Meu estômago está queimando. Não costumo sentir azias ou coisas do tipo, mas acho que essa queimação é consequência de uma pequena aventura pela culinária baiana.
O estômago é o órgão incendiário. Deixando de lado alguns pratos “arretados”, quem nunca sentiu o estômago queimar, arder por uma paixão? O fogo da paixão também arde no estômago. Por uma questão talvez poética, preferiu-se considerar o coração o órgão da paixão, símbolo dos apaixonados. Porém, quem realmente se inflama com uma boa paixão é o estômago. Mas vá lá, que considerem mesmo como símbolo o coração! Afinal, seria bastante estranho um casal apaixonado cravar numa árvore um estômago com seus nomes no meio.
Fato é que, tanto para acarajés ou para paixões, o estômago pede sopro. Cabe a nós distinguirmos a sutil diferença entre os sopros pedidos: o estômago que queima por azia pede um sopro que apague de vez o fogo. O estômago apaixonado pede um sopro mais brando, que deixe a brasa sempre acesa. Pede o sopro de quem ama. E eu afirmo aos estômagos apaixonados: o amor sabe soprar como um bom churrasqueiro...
quinta-feira, 15 de março de 2012
sexta-feira, 2 de março de 2012
Outras cozinhas (sobre o mar)
O Homem e o Mar (Baudelaire - Tradução: Ivo Barroso)
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
Homem livre, hás de sempre estremecer o mar!
O mar é teu espelho, e assim tu’alma sondas
Nesse desenrolar das infinitas ondas,
Pois também és um golfo amargo e singular.
Apraz-te mergulhar ao fundo de tua imagem!
Nos braços e no olhar a tens; teu coração
Às vezes se distrai da interna agitação
Ouvindo a sua queixa indômita e selvagem.
Sempre fostes os dois reservados e tredos:
Homem – ninguém sondou as tuas profundezas;
Mar – ninguém te conhece as íntimas riquezas;
Tão zelosos que sois de guardar tais segredos.
Já séculos se vão, contudo, inumeráveis
Em que lutais sem dó um combate de fortes;
E como vós amais os massacres e as mortes,
Ó eternos rivais, ó irmãos implacáveis!
Mar português (Fernando Pessoa)
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
Cantigas Praianas: I- Ouves acaso quando entardece (Vicente de Carvalho)
Ouves acaso quando entardece
Vago murmúrio que vem do mar,
Vago murmúrio que mais parece
Voz de uma prece
Morrendo no ar?
Beijando a areia, batendo as fráguas,
Choram as ondas; choram em vão:
O inútil choro das tristes águas
Enche de mágoas
A solidão...
Duvidas que haja clamor no mundo
Mais vão, mais triste que esse clamor?
Ouve que vozes de moribundo
Sobem do fundo
Do meu amor.
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