Refletindo um
pouco ainda sobre a antiga (e provavelmente universal) questão de onde vem a
inspiração, creio que os sonhos podem ser considerados um de seus mais
abundantes mananciais, nutrindo as mais diversas formas de Arte, como Pintura,
Música, Literatura... Nessa última é quase impossível não lembrar no exemplo de
Stevenson e seus “duendes”. Foi dos seus próprios sonhos que Stevenson afirmou
emanar muitas de suas histórias. Mas há momentos também na Literatura em que os
sonhos deixam de ser não só a fonte da inspiração, mas também o próprio tema do
que é escrito. E seguindo essa linha que eu gostaria de compartilhas aqui em nossa
mesa um belo trecho da “Ampulheta”, de Danilo
Kiš. Assim o autor escreve sobre os sonhos:
“... Sua
semelhança com a vida e suas desemelhanças; seus efeitos salutares sobre o
corpo e alma; suas escolhas sem limitações e ordenamento dos temas e conteúdos;
suas profundidades sem fim e alturas extraordinárias; seu erotismo; sua
liberdade; sua disposição a serem dirigidos pela vontade e pela sugestão (um
lenço perfumado sob o travesseiro, música suave no rádio ou no gramofone etc);
sua semelhança com a morte e seu poder de sugerir a eternidade; sua semelhança
coma loucura sem as consequências da loucura; sua crueldade e sua delicadeza;
seu poder de arrancar os nossos mais profundos segredos; seu agradável
silêncio, ao qual os gritos não são estranhos; suas faculdades telepáticas e
espíritas de comunicação com os mortos ou com os que estão distantes; sua
linguagem codificada, que conseguimos compreender e traduzir; sua habilidade em
condensar as figuras míticas de Ícaro, Ahasverus, Jonas, Noé etc., em imagens;
sua qualidade monocrômica e policrômica; sua semelhança com o ventre e com as
mandíbulas do tubarão; sua capacidade de transformar lugares pessoas e
paisagens desconhecidas em conhecidas, e vice-versa; seu poder de diagnosticar
certas enfermidades e traumas antes que seja tarde demais; a dificuldade em
determinar quanto tempo duram; o fato de poderem ser confundidos com a realidade;
sua capacidade de preservar imagens e lembranças distantes; seu desrespeito
pela cronologia e pelas unidades clássicas de tempo e ação.”
