domingo, 1 de junho de 2014

Despertar

Continuando a comemoração de 4 anos do blog, sirvo novamente o prato "Despertar" (retirado do livro "Argumentos para amar as nuvens"). Bom apetite!

Despertar

Eram cinco e meia da manhã e um pequeno aglomerado de senhoras já se formava em frente à entrada da igreja. Começavam a demonstrar sinais de impaciência. Por que seu Zé do Rosário ainda não havia aberto as portas da igrejinha? Será que se esquecera de que hoje era dia do “terço da aurora”? O frio estava de matar e nenhum sinal de seu Zé.

Cinco e quarenta. O aglomerado já contava agora com cerca de quinze senhoras e a irritação só aumentava. Mesmo do outro lado da praça era possível ouvir o pequeno coral de resmungos que, se não fosse pela falta de sincronia e algumas poucas exclamações de “porcaria!”, podia se supor que a reza estava sendo feita ali mesmo, do lado de fora da igreja.

Cinco e quarenta e cinco. Estava decidido, iriam reclamar com o padre Clemente. Era um absurdo a igreja fechada até àquela hora! E não era a primeira vez que seu Zé do Rosário se atrasava!

As geladas e enfurecidas senhoras esperaram dar cinco e cinquenta para se dirigirem à casa do padre. Já caminhavam naquela direção quando ouviram o conhecido rangido das portas da igreja se abrindo...

- Até que enfim, seu Zé! O senhor está muito atrasado! Isso é falta de compromisso!

- Ainda sim vou reclamar com o padre!

- Porcaria!

E ouvindo tantas reclamações, ainda sonolento, seu Zé do Rosário argumentou:

- Mas minhas senhoras, por que rezar tão cedo nesse frio? Nem Deus deve estar acordado uma hora dessas!

- Ô homem besta! Deus não dorme, seu Zé!

- Por isso mesmo! – retrucou o pobre homem – Por que rezar uma hora dessas? Deus vai estar acordado mais tarde também!

- Hoje é o “terço da aurora”! E além do mais, Deus ajuda quem cedo madruga!

A discussão se encerrou por ali mesmo. As (agora dezessete) senhoras iniciaram logo o terço, com um misto de alegria, frio, raiva e sono. As ave-marias eram como um mantra para o grupo, já no pai-nosso demoravam um pouco a sincronizar. Às seis e dezoito a oração se encerrou.

Seis e vinte. Um pequeno aglomerado de senhoras começou a se formar na porta da padaria. Por que o padeiro estava demorando tanto para abrir as portas? Será que se esquecera de preparar a massa do pão?...

- Porcaria!

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