sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Oscar Wilde

Peço licença para por à mesa o que considero um dos trechos mais belos já escritos. Esse trecho é retirado do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Devido às diversas edições e traduções, é possível encontrar essa mesma passagem com pequenas modificações, algumas palavras diferentes, mas sem fugir do contexto. Esta, por sua vez, foi transcrita de uma edição de 1959, tradução de Januário Leite.
Grande abraço!!!

“... Poucos há de nós que não tenham algumas vezes acordado antes do amanhecer, já após uma dessas noites sem sonhos que quase enamoram da morte, já após uma dessas noites de horror ou de informe alegoria, em que pelas câmaras do cérebro perpassam fantasmas mais terríveis do que a própria realidade, animada dessa vida intensa que se acoita em todos os grotescos, e que dá à arte gótica a sua persistente vitalidade, pois que esta arte é especialmente a arte daquelas cujas almas foram perturbadas pela força da rêverie... A pouco e pouco, insinuam-se uns dedos brancos por entre as cortinas, que parecem tremer. Sombras mudas, de recortes negros e fantásticos, adejam pelo quarto e aninham-se nos cantos... De fora chega até nós o chilrear dos pássaros nas árvores, o ruído dos homens que se dirigem para o trabalho, o suspirar e o soluçar do vento, que desceu dos montes e vagueia em torno da casa silenciosa, como receando acordar os seus habitantes... Vão-se erguendo, uns após outros, os véus da tênue gaze, e, gradualmente, as coisas vão recuperando formas e cores, e nós vemos a alvorada refazer o mundo no seu molde antigo. Os lívidos espelhos recomeçam a sua vida mímica. As velas apagadas estão onde as deixáramos, e ao lado está o livro meio cortado que estivéramos estudando, a flor que usáramos no baile, a carta que receáramos ler ou que havíamos já lido demasiado... Nada nos parece haver mudado. Das sombras irreais da noite ressurge a vida real já de nós conhecida. Temos de a reatar onde a havíamos deixado, e então empolga-nos uma terrível sensação da necessidade de continuarmos a despender a energia no mesmo enfadonho âmbito de hábitos estereotipados, ou, quiçá, um intenso e ansioso anelo de que as nossas pálpebras, ao descerrarem-se uma manhã, deparassem com um mundo novo, construído durante as trevas para nosso deleite, um mundo em que o passado pouco ou nenhum lugar ocupasse, ou não sobrevivesse em forma alguma consciente de obrigação ou pesar, pois até a lembrança da alegria tem o seu travo e as recordações do prazer a sua dor...”

Um comentário:

  1. particularmente me ideentifiquei com esse trecho... sou uma dessas pessoas que passa por essas noite e se vê tendo que voltar para seus hábitos esteriotipados... incrível como esse autor descreve algo comum com uma riqueza de detalhes e envolvido de poesia que só enobrece a vida pela qual passamos e nem notamos quão absolutamente complexo é! rsrs

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