segunda-feira, 28 de julho de 2014

Parábola do Inverno



Parábola do Inverno

Fazia-se uma fogueira
Para ouvir estalinhos.
E o fogo nascia
Madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.
...
O inverno
Fazia um calor de abraço.
...
Na roça
Tinha bicho-que-queima,
Bicho-que-acende-e-apaga,
Bicho-que-brilha,
Bicho-que-sai-à-noite
E faíscas vira-latas.
...
As velas gostavam de iluminar gente,
De brincar com dedos,
De derreter o escuro bem devagarinho.
...
O frio deixava o fogo
Cada vez mais madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.

                   (Do livro Parábolas de Quintal - Denis Mattos)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Ariano Suassuna

Lápide

Quando eu morrer, não soltem meu Cavalo
nas pedras do meu Pasto incendiado:
fustiguem-lhe seu Dorso alanceado,
com a Espora de ouro, até matá-lo.
Um dos meus filhos deve cavalgá-lo
numa Sela de couro esverdeado,
que arraste pelo Chão pedroso e pardo
chapas de Cobre, sinos e badalos.
Assim, com o Raio e o cobre percutido,
tropel de cascos, sangue do Castanho,
talvez se finja o som de Ouro fundido
que, em vão – Sangue insensato e vagabundo —
tentei forjar, no meu Cantar estranho,
à tez da minha Fera e ao Sol do Mundo!

                                                      Ariano Suassuna (16/06/1927 - 23/07/2014)

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Rubem Alves 15/09/1933 - 19/07/21014


"A vida começa com uma chegada. Termina com uma despedida. A chegada faz parte da vida. A despedida faz parte da vida. Como o dia, que começa com a madrugada e termina com o sol que se põe. A madrugada é alegre, luzes e cores que chega. O sol que se põe é triste, orgasmo final de luzes e cores que se vão. Madrugada e crepúsculo, alegria e tristeza, chegada e despedida: tudo é parte da vida, tudo precisa ser cuidado. A gente prepara, com carinho e alegria, a chegada de quem a gente ama. É preciso preparar também, com carinho e tristeza, a despedida de quem a gente ama. Noite e dia, silêncio e música, repouso e movimento, risco e choro, calor e frio, sol e chuva, abraço e separação, chegada e partida: são os opostos pulsantes que dão vida à vida. Chegada e despedida, vida e morte - não são inimigas, são irmãs... Uma canção não existiria sem a palavra que a encerra. Sem a Morte, a Vida não existiria. A vida é, precisamente, uma permanente despedida."

                                                                                                                          (Rubem Alves)

Obrigado por tudo, Rubem!