sirvo um pequeno trecho da Introdução, como aperitivo:



A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Ideia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!


Por fim, não posso deixar de homenagear e relatar aqui minha tristeza pela morte daquele que foi com toda certeza um dos maiores poetas que essa pátria já viu: Manoel de Barros. E para homenagear um poeta de tal grandeza, talvez somente seus próprios versos lhe façam jus. 


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Obrigado, Manoel!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Liberdade e Poesia


"Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito." (Victor Hugo)

Tive o prazer de iniciar há algumas semanas, na companhia de dois caríssimos amigos, um estudo da vida e obra do poeta e santo espanhol, São João da Cruz. Foi apenas o início, mas já pudemos perceber que trata-se de uma obra lindíssima. Porém um fato em especial me chamou a atenção na biografia desse santo carmelita: São João da Cruz escreveu parte de sua obra, de seus mais belos poemas, enquanto estava preso. Perseguido por suas ideias, ele foi aprisionado em uma cela extremamente pequena, onde mal cabia seu corpo e onde ficou por meses. Em um ambiente quase sem luz, difícil até mesmo para se mover, São João da Cruz escreveu belos poemas! Considerado um santo contemplativo, quase um místico, a obra do poeta carmelita aponta para um caminho de meditação, de contemplação do espírito. E talvez isso explique o fato do santo ter conseguido, apesar do cárcere, manter seu espírito livre e criativo.

Entretanto, o que eu gostaria de destacar no momento é como a história literária está repleta de exemplos de grandes autores, que apesar da experiência do cárcere, conseguiram manter-se criativos, pensantes e conseguiram, de alguma maneira, manter vivas suas liberdades. Tomás Antônio Gonzaga, Dostoievski e Cervantes são apenas alguns exemplos de escritores que fizeram da experiência do cárcere o primeiro bater de asas de muitas e muitas palavras, versos e histórias. Talvez poucos tenham passado com tamanha serenidade (e por uma experiência tão hostil) como São João de Cruz. Mas assim como o santo, esses grandes autores merecem todo reconhecimento e admiração por suas obras, por toda persistência em manter vivo o espírito criativo. Mantiveram viva a certeza de que a poesia e a literatura em geral sempre voarão de mãos dadas com a liberdade, seja em longos campos verdes e floridos ou entre quatro paredes!

Gostaria de encerrar esse breve comentário com um dos poemas mais famosos de São João da Cruz, Noite Escura:

Noite escura (São João da Cruz)

Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamadas,
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.

Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada!
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava,

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Parábola do Inverno



Parábola do Inverno

Fazia-se uma fogueira
Para ouvir estalinhos.
E o fogo nascia
Madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.
...
O inverno
Fazia um calor de abraço.
...
Na roça
Tinha bicho-que-queima,
Bicho-que-acende-e-apaga,
Bicho-que-brilha,
Bicho-que-sai-à-noite
E faíscas vira-latas.
...
As velas gostavam de iluminar gente,
De brincar com dedos,
De derreter o escuro bem devagarinho.
...
O frio deixava o fogo
Cada vez mais madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.

                   (Do livro Parábolas de Quintal - Denis Mattos)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Suassuna

Lápide

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.
Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.
Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido
que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

                                                      Ariano Suassuna (16/06/1927 - 23/07/2014)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Rubem Alves 15/09/1933 - 19/07/21014


"A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia, que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe. A madrugada é alegre, luzes e cores que chega. O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão. Madrugada e crepúsculo, alegria e tristeza, chegada e despedida: tudo é parte da vida, tudo precisa ser cuidado. A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada de quem a gente ama. É preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama. Noite e dia, silêncio e música, repouso e movimento, risco e choro, calor e frio, sol e chuva, abraço e separação, chegada e partida: são os opostos pulsantes que dão vida à vida. Chegada e despedida, vida e morte - não são inimigas, são irmãs... Uma canção não existiria sem a palavra que a encerra. Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma permanente despedida."

                                                                                                                          (Rubem Alves)

Obrigado por tudo, Rubem!

quarta-feira, 25 de junho de 2014

Outras Cozinhas (José, Fernando e Gaspara)

Os justos (José Tolentino Mendonça)

Começam o dia louvando o imperfeito:
O tempo que se inclina para o lado partido
as escassas laranjas que se tornam
amarelas no meio da palha
as talhas sem vinho

Olham por dentro a brancura da manhã
e em tudo quanto auxilia um homem no seu ofício
louvam o vulnerável e o inacabado

Estão sentados à soleira dos espaços
trabalhados devagar pelo silêncio

Quando Deus voltar
não terá de arrombar todas as portas


Durmo. Se sonho, ao despertar não sei (Fernando Pessoa)

Durmo. Se sonho, ao despertar não sei
Que coisas eu sonhei.
Durmo. Se durmo sem sonhar, desperto
Para um espaço aberto
Que não conheço, pois que despertei
Para o que inda não sei.
Melhor é nem sonhar nem não sonhar
E nunca despertar.


Soneto de amor (Gaspara Stampa) - Tradução de Ivo Barroso

Se quereis conhecer o meu senhor,
Suponde alguém de vago e doce aspecto,
Jovem na idade e velho no intelecto,
A imagem do triunfo e do valor;

Claro o cabelo e a tez de viva cor,
De boa altura e de garboso peito,
Em tudo quanto faz um ser perfeito,
Só que um pouco (ai de mim!) cruel no amor.

E se quiserdes conhecer meu porte,
Vede alguém que nos gestos e semblante
É a imagem dos martírios e da morte;

Fortaleza da fé, pura e constante,
Alguém que embora sofra, arda e suporte,
Não faz piedoso ao seu cruel amante.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Adivinhações

Relembrando mais um prato...

Adivinhações

São sempre agradáveis esses momentos da tarde em que posso ficar na janela olhando sem preocupações a rua, as pessoas, a vida se desdobrando. Agora, por exemplo, estou no meu divertido jogo de adivinhações de nomes. Fico reparando as pessoas que passam e tentando adivinhar, de acordo com as características de cada um, seus possíveis nomes. Pode-se dizer que é muito mais uma brincadeira de nomear as pessoas do que propriamente adivinhar como se chamam, até porque nunca fico sabendo a resposta certa.

Pois bem, aquela senhora que vai passando com duas crianças do lado deve se chamar Maria. Essa foi fácil! Tem os traços fortes, um semblante um tanto quanto fatigado e caminha mantendo aquele ar de concentração nos futuros afazeres. Mas acho que é mais pelo seu aspecto de mãe protetora que lhe dou esse nome. Não sei se as duas crianças são seus filhos, mas ela com certeza os protege como mãe. E quanto aos nomes das crianças, para não passar em branco, arrisco Zezinho e Mariazinha. É que não posso perder tempo, pois logo ali já vem um senhor muito bem vestido que parece ignorar o calor que está fazendo. Prima pela elegância ante o rigor do sol. Mas toda sua elegância no vestir contrasta com seu olhar cabisbaixo e seu passo lento. Na verdade sua figura inteira, elegante e cabisbaixa, parece contrastar com o mundo todo a sua volta. Eu diria que é um ser solitário. E talvez, por rima oportuna, eu o chamaria de Olegário.

A rua hoje está menos movimentada do que o costume. Porém, uma nova figura já surge chamando atenção. Vem calado, ligeiro, como se quisesse passar despercebido, mas seu tipo físico, sua altura não permite. O rapaz deve ter uns dois metros. E não tenho dúvida, esse é o Pedrão ou Pê-boi, para os amigos. Dar ares de ter saído diretamente do livro de Guimarães Rosa, dos recantos áridos do interior para a aridez sem encanto da cidade grande. Pê-boi!

Aquela dali eu conheço bem! Nem preciso adivinhar, é a dona Olga! Minha vizinha mais simpática e espirituosa! Deve estar voltando da Igreja como faz quase todas as tardes. Com toda vitalidade dos seus oitenta e poucos anos, não deixa de ir um dia sequer à igreja, faça chuva ou faça sol. Mas infelizmente sua memória anda fraca, cada vez pior. Entristece-me imensamente quando a vejo chegar acompanhada de algum desconhecido que a encontrou perdida, esquecida de onde mora. Ela já não lembra o nome das ruas, tem dificuldade para reconhecer as pessoas. Dona Olga sempre esquece meu nome, embora não deixe nunca de ser afetuosa e simpática. É uma pena, de cortar o coração! A seus olhos a vida vai se tornando, aos poucos, um constante e doloroso jogo de adivinhações.

(Do livro "Argumentos para amar as nuvens")