A função da arte - 1
Diego não conhecia o mar. O pai,
Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul.
Ele, o mar, estava do outro lado
das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim
alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na
frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o
menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu
falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
- ‘Me ajuda a olhar!’
Celebração da voz humana - 1
Os índios Shuar, chamados de
Jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba,
encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido
não está totalmente vencido até que fechem sua boca. Por isso os índios
costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais.
O crime perfeito
Em Londres, é assim: os
aquecedores devolvem calor a troco das moedas que recebem. Em pleno inverno
alguns exilados latino-americanos britavam de frio, sem nenhuma moeda para
fazer funcionar a calefação de seu quarto.
Estavam com os olhos grudados no
aquecedor, sem piscar. Pareciam devotos perante o totem, em atitude de
adoração; mas eram uns pobres náufragos meditando sobre a maneira de acabar com
o Império Britânico. Se pusessem moedas de lata ou papelão, o aquecedor
funcionaria, mas o arrecadador encontraria as provas da infâmia.
O que fazer? Se perguntavam os exilados.
O frio os fazia tremer como se estivessem com malária. E nisso, um deles lançou
um grito selvagem, que sacudiu os alicerces da civilização ocidental. E assim
nasceu a moeda de gelo, inventada por um pobre homem gelado.
Imediatamente, puseram mãos a
obra. Fizeram moldes de cera, que reproduziam perfeitamente as moedas
britânicas; depois encheram os moldes de água e os meteram no congelador.
As moedas de gelo não deixavam
pistas, porque o calor as evaporava.
E assim aquele apartamento de
Londres converteu-se numa praia do mar Caribe.

