segunda-feira, 23 de março de 2015

Outras Cozinhas (Adília Lopes)


Hoje visito a cozinha da poetisa portuguesa Adília Lopes. Para quem gostar dos três poemas servidos agora em nossa mesa e quiser saborear um pouco mais, deixo aqui de sugestão o livro "Adília Lopes - Antologia", de onde os três pratos a seguir foram tirados. Grande abraço! 

As rosas com bolores 

Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou pacientedeixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
e preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre da minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me


Natura et Ars 

Uma floresta é um labirinto?
um deserto pode ser rocaille?
a vida é um romance?
o mundo é um palco?
um florete é uma flor?
uma serpentina é uma serpente?

Imagino o fim da Terra assim
todas as casas e todas as ruas
desaparecem
assim como todas as pessoas
graças a um cataclismo
sobrevivem apenas os telefones
as baratas e as listas dos telefones
marcianos nos dias a seguir
tentam interpretar a lista dos telefones
os marcianos não estabelecem uma relação
entre os telefones e a lista dos telefones
mas entre a lista dos telefones e as baratas
e essa relação é plenamente satisfatória


VII (Poema de O POETA DE PONDICHÉRY)

Tenho as gavetas cheias de papéis escritos
poemas e cartas que não cheguei a mandar a Diderot
os poemas escrevi-os num papel barato
não sou capaz de escrever um poema num leque
depois do que Diderot me disse
se quer ouvir dizer que os seus poemas são bons
procure outra pessoa
há sempre quem diga de um poema
que ele é bom
para a seguir lhe mostrar um poema
e ouvir dizer que ele é bom
conhece a expressão do ut des?
em espanhol também há uma expressão para isso
mas agora não me lembro
não mostrei os poemas a outra pessoa
nem eu próprio os leio
porque tenho medo
as cartas estão fechadas e têm selo
escrevi-as num papel nem muito caro nem muito barato
para não constranger Diderot
nunca escrevi cartas de amor
mas costumo pensar que escrevi cartas ridículas
e por ter a mania de pôr o carro à frente dos bois
acho que todas as cartas ridículas são cartas de amor
espero que estes poemas e estas cartas
que não sei porquê guardo
não vão parar a uma vitrine
espero que vão parar às mãos dos trapeiros
porque os trapeiros não são curiosos
já vi um trapeiro acabar de roer um caroço de pêro
sem pensar nos dentes e nos beiços que tinham
roído o que faltava

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Outras Cozinhas (Poetas Eslavos)

 Hoje faço uma visitinha em cozinhas de países de línguas eslavas. E aproveito para deixar aqui de sugestão o livro Céu Vazio - 63 poetas eslavos. Vale a pena conferir! Bom apetite!

O cavalo e a nuvem (Mikhaíl Rêndjov - Macedônia)

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
relinchando à noite arrancando as flores
anunciou tempestades e ataques
lançou enxames sobre as estrelas

E retornou à sua nuvem

Veio com um ladrão subterrâneo a galope
trazendo desconhecidos exércitos encouraçados
pisoteou as almas com os cascos de bronze
anunciou mortes e secas

E retornou à sua nuvem

Por fim rebelou-me os olhos dentro das órbitas
fez-me ranger os ossos
atiçou gralhas sobre os corvos
ensanguentou trombetas e tambores

E retornou à sua nuvem


Trabalho manual (Míriana Bôjin - Sérvia)

O universo é um pulôver
tecido a mão
com lã fantasmagórica.
Teceu-o,
certa feita,
mãe
viúva
de mãos nuas,
sob o gelo do dilúvio,
quando éramos pobres
como as estrelas,
os cães errantes
e os miseráveis
que não se entendem.


O homem e a porta (Vera Tchéikosvska - Macedônia)

Quando o homem
Fecha a porta
Fecha
Rápido e duro
Deixa
Atrás
Daquele corpo
De vidro
De madeira
De ferro
Inúmeros
Reflexos
Imagens
Palavras
Naturezas-mortas
Recordações vivas
Quando a porta
Se fecha sozinhas
Fecha-se
Por uma eternidade
Deixa
Atrás daquele
Corpo transparente
Um espaço morto

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Outras Cozinhas (Albano, João Cabral e Ribeiro Couto)

Seguindo a linha do último prato servido no blog, gostaria de aproveitar esse "Outras Cozinhas" para deixar mais uma sugestão de livro. Trata-se do Apresentação da poesia brasileira, de Manuel Bandeira, que conta com grande riqueza de informações uma grande parte da história da poesia brasileira e de seus respectivos poetas. O livro, logicamente, traz uma série de poemas devidamente organizados para exemplificar um pouquinho dessa história. Para os que se interessarem, fica aí a dica.

Aproveito também a oportunidade para desejar a todos um feliz 2015, com muita Poesia! Grande abraço!


Há no meu peito uma porta (José de Abreu Albano)

Há no meu peito uma porta
a bater continuamente;
dentro a esperança jaz morta
e o coração jaz doente.
Em toda parte onde eu ando,
ouço este ruído infindo:
são as tristezas entrando
e as alegrias saindo.


O cão sem plumas (João Cabral de Melo Neto) 

(fragmento) II - Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

 
Elegia (Ribeiro Couto)

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...