Sofrer por sofrer... (J. G. de Araujo Jorge)
Parti. Quis te deixar abandonada
às lembranças do amor que nos prendeu.
Trouxe comigo, na alma torturada,
um ciúme atroz ciumentamente meu...
Fugi... fuga cruel, desesperada,
quando supus que nosso amor morreu...
Fuga inútil, se ainda és a minha amada,
se continuo inteiramente seu!
Não, não me livro deste amor nefasto,
nem dessa angústia, dessa luta, desse
ciúme que aumenta quanto mais me afasto...
E hoje concluí, fugindo de meus passos,
que sofrer por sofrer, antes sofresse
como sempre sofri... mas nos teus braços!
O beijo do papai (Eustórgio Wanderley)
Foi no tempo da guerra entre a Rússia potente
e os heróicos nipões, calmos filhos do oriente.
Em torno a Porto Arthur o cerco se apertava
como um cinto de ferro e fogo, que fechava
as portas da cidade a quem, valente, ousasse
por ali penetrar, ou por ali passasse.
Da boca dos canhões a morte, a rir traiçoeira,
partia a cada instante, e na veloz carreira
a vida ia ceifando aos míseros soldados
tão desumanamente assim sacrificados.
Quando, uma tarde, em que cessara num momento
o canhoneio, como a cobrar novo alento,
junto à linha de fogo uma adorável criança,
sem mostras de temor e cheia de confiança
apareceu correndo. O olhar de quem procura,
ansiosa, descobrir naquela massa escura
de uniformes e fumo um rosto conhecido;
o risonho perfil de um semblante querido.
Ao ver a pequenita um japonês, um bravo,
que, como a língua pátria, entendia a do eslavo,
pergunta-lhe, tomando em suas mãos calosas
as mãozinhas da criança, alvas e cetinosas:
– "Que desejas, pequena? Que procuras em meio
da tropa, que aqui vês exposta ao bombardeio?"
Quem és tu, de onde vens, que nome tens, menina?”
– "Meu nome" – ela responde – "eu lhe direi,
é Lina.
Procuro o meu papai que há muito foi embora.
Há muito que o não vejo e desejava agora
vê-lo outra vez!" – "P’ra que?" – pergunta
novamente
o filho do Japão, dizendo incontinenti:
– "Ele aqui já não está; seguiu mais para diante.
Porém, se algum recado ou coisa semelhante
quiseres que eu lhe dê, breve irei encontrá-lo.
Descreve-me os sinais daquele de quem falo
e eu prometo cumprir teu desejo inocente."
- “É fácil conhece-lo” – informa ela contente
– "É alto o meu papai, é forte e musculoso.
Tem, como eu tenho, os olhos azuis e é formoso
o seu rosto barbado. É claro o seu cabelo,
também da cor do meu como bem pode vê-lo."
E do seio tirando um pequeno retrato
acrescenta a sorrir: – "Façamos um contrato:
eu dou-lhe este papai para que não se esqueça
e, vendo o verdadeiro, em breve o reconheça.
Chama-se Ivan." – "Pois bem," – disse o nobre
soldado
que o retrato guardou. "Dá-me agora o recado
que hei de procurar o teu papai... e em breve..."
– "Mas não é um recado que eu peço que lhe leve"
(replica-lhe a pequena) – "Diz-me então o que queres
e eu prometo cumprir o que tu me disseres."
– "Pois bem" – Lina responde – "É este o meu
desejo:
chegue junto ao papai e entregue-lhe este beijo..."
E assim dizendo, salta ao colo do soldado
e beija-lhe o semblante em lágrimas banhado.
E um bravo que não chora, ante a horrível matança
chorou ao receber um beijo da criança...
Mas como dos canhões ouvisse a voz bramindo,
Lina foi-se acorrer por onde tinha vindo!
Durante a noite inteira o fogo não cessara
e as tropas do Mikado aos poucos avançara
num assalto feroz contra o inimigo em frente;
cada qual mais revel, cada qual mais valente!
Quando enfim à vitória as trombetas ecoaram
e as bandeiras do sol vermelho tremularam
sobre a trincheira russa à força conquistada,
todo o céu se aclarava à rósea madrugada
e pelo campo afora os mortos e os feridos
eram, sem distinção, por todos recolhidos.
Quando ao ver de um soldado a fronte descorada,
pendida sobre o peito, a blusa ensangüentada,
lembrou-se o japonês das feições da criança.
Olha o retrato e vê a perfeita semelhança.
Era um russo, o ferido, e o japonês o chama:
– "Ivan!" – "Que me quereis?" O
moribundo exclama,
surpreso por ver o seu nome proferido
por lábios do inimigo. – "Eu te trago escondido"
– o bravo continua – "um beijo que te envia
tua filhinha Lina... Ela mesma o daria
se pudesse vir cá. Não podendo, guardei-o
para agora o depor de tua fronte em meio.
E ao dizer isso, calmo, o filho do oriente
beijou a fronte do russo e o abraçou ternamente.