quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Da inspiração e os sonhos

      Refletindo um pouco ainda sobre a antiga (e provavelmente universal) questão de onde vem a inspiração, creio que os sonhos podem ser considerados um de seus mais abundantes mananciais, nutrindo as mais diversas formas de Arte, como Pintura, Música, Literatura... Nessa última é quase impossível não lembrar no exemplo de Stevenson e seus “duendes”. Foi dos seus próprios sonhos que Stevenson afirmou emanar muitas de suas histórias. Mas há momentos também na Literatura em que os sonhos deixam de ser não só a fonte da inspiração, mas também o próprio tema do que é escrito. E seguindo essa linha que eu  gostaria de compartilhas aqui em nossa mesa um belo trecho da “Ampulheta”, de Danilo Kiš. Assim o autor escreve sobre os sonhos: 

“... Sua semelhança com a vida e suas desemelhanças; seus efeitos salutares sobre o corpo e alma; suas escolhas sem limitações e ordenamento dos temas e conteúdos; suas profundidades sem fim e alturas extraordinárias; seu erotismo; sua liberdade; sua disposição a serem dirigidos pela vontade e pela sugestão (um lenço perfumado sob o travesseiro, música suave no rádio ou no gramofone etc); sua semelhança com a morte e seu poder de sugerir a eternidade; sua semelhança coma loucura sem as consequências da loucura; sua crueldade e sua delicadeza; seu poder de arrancar os nossos mais profundos segredos; seu agradável silêncio, ao qual os gritos não são estranhos; suas faculdades telepáticas e espíritas de comunicação com os mortos ou com os que estão distantes; sua linguagem codificada, que conseguimos compreender e traduzir; sua habilidade em condensar as figuras míticas de Ícaro, Ahasverus, Jonas, Noé etc., em imagens; sua qualidade monocrômica e policrômica; sua semelhança com o ventre e com as mandíbulas do tubarão; sua capacidade de transformar lugares pessoas e paisagens desconhecidas em conhecidas, e vice-versa; seu poder de diagnosticar certas enfermidades e traumas antes que seja tarde demais; a dificuldade em determinar quanto tempo duram; o fato de poderem ser confundidos com a realidade; sua capacidade de preservar imagens e lembranças distantes; seu desrespeito pela cronologia e pelas unidades clássicas de tempo e ação.”

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Novo livro! Párabolas de Quintal...

Pessoal, nossa cozinha ficou parada por um longo tempo, mas foi por uma boa causa. Hoje, no dia da reabertura do blog, anuncio aqui meu novo livro: Parábolas de Quintal! Um pequeno livro de poemas dedicado infância, à essa estação da vida em que não desconfiamos da poesia, somos parte dela!


Trecho do livro:



Parábola da Liberdade

Os cães na praça não tinham dono.
O resto do mundo pertencia ao Outono...

[Sugere-se aqui ouvir o som de folhas secas remexidas]

O menino acordou cedo
(seu dia já nascia com penas).
Era franzino,
Tinha um corpo de pulos e revoadas.
...
Entre as árvores
Tinha um caminho para correr verde.
Quem passava por lá
Virava lagarta
(E o menino passeou por lá).
...
O menino refletia:
O céu não gasta nenhum voo
Com as borboletas.
Borboleta é sopro colorido!
O céu poderia gastar voo com gente!
...
E a borboleta refletia:
Queria que todo homem fosse livre!
Que não houvesse gaiolas!
Que pássaros e homens tivessem os mesmos direitos!
Que qualquer azul jamais fosse fronteira!
Que o orvalho tecesse uma rede
E emaranhasse tudo
Cristalinamente
Sob um único desejo
Metamorfoseado
Em flor.
(E a borboleta pousou na boca do menino).
...
O menino começou a falar asas
Para todo mundo,
Sussurrar cores, cantar vento.
Pena (dessas de dar dó)
Que aquela gente já estava
Gastada de chão.