Adília Lopes (José Tolentino Mendonça)
Chamo-me Adília Lopes
sou a casa inseto
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo
sou a verdade que prefere não sair
do bairro
a mulher osga
uma colher transformada em faca
para minusculos riscos
sou uma constante cosmológica
de acelerar galáxias
um telegrama sinfónico
na ausencia de tudo
sou a verdade que prefere não sair
do bairro
Escrever depois de um dia de trabalho árduo (Luís Filipe Parrado)
Já não há maçãs
nem laranjas na fruteira
e o cesto do pão
está irremediavelmente vazio.
Ainda assim
escrevo,
ainda assim,
depois de um dia de trabalho árduo.
Depois de um dia de trabalho árduo
os poemas são de pele e osso
e parecem-se estranhamente
com listas de compras,
pão, laranjas,
maçãs,
coisas escritas à mão,
coisas de que precisamos para viver,
coisas em que pensamos só
quando nos fazem falta.
Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme (Nuno Costa Santos)
Às vezes é um insecto que faz disparar o alarme
um zumbido que detona o coração.
Às vezes é uma vírgula que tomba na frase
uma cabeça que desaba num ombro qualquer.
Às vezes é um fósforo
que resplandesce venturosas entradas
no dicionário dos dias.
Às vezes nem isso.
Às vezes é um sopro que revira o mundo
no ventre do tempo
como quem se prepara para uma nova vida.
