domingo, 31 de março de 2013

Para se ler à luz de velas (repostagem)

Nesta Semana Santa, assistindo às tradicionais procissões, veio-me à memória um texto que eu escrevi e servi aqui mais ou menos nessa mesma época, no ano passado. Achei então que cairia bem serví-lo aqui novamente. E quero aproveitar para desejar a todos uma feliz Páscoa!

Para se ler à luz de velas

Há pouco passou a procissão. Logo atrás, a banda. Não havia muita gente na procissão, mas a banda estava bem animada. Por onde seguiram eu não vi, sei apenas que desceram a rua e aos poucos a música foi diminuindo, diminuindo até que não pude mais ouvi-la. Ficou o silêncio...

Esse silêncio trouxe consigo um rio de lembranças de quando eu também costumava acompanhar as procissões. Eu devia ter lá meus 6 ou 7 anos e não perdia uma. Gostava de ouvir a banda, mas o que eu gostava mesmo era das velas que carregávamos. A tia Adail sempre pegava e acendia uma vela para mim e outra para ela. Enquanto a vela estivesse acessa, eu poderia caminhar pelo mundo inteiro. A sua chama fascinava.

Nunca perdi esse fascínio pela chama da vela. Mas muito antes de eu me dar por gente, existiu um homem que também era fascinado por essa chama: Gaston Bachelard. Ele, porém, foi bem mais longe do que eu. Bachelard escreveu um livro sobre o assunto, dedicou-se a “descrever” esse poder que a chama da vela tem de nos fazer sonhar, de alimentar nossas fantasias. O livro não poderia ter outro nome: “A chama de uma vela”.

Eu jamais deixei de sonhar diante da chama de uma vela. Nas procissões ou em casa, quando a luz vai embora, sempre alimentei meus sonhos ali, naquela pequena luz. A alma de quem sonha vive à meia-luz, vive à luz de velas. Nas palavras de Bachelard, “parece que existe em nós cantos sombrios que toleram apenas uma luz bruxuleante.” É por esses cantos que minha alma passeia.

... A procissão e a banda já estão voltando. O silêncio está partindo. As velas já estão se apagando. Lá se vão minhas lembranças. De certa forma também tomei a procissão, mas tomei um rumo para outro mundo. O mundo das minhas lembranças, das minhas fantasias, da saudade. “A chama é um mundo para o homem só.” (Bachelard)

sábado, 23 de março de 2013

O caderno da vó Elce

Há pouco mais de uma semana passei a ter em mãos um caderno muito especial, o caderno em que minha avó Elce, em sua juventude, copiava as poesias que gostava. Quase todas estão datadas do ano de 1954.

Além da imensa alegria de encontrar um objeto tão significativo (pelo menos para mim) e ter mais uma bela recordação de minha avó, alegrei-me também em constatar naquelas páginas o quanto a vó gostava de poesia, o quanto sua alma era sensível à beleza das palavras. E que belos poemas a vó Elce escolhia! Uma bela seleção de poemas que me mostrou um pouco mais daquela alma que sempre regou de carinho seus familiares e amigos.

Gostaria de compartilhar com todos um pouco da minha alegria e da delicadeza que minha vó plantou nesse caderno. Uso o termo “plantou” porque poucos tinham tanto cuidado e dedicação com as plantas, com as flores, como tinha a vó. E todo esse cuidado com as flores ela levou para as palavras. E isso é fácil de constatar ao observar o capricho de seu caderno, os contornos suaves e belos de suas letras. Gostaria muito de poder compartilhar os poemas com as próprias letras da vó, mas infelizmente não tenho como escanear o caderno, pois o mesmo já está bastante fragilizado pelo tempo. Então compartilharei os poemas tal como é possível na internet. Mas que fique a certeza que tais poemas foram colhidos num belo e bem cuidado jardim!

Hoje escolhi o poema “Os cisnes” de Júlio Salusse, aos poucos compartilharei mais:


Os Cisnes (Júlio Salusse)

A vida, manso lago azul algumas
Vezes, algumas vezes mar fremente,
Tem sido para nós constantemente
Um lago azul sem ondas, sem espumas,

Sobre ele, quando, desfazendo as brumas
Matinais, rompe um sol vermelho e quente,
Nós dois vagamos indolentemente,
Como dois cisnes de alvacentas plumas.

Um dia um cisne morrerá, por certo:
Quando chegar esse momento incerto,
No lago, onde talvez a água se tisne,

Que o cisne vivo, cheio de saudade,
Nunca mais cante, nem sozinho nade,
Nem nade nunca ao lado de outro cisne!

sábado, 16 de março de 2013

Outras cozinhas (Cozinha Inglesa)



À Júlia chorando (Thomas Moore)

Se alguma dor te atormenta,
E por isso choras tanto,
Vem a mim, experimenta,
Eu farei cessar teu pranto.
 
Mas se choras mesmo quando
Risonha a vida te apraz...
És tão bela assim chorando...
Pedirei que chores mais. 


LXXI (William Shakespeare)

Não lamentes por mim quando eu morrer
Senão enquanto o surdo sino diz
Ao mundo vil que o deixo e vou viver
Em meio aos vermes que inda são mais vis. 

Nem te recorde o verso comovido
A mão que o escreveu, pois te amo tanto
Que antes achar em tua mente olvido
Que ser lembrado e te causar o pranto. 

Ah! peço-te que ao leres esta queixa
Quando for minha carne consumida,
Não te refiras ao meu nome e deixa 

Que morra o teu amor com minha vida.
Não veja o mundo e zombe desta dor
Por minha causa, quando morto eu for.


O Tigre (William Blake) 

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?

Em que abismos ou que céus
O fogo há dos olhos teus?
Em que asa se inspira a trama
Da mão que te deu tal chama?

Que artes ou forças tamanhas
Entrançaram-te as entranhas?
E ao bater teu coração,
Pés de horror? de horror a mão?

Que malho foi? que limalha?
De teu cérebro a fornalha?
Qual bigorna? que tenazes
No terror mortal que trazes?

Quando os astros dispararam
Seus raios e os céus choraram,
Riu-se ao ver sua obra quem
Fez a ovelha e a ti também?

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?


Traduções: À Júlia chorando - Ary Mesquito; Soneto LXXI e O Tigre - Ivo Barroso.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Biografias

Por coincidência ou força maior do destino, chegou às minhas mãos um livro com a biografia de Stendhal, ao mesmo tempo em que estou a ler seu clássico “O vermelho e o negro”. Ainda não comecei a ler sua biografia. Espero que sua história de vida seja tão interessante quanto sua obra. E com certeza será! Toda vida é interessante! Toda forma de vida merecia sua biografia, é digna de ser contada. Não só os seres humanos, mas todo ser vivo.

Foi pensando nisso que resolvi começar a trabalhar na biografia de um pequeno girassol. Até agora tem sido um trabalho mais apreciativo do que investigativo. E estou gostando tanto que penso me especializar em biografias... De girassóis e vaga-lumes.

sábado, 2 de março de 2013

O nosso amor visto de perto

 (Para Luja)

Quem vê o nosso amor assim de longe
talvez o ache um amor até comum,
não enxerga esse vulcão que a gente esconde
e quem sabe, ao ver nós dois, ache que é um?

Mas quem vê o nosso amor assim de perto
se admira, esfrega os olhos e se espanta.
Olha de novo para saber se enxergou certo.
Por fim, abre um sorriso e se encanta.

Quem vê o nosso amor assim de perto
consegue ver esse vulcão em nossos peitos
e que explosões não nos fazem mal algum.

E bem pertinho, com os olhos bem abertos,
tem a certeza de que enxergou direito
e se convence de que nós dois somos só um.