sábado, 16 de março de 2013

Outras cozinhas (Cozinha Inglesa)



À Júlia chorando (Thomas Moore)

Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.
 
Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais. 


LXXI (William Shakespeare)

Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis. 

Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Que ser lembrado e te causar o pranto. 

Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa 

Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.


O Tigre (William Blake) 

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?

Em que abismos ou que céus
O fogo há dos olhos teus?
Em que asa se inspira a trama
Da mão que te deu tal chama?

Que artes ou forças tamanhas
Entrançaram-te as entranhas?
E ao bater teu coração,
Pés de horror? de horror a mão?

Que malho foi? que limalha?
De teu cérebro a fornalha?
Qual bigorna? que tenazes
No terror mortal que trazes?

Quando os astros dispararam
Seus raios e os céus choraram,
Riu-se ao ver sua obra quem
Fez a ovelha e a ti também?

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?


Traduções: À Júlia chorando - Ary Mesquito; Soneto LXXI e O Tigre - Ivo Barroso.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Biografias

Por coincidência ou força maior do destino, chegou às minhas mãos um livro com a biografia de Stendhal, ao mesmo tempo em que estou a ler seu clássico “O vermelho e o negro”. Ainda não comecei a ler sua biografia. Espero que sua história de vida seja tão interessante quanto sua obra. E com certeza será! Toda vida é interessante! Toda forma de vida merecia sua biografia, é digna de ser contada. Não só os seres humanos, mas todo ser vivo.

Foi pensando nisso que resolvi começar a trabalhar na biografia de um pequeno girassol. Até agora tem sido um trabalho mais apreciativo do que investigativo. E estou gostando tanto que penso me especializar em biografias... De girassóis e vaga-lumes.

sábado, 2 de março de 2013

O nosso amor visto de perto

 (Para Luja)

Quem vê o nosso amor assim de longe
talvez o ache um amor até comum,
não enxerga esse vulcão que a gente esconde
e quem sabe, ao ver nós dois, ache que é um?

Mas quem vê o nosso amor assim de perto
se admira, esfrega os olhos e se espanta.
Olha de novo para saber se enxergou certo.
Por fim, abre um sorriso e se encanta.

Quem vê o nosso amor assim de perto
consegue ver esse vulcão em nossos peitos
e que explosões não nos fazem mal algum.

E bem pertinho, com os olhos bem abertos,
tem a certeza de que enxergou direito
e se convence de que nós dois somos só um.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha francesa)



As duas mães (Josephin Soulary)

Numa igreja se encontraram
Duas mães, em certo dia;
Uma entrava, e nesse instante,
Toda cheia de alegria,
Orgulhosa e triunfante,
Levava, chegando ao peito,
Um filhinho a baptizar.
Outra, a infeliz que saía,
Levava um filho também...
Oh! mas essa pobre mãe
Levava um filho a enterrar!
 
Cruzararam-se, a poucos passos,
A que trazia nos braços,
Cheio de vida e conforto,
O filho dos seus encantos,
E a triste, lavada em prantos,
Que seguia o filho morto!
 
Trocaram ambas o olhar...
Nisto a mãe afortunada
Foi a que rompeu a chorar;
Enquanto a desventurada
Que o filho tinha perdido,
-Oh maravilhas do amor!-
No meio da sua dor
Sorriu ao recém-nascido!


Poesia XXXI (Victor Hugo)

A campa dizia à rosa:
Que fazes tu, flor viçosa,
Do orvalho da madrugada?
E a rosa diz docemente:
Que fazes de tanta gente
Que jaz em ti sepultada?

Do orvalho que em mim ressume
Eu faço um suave perfume,
A flor falou com vaidade;
Eu faço, a campa falou,
Do corpo que me chegou
Um anjo na imensidade.


Maio (François Coppée)

Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.
 
A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.
 
Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes
Ouço os insectos de Maio.

Do sol ao rútilo beijo
Cerro os lábios, desgostoso,
E só, do lilás desejo
O húmido ramo cheiroso;
 
Pois em meio às suas dores,
Do lilás, minh'alma em ânsia,
Vê teus olhares — nas flores,
Teu hálito — na fragrância.


Traduções: As duas mães - Bulhão Pato; Poesia XXXI - Ary de Mesquita; Maio - Raimundo Corrêa

sábado, 16 de fevereiro de 2013

As flores do Sr. Alceu


Senhor Alceu era um antigo vendedor de flores de uma cidade (no momento foge-me o nome, “algum santo do não-sei-o-que”) do interior mineiro. Sua loja era bem pequena, de paredes e mesas velhas, mas bastante colorida pelas flores. Flores de todos os tipos. Ali sim se podia dizer, como Camus, que a “primavera era vendida nos mercados”, ou melhor, na lojinha do senhor Alceu.

A loja estava sempre repleta de visitantes, e não digo “clientes” porque o termo parece-me inadequado, pois muitos entravam na loja apenas para admirar as cores, sentir os perfumes, ter um recanto de paz. Todos ali admiravam também o senhor Alceu e sua paixão pelas flores. Muitas vezes ao entrar na loja podia-se ouvir aquele velho florista falando com elas. O senhor Alceu acreditava que as flores podiam ouvir como qualquer criatura e que, se ouvissem coisas bonitas, cresceriam com mais vigor, com mais beleza. Por isso todos os dias o velho Alceu, quando abria a loja, ia de flor em flor, de espécie em espécie, fazendo exclamações, declamando versos para suas amadas e coloridas flores. Eis aqui alguns de seus versos:

Violetas: Nosso elo perdido com as borboletas!

Begônias: Peca quem vos olha e não sonha!

Margaridas: Bem-vos-quero, bem-vos-quero, toda vida!

Bromélias: Vós sois o mais fiel retrato de Ofélia!

Hortênsias: O equilíbrio entre o infinito e a decência!

Gardênias: Para vós que as abelhas pedem vênia!

Açucenas: Só vós curais a minha angústia e minhas penas!

Dálias: Na terra sois flores! No céu, medalhas!

Jacintos: Só vós sabeis o que sinto!

Jasmim: Vós sois as damas mais perfumadas do jardim!

Tulipas: Que mistério vosso perfume antecipa?

Magnólias: Do céu ao Paraíso vai a chuva que vos molha!

Lírios: Vós regais de cores os meus delírios!

Lavandas: Em vossos campos todos voam, ninguém anda!

Amores-perfeitos: Florescei, por favor, florescei no meu peito!

Rosas: Para vós, somente para vós, eu daria outras mil rosas!


*Imagem: Dália

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Carnaval

Pessoal, gostaria de desejar a todos um ótimo carnaval. Brinquem, descansem, aproveitem da melhor forma essa festa que exalta o poder da fantasia, do brincar!
E, como prato do dia, sirvo novamente em nossa mesa o Poeminha de Carnaval:

Poeminha de Carnaval (repostagem)

Minha alma tem fantasias
para mais de mil carnavais.
Mas neste eu vou de alegria
e, se eu gostar, uso mais.

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Outras cozinhas (Cozinha alemã)




LIED LV (Heine)

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que havias morrido,
E ao despertar, comovido,
Descendo, as lágrimas acho
Pelo rosto abaixo.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que não me querias,
E ao despertar, de agonias
Louco, chorei, de repente,
Soluçantemente.

Eu chorei durante o sonho.

Sonhei que me amavas, quando,
De golpe, acordei chorando,
Chorando muito tristonho,
Porque fora um sonho...


A canção do rei de Tule (Goethe)

Era uma vez um bom rei
Em Tule - essa ilha distante,
Ao morrer, deixou-lhe a amante
Um copo de ouro de lei.

Era um copo de ouro fino
Todo lavrado a primor;
Se fosse o cálix divino
Não lhe tinha mais amor.

Seus tristes olhos leais
Não tinham outra alegria:
E só por ele bebia
Nos seus banquetes reais.

Chegada a hora da morte
Pôs-se o rei a meditar
Grandezas da sua sorte,
Seus reinos à beira-mar.

Deixava um rico tesouro,
Palácios, vilas, cidades;
De nada tinha saudades,
A não ser do copo de ouro.

No castelo da devesa,
Naquelas salas sem fim,
Mandou armar uma mesa
Para o último festim.

Convidou sem mais tardar
Os seus fiéis cavaleiros,
Para os brindes derradeiros
No castelo à beira-mar.

Então, vazando-a de um trago,
E com entranhada mágoa,
Pôs nas ondas o olhar vago
E atirou a taça à água.

Viu-a boiar suspendida,
'Té que as ondas a levaram
Os olhos se lhe toldaram,
E não bebeu mais na vida!


O segredo revelado
(Chamisso)

Nós de noite nos beijámos,
E ninguém nos espreitara;
Só no céu astros luziam,
Quem neles não se fiara.

Mas caiu formosa estrela
E ao mar nos acusou,
Foi dizê-lo o mar ao leme,
Ao piloto este o contou.

O piloto logo em terra
Foi contá-lo à sua amiga;
Já não há rapaz na rua
Que não cante essa cantiga.