sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Questão de Gramática
O verbo Haver, quando utilizado no sentido de Existir, é considerado impessoal, permanecendo invariável na 3ª pessoa do singular. Mas a questão é: haveria ou não "haveriam" fantasmas?
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Festa Brasileira (Parte II)
Mas deu-se um dia qualquer
Que Cabral acordou arretado
E erguendo sua colher
Gritou p’rum sujeito pelado
“Vai chamar logo o povo
Vamos acabar com a preguiça
Se Colombo brinca com ovo
Nós rezamos uma missa!”
O padre veio apressado
Com sua cruz e sua viola
“Deixemos a missa de lado
Um boa moda consola!”
A idéia de fato servira
Todos ao redor da fogueira
Cantando e dançando catira
Como um Fado à brasileira
Outra vez se mordeu a maçã
Como Adão fez no início
Aos poucos esqueceram Tupã
“Três vivas para Dionísio!”
Mas o belo luar de prata
Foi se tornando de ouro
E a moda que consolava
Passou a arrancar o couro
Tupã se escondeu na floresta
Vendo sua família aos pedaços
Esperando pelo fim da festa
Com alguns de seus filhos no braço
(Continua...)
Que Cabral acordou arretado
E erguendo sua colher
Gritou p’rum sujeito pelado
“Vai chamar logo o povo
Vamos acabar com a preguiça
Se Colombo brinca com ovo
Nós rezamos uma missa!”
O padre veio apressado
Com sua cruz e sua viola
“Deixemos a missa de lado
Um boa moda consola!”
A idéia de fato servira
Todos ao redor da fogueira
Cantando e dançando catira
Como um Fado à brasileira
Outra vez se mordeu a maçã
Como Adão fez no início
Aos poucos esqueceram Tupã
“Três vivas para Dionísio!”
Mas o belo luar de prata
Foi se tornando de ouro
E a moda que consolava
Passou a arrancar o couro
Tupã se escondeu na floresta
Vendo sua família aos pedaços
Esperando pelo fim da festa
Com alguns de seus filhos no braço
(Continua...)
segunda-feira, 11 de outubro de 2010
Festa Brasileira (Parte I)
Chegou por aqui Cabral
Por volta de mil e quinhentos
Em três caravelas de pau
Pau-Brasil era outros quinhentos
Trazia consigo a coroa
Do primeiro João da Bahia
Os daqui estavam na boa
Eram só Josés e Marias
Ainda não tinham Jesus
E sabe lá se tiveram
Só conheceram a cruz
E os pecados dos que vieram
O encontro foi cordial
Abraço pra lá, laço pra cá
“Bem-vindo seu Portugal
Faça o favor, queira entrar!”
Após muito ter navegado
Cabral aceitou o convite
“Meus marujos estão bem cansados
E já que o senhor insiste!”
Foi todo mundo pra rede
Dormir e comer mamão
Mas os homens também tinham sede
Tinham fome, sede e tesão
E assim ficaram por dias
Aos cuidados do anfitrião
Como eram belas as Índias
Pobre Vasco sem direção!
(Continua...)
Por volta de mil e quinhentos
Em três caravelas de pau
Pau-Brasil era outros quinhentos
Trazia consigo a coroa
Do primeiro João da Bahia
Os daqui estavam na boa
Eram só Josés e Marias
Ainda não tinham Jesus
E sabe lá se tiveram
Só conheceram a cruz
E os pecados dos que vieram
O encontro foi cordial
Abraço pra lá, laço pra cá
“Bem-vindo seu Portugal
Faça o favor, queira entrar!”
Após muito ter navegado
Cabral aceitou o convite
“Meus marujos estão bem cansados
E já que o senhor insiste!”
Foi todo mundo pra rede
Dormir e comer mamão
Mas os homens também tinham sede
Tinham fome, sede e tesão
E assim ficaram por dias
Aos cuidados do anfitrião
Como eram belas as Índias
Pobre Vasco sem direção!
(Continua...)
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Oscar Wilde
Peço licença para por à mesa o que considero um dos trechos mais belos já escritos. Esse trecho é retirado do livro O Retrato de Dorian Gray, de Oscar Wilde. Devido às diversas edições e traduções, é possível encontrar essa mesma passagem com pequenas modificações, algumas palavras diferentes, mas sem fugir do contexto. Esta, por sua vez, foi transcrita de uma edição de 1959, tradução de Januário Leite.
Grande abraço!!!
“... Poucos há de nós que não tenham algumas vezes acordado antes do amanhecer, já após uma dessas noites sem sonhos que quase enamoram da morte, já após uma dessas noites de horror ou de informe alegoria, em que pelas câmaras do cérebro perpassam fantasmas mais terríveis do que a própria realidade, animada dessa vida intensa que se acoita em todos os grotescos, e que dá à arte gótica a sua persistente vitalidade, pois que esta arte é especialmente a arte daquelas cujas almas foram perturbadas pela força da rêverie... A pouco e pouco, insinuam-se uns dedos brancos por entre as cortinas, que parecem tremer. Sombras mudas, de recortes negros e fantásticos, adejam pelo quarto e aninham-se nos cantos... De fora chega até nós o chilrear dos pássaros nas árvores, o ruído dos homens que se dirigem para o trabalho, o suspirar e o soluçar do vento, que desceu dos montes e vagueia em torno da casa silenciosa, como receando acordar os seus habitantes... Vão-se erguendo, uns após outros, os véus da tênue gaze, e, gradualmente, as coisas vão recuperando formas e cores, e nós vemos a alvorada refazer o mundo no seu molde antigo. Os lívidos espelhos recomeçam a sua vida mímica. As velas apagadas estão onde as deixáramos, e ao lado está o livro meio cortado que estivéramos estudando, a flor que usáramos no baile, a carta que receáramos ler ou que havíamos já lido demasiado... Nada nos parece haver mudado. Das sombras irreais da noite ressurge a vida real já de nós conhecida. Temos de a reatar onde a havíamos deixado, e então empolga-nos uma terrível sensação da necessidade de continuarmos a despender a energia no mesmo enfadonho âmbito de hábitos estereotipados, ou, quiçá, um intenso e ansioso anelo de que as nossas pálpebras, ao descerrarem-se uma manhã, deparassem com um mundo novo, construído durante as trevas para nosso deleite, um mundo em que o passado pouco ou nenhum lugar ocupasse, ou não sobrevivesse em forma alguma consciente de obrigação ou pesar, pois até a lembrança da alegria tem o seu travo e as recordações do prazer a sua dor...”
Grande abraço!!!
“... Poucos há de nós que não tenham algumas vezes acordado antes do amanhecer, já após uma dessas noites sem sonhos que quase enamoram da morte, já após uma dessas noites de horror ou de informe alegoria, em que pelas câmaras do cérebro perpassam fantasmas mais terríveis do que a própria realidade, animada dessa vida intensa que se acoita em todos os grotescos, e que dá à arte gótica a sua persistente vitalidade, pois que esta arte é especialmente a arte daquelas cujas almas foram perturbadas pela força da rêverie... A pouco e pouco, insinuam-se uns dedos brancos por entre as cortinas, que parecem tremer. Sombras mudas, de recortes negros e fantásticos, adejam pelo quarto e aninham-se nos cantos... De fora chega até nós o chilrear dos pássaros nas árvores, o ruído dos homens que se dirigem para o trabalho, o suspirar e o soluçar do vento, que desceu dos montes e vagueia em torno da casa silenciosa, como receando acordar os seus habitantes... Vão-se erguendo, uns após outros, os véus da tênue gaze, e, gradualmente, as coisas vão recuperando formas e cores, e nós vemos a alvorada refazer o mundo no seu molde antigo. Os lívidos espelhos recomeçam a sua vida mímica. As velas apagadas estão onde as deixáramos, e ao lado está o livro meio cortado que estivéramos estudando, a flor que usáramos no baile, a carta que receáramos ler ou que havíamos já lido demasiado... Nada nos parece haver mudado. Das sombras irreais da noite ressurge a vida real já de nós conhecida. Temos de a reatar onde a havíamos deixado, e então empolga-nos uma terrível sensação da necessidade de continuarmos a despender a energia no mesmo enfadonho âmbito de hábitos estereotipados, ou, quiçá, um intenso e ansioso anelo de que as nossas pálpebras, ao descerrarem-se uma manhã, deparassem com um mundo novo, construído durante as trevas para nosso deleite, um mundo em que o passado pouco ou nenhum lugar ocupasse, ou não sobrevivesse em forma alguma consciente de obrigação ou pesar, pois até a lembrança da alegria tem o seu travo e as recordações do prazer a sua dor...”
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