As duas mães (Josephin Soulary)
Numa igreja se encontraram
Duas mães, em certo dia;
Uma entrava, e nesse instante,
Toda cheia de alegria,
Orgulhosa e triunfante,
Levava, chegando ao peito,
Um filhinho a baptizar.
Outra, a infeliz que saía,
Levava um filho também...
Oh! mas essa pobre mãe
Levava um filho a enterrar!
Cruzararam-se, a poucos passos,
A que trazia nos braços,
Cheio de vida e conforto,
O filho dos seus encantos,
E a triste, lavada em prantos,
Que seguia o filho morto!
Trocaram ambas o olhar...
Nisto a mãe afortunada
Foi a que rompeu a chorar;
Enquanto a desventurada
Que o filho tinha perdido,
-Oh maravilhas do amor!-
No meio da sua dor
Sorriu ao recém-nascido!
Poesia XXXI (Victor Hugo)
A campa dizia à rosa:
Que fazes tu, flor viçosa,
Do orvalho da madrugada?
E a rosa diz docemente:
Que fazes de tanta gente
Que jaz em ti sepultada?
Do orvalho que em mim ressume
Eu faço um suave perfume,
A flor falou com vaidade;
Eu faço, a campa falou,
Do corpo que me chegou
Um anjo na imensidade.
Maio (François Coppée)
Há um mês foste-te embora;
E eu sofro de ti distante,
Embalde viceja agora
O lilás fresco e odorante.
A sós, fujo ao claro brilho
Deste céu que me exaspera,
Pois aumenta o horror do exílio
O esplendor da primavera.
Contra os vidros transparentes
Da alcova de onde não saio,
Batendo as asas trementes
Ouço os insectos de Maio.
Do sol ao rútilo beijo
Cerro os lábios, desgostoso,
E só, do lilás desejo
O húmido ramo cheiroso;
Pois em meio às suas dores,
Do lilás, minh'alma em ânsia,
Vê teus olhares — nas flores,
Teu hálito — na fragrância.
Traduções: As duas mães - Bulhão Pato; Poesia XXXI - Ary de Mesquita; Maio - Raimundo Corrêa


