segunda-feira, 18 de julho de 2016

Outras Cozinhas - Eduardo Galeano

Hoje o Outras Cozinhas faz uma visita aos escritos do jornalista e escritor Eduardo Galeano, mais especificamente ao seu belo "O livro dos abraços". Sem tecer muitos comentários sobre o livro, ressalto apenas que é uma daquelas obras de rara sensibilidade e que vale a pena ser lida e relida algumas vezes. Deixo aqui a sugestão!

A função da arte - 1

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.

Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- ‘Me ajuda a olhar!’


Celebração da voz humana - 1

Os índios Shuar, chamados de Jíbaros, cortam a cabeça do vencido. Cortam e reduzem, até que caiba, encolhida, na mão do vencedor, para que o vencido não ressuscite. Mas o vencido não está totalmente vencido até que fechem sua boca. Por isso os índios costuram seus lábios com uma fibra que não apodrece jamais.


O crime perfeito

Em Londres, é assim: os aquecedores devolvem calor a troco das moedas que recebem. Em pleno inverno alguns exilados latino-americanos britavam de frio, sem nenhuma moeda para fazer funcionar a calefação de seu quarto.

Estavam com os olhos grudados no aquecedor, sem piscar. Pareciam devotos perante o totem, em atitude de adoração; mas eram uns pobres náufragos meditando sobre a maneira de acabar com o Império Britânico. Se pusessem moedas de lata ou papelão, o aquecedor funcionaria, mas o arrecadador encontraria as provas da infâmia.

O que fazer? Se perguntavam os exilados. O frio os fazia tremer como se estivessem com malária. E nisso, um deles lançou um grito selvagem, que sacudiu os alicerces da civilização ocidental. E assim nasceu a moeda de gelo, inventada por um pobre homem gelado.

Imediatamente, puseram mãos a obra. Fizeram moldes de cera, que reproduziam perfeitamente as moedas britânicas; depois encheram os moldes de água e os meteram no congelador.

As moedas de gelo não deixavam pistas, porque o calor as evaporava.

E assim aquele apartamento de Londres converteu-se numa praia do mar Caribe.

terça-feira, 12 de julho de 2016

Um dicionário que vale a pena...

Em 2010, publicando meus primeiros versos, escrevi um poema um tanto quanto revoltado com os dicionários. Na ocasião, comparei o dicionário a uma prisão, a um livro que assassinava as palavras. De lá pra cá, creio não ter mudado minhas considerações a respeito. Mas nesse período tive a oportunidade de conhecer um dicionário um pouco diferente, que ao invés de aprisionar e matar as palavras, dava-lhes vida e liberdade...

Acredito piamente que o ninho da poesia é a infância. Sendo assim, um dicionário que nascesse das bocas das crianças talvez permitisse que as palavras continuassem vivas, livres para serem lidas em versos, em canções ou em pensamentos silenciosos - que continuassem sendo palavras! E talvez almejando tal façanha, foi que Javier Naranjo idealizou e organizou o Casa das estrelas - O universo contado pelas crianças. Um trabalho incrível e encantador - um dicionário poético, onde cada verbete foi colhido atenciosamente junto a várias crianças de variadas idades e vivências. Desde que conheci o livro, este tem sido meu único e inseparável dicionário. Um dicionário que vale a pena... para não dizer vital.
“Em lábios de crianças, loucos, sábios apaixonados ou solitários, brotam imagens, jogos de palavras, expressões surgidas do nada… Feitas de matéria inflamáveis, as palavras se incendeiam assim que as roçam a imaginação ou a fantasia”– Octavio Paz

Abaixo, transcrevo alguns dos verbetes:

Água: transparência que se pode tomar (Tatiana Ramírez, 7 anos)

Amor: o que cada coração reúne para dar a alguém. (Lina María Murillo, 10 anos)

Casal: é onde os pássaros se metem. (Diejo Alejandro Tabares, 8 anos)

Deus: é o amor com cabelos grande e poderes (Ana Milena Hurtado, 5 anos)

Espírito: é uma nuvem que cai do céu, e que chega e brinca com um carrinho. (David Hidalgo Ramírez, 6 anos)

Igreja: onde as pessoas vão perdoar Deus. (Natália Bueno, 7 anos).

Mistério: quando minha mamãe sai e não me diz pra onde (Glória María Hidalgo, 10 anos)

Palavra: onde as pombas se escondem (León Afonso Pava, 11 anos)

Pessoa: é uma coisa sentimental. (Lina Marcela Sanchéz, 7 anos)

Violência: se fizerem violência no país, eu vou embora. (Yeny Andrea Rodríguez, 8 anos)