sábado, 22 de junho de 2013

Outras cozinhas (Cozinha portuguesa - II)



Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)

Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias 
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo

sou a verdade que prefere não sair

do bairro

  
Escrever depois de um dia de trabalho árduo (Luís Filipe Parrado)

Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira

e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.

Ainda assim
escrevo,

ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.

Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso

e parecem-se estranhamente
com listas de compras,

pão, laranjas,
maçãs,

coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,

coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.


Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (Nuno Costa Santos)

Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.

Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.

Às vezes é um fósforo
que resplandesce venturosas entradas
no dicionário dos dias.

Às vezes nem isso.

Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.

domingo, 16 de junho de 2013

..........

Ganhar uma cor de Abril
Dando voltas na praça.
Aconselhando o inverno
Para quem passa.

Buscando atentamente
Qualquer estrela escassa
Para saber se a noite caiu
Fora ou dentro de casa.

sábado, 8 de junho de 2013

Caderno da vó Elce - III

Mais poesia do jardim de letras da vó...

Mágoa (Virgínia Victorino)

Eu que cheguei a ter essa alegria
de junto ao meu possuir teu coração,
eu que julgara eterna a duração
do voluptuoso amor que nos unia,

sou,- apagada a última ilusão,
morto o deslumbramento em que vivia,
-  um cego que ao lembrar a luz do dia
sente mais negra ainda a escuridão.

Tu me deste a ventura mais perfeita,
perdi-a, e dei-te a chama insatisfeita
dessa imensa paixão com que te quis...

Hoje, o que sinto, inútil, revoltada,
não é mágoa de ser tão desgraçada,
é pena de ter sido tão feliz.



Gostaria de pedir ajuda aos leitores para descobrir de quem é este poema abaixo também retirado do caderno da vó Elce. Dei uma pesquisada na internet e uma das possibilidades é de que seja de Antônio Tomáz, mas não posso afirmar. Pois bem, eis o poema:

A filha do bandido

Vai em busca do pai esta criança
Pálida e triste, anêmica e franzina
Que lembra, tão despida de esperança,
A rosa emurchecida da campina
 
Vai só, a estrada é solitária e escura
Há um atalho onde o terror habita,
De repente ela pára, treme e grita,
Que mãos estranhas o pulso lhe segura.
 
A bolsa ou a vida, alguém lhe brada
Erguendo o punhal assassino,
Ela, tremendo de susto, quase morta, espavorida
 
responde, reconhecendo a fala
A bolsa, sou pobre, não a tenho
Mas a vida, tu me deste, meu pai, podes tirá-la.