quarta-feira, 27 de junho de 2012

Outras cozinhas (Henriqueta, Machado e Adelaide)

Calendário (Henriqueta Lisboa)

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias


Círculo vicioso (Machado de Assis)

Bailando no ar, gemia inquieto vagalume:
"Quem me dera que eu fosse aquela loira estrela
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

"Pudesse eu copiar-te o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela"...
Mas a lua, fitando o sol com azedume:

"Mísera! Tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume"!
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta luz e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vagalume?"...


Evolução (Adelaide Petters Lessa)

Seremos de tal lirismo
que por descuido somente
voltaremos ao instinto
de comer os grãos de pólen.

Tão luminosos seremos,
de tal pureza divina,
que em nós haverá tormento
se o néctar for ingerido
e mancharemos o amor
se houver escolha de sumo
e pesaremos o dobro
com o perfume dos frutos.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Eu poderia...

Eu poderia passar a eternidade olhando as flores, contanto que não soubesse seus nomes.



Fotografia - LUIZA DUARTE

quarta-feira, 13 de junho de 2012

O que (não) dizem os astros

Quem visita Belo Horizonte não pode deixar de ir à Praça do Papa e apreciar a vista de lá. É sem dúvida uma das vistas mais bonitas que se pode ter da cidade (principalmente à noite, quando está toda iluminada). Pode-se dizer que a vista de lá é uma compensação aos moradores da capital por perderem as estrelas. Pois é fato que, não só na capital mineira como em outras grandes cidades, é bem difícil ver estrelas. As luzes da cidade atrapalham e o que se vê são apenas poucos pontinhos brilhantes no céu.
Quando eu morava em Ervália, numa casa na roça, era bem diferente. Lá era fácil ver estrelas. Constelações inteiras. Estrelas cadentes. Um céu verdadeiramente iluminado. Costumava pegar meu violão, uma cerveja e ir para varanda sentar-me acompanhado das estrelas. A lua também era companheira em certas ocasiões.
Tenho certeza de que o que acabei de relatar acima não é de forma alguma um gosto exclusivamente meu. Estou convicto de que muitos dos que leram ou estão a ler esse texto também compartilham desse gosto pelas estrelas, pela lua, pelos astros. Espero que estejam gostando também da leitura. Tem gente que gosta de misturar esses dois gostos, astros e leitura. Essa gente gosta de ler os astros. Gosta de ler seu destino neles. Mas, caros astrólogos, porque achar um destino nos astros? Os astros estão lá para nos falar do infinito e não do destino. Por que tentar achar um só caminho no infinito do universo? Desculpem-me os leitores (de astros), mas creio que as estrelas, a lua, os planetas não foram feitos para serem lidos. Talvez escutados, como Kepler há muito tentou fazer. Kepler, um dos maiores observadores de noites estreladas que já existiu, sonhava um dia escutar a canção tocada pelos astros. Mas não era uma canção que falasse de destino, era a canção sobre o infinito, o universo, os sonhos.
Quando me sentava na varanda para ver estrelas eu não ficava procurando um destino, um caminho escrito, pelo contrário, eu gostava de me ver perdido naquela imensidão. Confesso que talvez tivesse sido melhor, em todas as vezes que fui à varanda, ter deixado de lado o violão e ter feito como Kepler, tentado ouvir a canção dos astros ao invés de fazer serenata para eles. Apesar de meu imenso gosto pela leitura, não misturo as coisas. Não leio estrelas. E pretendo continuar assim. Não quero um alfabeto para os meus sonhos. O único destino escrito nos astros é o do infinito.
Pois bem, aos que visitarem Belo Horizonte, repito: vão à Praça do Papa ao anoitecer! Observem a cidade de lá! Mas não procurem por ruas, avenidas, rodovias... Apenas observem e se percam! Ah, sugiro o mesmo para os que forem observar estrelas.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Outra cozinhas (Cecília, Neruda e Manuel)

Leveza (Cecília Meireles)

Leve é o pássaro:
e a sua sombra voante,
mais leve.

E a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve.
E o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto,
mais leve.
E o desejo rápido
desse mais antigo instante,
mais leve.
E a fuga invisível
do amargo passante,
mais leve.


Se cada dia cai (Pablo Neruda)

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.


Velha chácara (Manuel Bandeira)

A casa era por aqui…
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos.)
Tantos que a morte levou!
(E a vida… nos desenganos…)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa…

- Mas o menino ainda existe.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Era uma vez... (aniversário do blog!)



Pessoal, exatamente hoje, 1º de junho, o Sobra ou Sobremesa? está completando 2 anos (como passou rápido)! Parabéns e obrigado a todos que têm incentivado, visitado e divulgado o blog! Espero que nossa cozinha continue a todo vapor, colocando à mesa pratos e mais pratos por muitos e muitos anos! Que venham mais 1, 2, 3 anos...! Pois era uma vez um blog...

Que passe o tempo! Que passe!
Um ano, dois ou três...
Meu tempo sempre renasce
No tempo do “Era uma vez...”


Grande abraço!