"Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito." (Victor Hugo)
Tive o prazer de iniciar há algumas semanas, na companhia de dois caríssimos amigos, um estudo da vida e obra do poeta e santo espanhol, São João da Cruz. Foi apenas o início, mas já pudemos perceber que trata-se de uma obra lindíssima. Porém um fato em especial me chamou a atenção na biografia desse santo carmelita: São João da Cruz escreveu parte de sua obra, de seus mais belos poemas, enquanto estava preso. Perseguido por suas ideias, ele foi aprisionado em uma cela extremamente pequena, onde mal cabia seu corpo e onde ficou por meses. Em um ambiente quase sem luz, difícil até mesmo para se mover, São João da Cruz escreveu belos poemas! Considerado um santo contemplativo, quase um místico, a obra do poeta carmelita aponta para um caminho de meditação, de contemplação do espírito. E talvez isso explique o fato do santo ter conseguido, apesar do cárcere, manter seu espírito livre e criativo.
Entretanto, o que eu gostaria de
destacar no momento é como a história literária está repleta de exemplos de
grandes autores, que apesar da experiência do cárcere, conseguiram manter-se
criativos, pensantes e conseguiram, de alguma maneira, manter vivas suas
liberdades. Tomás Antônio Gonzaga, Dostoievski e Cervantes são apenas alguns
exemplos de escritores que fizeram da experiência do cárcere o
primeiro bater de asas de muitas e muitas palavras, versos e histórias. Talvez
poucos tenham passado com tamanha serenidade (e por uma experiência tão hostil)
como São João de Cruz. Mas assim como o santo, esses grandes autores merecem
todo reconhecimento e admiração por suas obras, por toda persistência em manter
vivo o espírito criativo. Mantiveram viva a certeza de que a poesia e a literatura
em geral sempre voarão de mãos dadas com a liberdade, seja em longos campos verdes e
floridos ou entre quatro paredes!
Gostaria de encerrar esse breve comentário com um dos poemas mais famosos de São João da Cruz, Noite Escura:
Noite escura (São João da Cruz)
Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamadas,
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.
Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.
Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.
Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.
Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada!
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!
Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.
Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava,
Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.