segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Outras Cozinhas (Albano, João Cabral e Ribeiro Couto)

Seguindo a linha do último prato servido no blog, gostaria de aproveitar esse "Outras Cozinhas" para deixar mais uma sugestão de livro. Trata-se do Apresentação da poesia brasileira, de Manuel Bandeira, que conta com grande riqueza de informações uma grande parte da história da poesia brasileira e de seus respectivos poetas. O livro, logicamente, traz uma série de poemas devidamente organizados para exemplificar um pouquinho dessa história. Para os que se interessarem, fica aí a dica.

Aproveito também a oportunidade para desejar a todos um feliz 2015, com muita Poesia! Grande abraço!


Há no meu peito uma porta (José de Abreu Albano)

Há no meu peito uma porta
a bater continuamente;
dentro a esperança jaz morta
e o coração jaz doente.
Em toda parte onde eu ando,
ouço este ruído infindo:
são as tristezas entrando
e as alegrias saindo.


O cão sem plumas (João Cabral de Melo Neto) 

(fragmento) II - Paisagem do Capibaribe

Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.

Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.

Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.

Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).

O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.

Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.

E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.

Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.

Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).

Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.

Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.

Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.

Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).

 
Elegia (Ribeiro Couto)

Que quer o vento?
A cada instante
Este lamento
Passa na porta
Dizendo: abre...

Vento que assusta
Nas horas frias
Na noite feia,
Vindo de longe,
Das ermas praias.

Andam de ronda
Nesse violento
Longo queixume,
As invisíveis
Bocas dos mortos.

Também um dia,
Estando eu morto,
Virei queixar-me
Na tua porta
Virei no vento
Mas não de inverno,
Nas horas frias
Das noites feias.

Virei no vento
Da primavera.
Em tua boca
Serei carícia,
Cheiro de flores
Que estão lá fora
Na noite quente.

Virei no vento...
Direi: acorda...

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Colocando a prosa em dia...

Faz tempo que não sirvo algo aqui em nossa mesa! O blog já não é atualizado há mais de um mês! Desde já peço desculpa por tamanha ausência, mas para dar sinal de vida (e poesia) aos que por aqui têm passado em busca de algum prato novo, relato aqui um pouco de como andam minhas relações com o mundo das palavras.

Nos último dias tenho me aventurado um pouco pelo mundo dos contos. Estou tentando dar meus primeiros passos na criação de obras do gênero. Esses passos têm sido mais lentos e mais árduos do que a princípio eu imaginava, mas não têm deixado de ser prazerosos. Espero que num futuro próximo eu possa compartilhar algo aqui em nossa mesa.

No momento estou também desfrutando da leitura do maravilhoso livro de Octávio Paz, O arco e a lira. Gostaria de deixar aqui como dica de leitura esse que é, sem dúvida, um dos melhores ensaios sobre poética já escritos. Não arrisco-me no momento a fazer muitos comentários sobre a obra, visto que ainda não finalizei a leitura e estou em momento de completo deslumbramento pelo livro. Mas sirvo um pequeno trecho da Introdução, como aperitivo:



A poesia é conhecimento, salvação, poder, abandono. Operação capaz de transformar o mundo, a atividade poética é revolucionária por natureza; exercício espiritual, é um método de libertação interior. A poesia revela este mundo; cria outro. Pão dos eleitos; alimento maldito. Isola; une. Convite à viagem; regresso à terra natal. Inspiração, respiração, exercício muscular. Súplica ao vazio, diálogo com a ausência, é alimentada pelo tédio, pela angústia e pelo desespero. Oração, litania, epifania, presença. Exorcismo, conjuro, magia. Sublimação, compensação, condensação do inconsciente. Expressão histórica de raças, nações, classes. Nega a história: em seu seio resolvem-se todos os conflitos objetivos e o homem adquire, afinal, a consciência de ser algo mais que passagem. Experiência, sentimento, emoção, intuição, pensamento não dirigido. Filha do acaso; fruto do cálculo. Arte de falar em forma superior; linguagem primitiva. Obediência às regras; criação de outras. Imitação dos antigos, cópia do real, cópia de uma cópia da Ideia. Loucura, êxtase, logos. Regresso à infância, coito, nostalgia do paraíso, do inferno, do limbo. Jogo, trabalho, atividade ascética. Confissão. Experiência inata. Visão, música, símbolo. Analogia: o poema é um caracol onde ressoa a música do mundo, e métricas e rimas são apenas correspondências, ecos, da harmonia universal. Ensinamento, moral, exemplo, revelação, dança, diálogo, monólogo. Voz do povo, língua dos escolhidos, palavra do solitário. Pura e impura, sagrada e maldita, popular e minoritária, coletiva e pessoal, nua e vestida, falada, pintada, escrita, ostenta todas as faces, embora exista quem afirme que não tem nenhuma: o poema é uma máscara que oculta o vazio, bela prova da supérflua grandeza de toda obra humana!


Por fim, não posso deixar de homenagear e relatar aqui minha tristeza pela morte daquele que foi com toda certeza um dos maiores poetas que essa pátria já viu: Manoel de Barros. E para homenagear um poeta de tal grandeza, talvez somente seus próprios versos lhe façam jus. 


A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.

Obrigado, Manoel!

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Liberdade e Poesia


"Onde não vai o pé, vai o olhar, onde o olhar pára, pode continuar o espírito." (Victor Hugo)

Tive o prazer de iniciar há algumas semanas, na companhia de dois caríssimos amigos, um estudo da vida e obra do poeta e santo espanhol, São João da Cruz. Foi apenas o início, mas já pudemos perceber que trata-se de uma obra lindíssima. Porém um fato em especial me chamou a atenção na biografia desse santo carmelita: São João da Cruz escreveu parte de sua obra, de seus mais belos poemas, enquanto estava preso. Perseguido por suas ideias, ele foi aprisionado em uma cela extremamente pequena, onde mal cabia seu corpo e onde ficou por meses. Em um ambiente quase sem luz, difícil até mesmo para se mover, São João da Cruz escreveu belos poemas! Considerado um santo contemplativo, quase um místico, a obra do poeta carmelita aponta para um caminho de meditação, de contemplação do espírito. E talvez isso explique o fato do santo ter conseguido, apesar do cárcere, manter seu espírito livre e criativo.

Entretanto, o que eu gostaria de destacar no momento é como a história literária está repleta de exemplos de grandes autores, que apesar da experiência do cárcere, conseguiram manter-se criativos, pensantes e conseguiram, de alguma maneira, manter vivas suas liberdades. Tomás Antônio Gonzaga, Dostoievski e Cervantes são apenas alguns exemplos de escritores que fizeram da experiência do cárcere o primeiro bater de asas de muitas e muitas palavras, versos e histórias. Talvez poucos tenham passado com tamanha serenidade (e por uma experiência tão hostil) como São João de Cruz. Mas assim como o santo, esses grandes autores merecem todo reconhecimento e admiração por suas obras, por toda persistência em manter vivo o espírito criativo. Mantiveram viva a certeza de que a poesia e a literatura em geral sempre voarão de mãos dadas com a liberdade, seja em longos campos verdes e floridos ou entre quatro paredes!

Gostaria de encerrar esse breve comentário com um dos poemas mais famosos de São João da Cruz, Noite Escura:

Noite escura (São João da Cruz)

Em uma noite escura,
De amor em vivas ânsias inflamadas,
Oh! ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
Já minha casa estando sossegada.

Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
Já minha casa estando sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em sítio onde ninguém aparecia.

Oh! noite que me guiaste,
Oh! noite mais amável que a alvorada!
Oh! noite que juntaste
Amado com amada,
Amada já no Amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna, o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava,

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Parábola do Inverno



Parábola do Inverno

Fazia-se uma fogueira
Para ouvir estalinhos.
E o fogo nascia
Madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.
...
O inverno
Fazia um calor de abraço.
...
Na roça
Tinha bicho-que-queima,
Bicho-que-acende-e-apaga,
Bicho-que-brilha,
Bicho-que-sai-à-noite
E faíscas vira-latas.
...
As velas gostavam de iluminar gente,
De brincar com dedos,
De derreter o escuro bem devagarinho.
...
O frio deixava o fogo
Cada vez mais madurinho.
E pegava no girassol
E no canarinho.

                   (Do livro Parábolas de Quintal - Denis Mattos)